08 janeiro 2010

Cine Privê

Mário, acabei de ler Cine Privê e concordo que se trata de um bom livro, aquilo que me preocupa é quando o Antônio Carlos Viana é apresentado como a melhor expressão do conto no Brasil. Não é bem assim. Os contos são bons, aquilo que ele toma de empréstimo de João Cabral e Graciliano – a prosa enxuta e direta –, conservando ambigüidade e o lance da história que não termina no ponto final são excelentes, mas são recursos utilizados por todo mundo. Todo mundo evita verborragia e quem leu as teses do conto de Piglia sabe que ambigüidade e história secreta são elementos básicos. Tudo bem, imagino que você esteja pensando – como todo mundo, aliás – que a questão não é essa, mas a habilidade do escritor em saber lidar com tais elementos. Concordo, sem dúvida, mas eu posso citar uns dez contistas que fazem isso tão bem e até melhor do que o Viana, quer um exemplo?, o Ronaldo Correia de Brito. Em Viana a prosa enxuta e seca serve para conferir mais efeito nos flagrantes de personagens em situação limite, normalmente advinda da miséria e loucura. Aliás, de miséria e loucura padecem as personagens do Antônio Carlos Viana. Não é uma crítica, todo escritor tem suas obsessões. Não acredito em escritor que não tenha obsessão. A vontade de matar o irmão ou fornicar com a mãe, sofrer na pele e alimentar o despotismo do pai, além da possibilidade de poder recorrer ao suicídio e por isso encontrar lenitivo para continuar vivendo já nos rendeu excelentes obras primas. Mas a força dos contos de Viana parece residir muito mais no choque que nos causa o quanto na merda seus personagens estão afundados do que na realização material da escrita. Ele se orgulha de colocar na fala da personagem o discurso possível daquele personagem, condicionado pelo meio cultural como se isso fosse uma novidade e não uma característica já fartamente utilizada por naturalistas e regionalistas etc. Mas, retomando o que eu falei no início, o cara é bom e tudo mais, apenas não é a melhor expressão da literatura contemporânea. Não pode ser e se for, preocupa-me as veredas estreitas dessas nossas letras nacionais.

2 comentários:

Mário Rodrigues disse...

Nivaldo,

Para citar alguém que você respeita intelectualmente, Ronaldo Correia de Brito, não dá para sair definindo quem é o melhor contista do Nordeste, do Brasil ou do mundo. Mas, enquanto leitor, agradam-me as histórias, a linguagem e o universo retratados por Viana. Se é opção, se é inapetência, de que isso importa? Não procuro gênios (não os reconheceríamos) na Literatura, nem mártires nem santos. E se ele “é bom e tudo mais”, qual a razão do lamento?
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Um argentino (Piglia) diz que é essencial o jogo entre o vacilo do início e a certeza do término e que o conto é um relato que encerra um relato secreto, mas outro argentino (Sábato), falando de romance e de conto, nos leva a crer que a diferença é apenas o número de páginas: “Guerra e Paz é um romance e Bartleby um conto”. E aí?
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E se os latinos todos estiverem errados, e o alemão (Hegel) estiver certo: “A arte (inclusive o conto) não avança e nem retrocede: a arte acontece.” E se for como estipulado por um espanhol (Cercas, livro do ano na Espanha): “Só será possível combater a notória agonia do gênero regressando ao momento do seu esplendor", "voltemos ao séc. XIX”.
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Não se pode perder o prazer da leitura, não se pode perder o prazer da escrita. E lembre-se: Que bom que Chandler não foi original, que bom que ele, assumidamente, imitou Hammett.

Valeu.

Pedro Henrique disse...

Estou terminando, assim espero, de ler "o mulo", de Darci Ribeiro, de quem não conhecia nada de literatura. Me surpreendi com a leitura...Trata das reminiscências de um mal nascido, por muito tempo mal vivido e que, moribundo e só, dá destino às sobras.
Não inventou a linguagem, como em Grande Sertão de Guimarães Rosa, apesar do cenário e da grande alma do escritor, ao contrário, me parece que se isso for uma qualidade, o discurso possível pelo personagem, vou ter que encontrar outra pra justificar o meu agrado.
O tema também não é novidade desde que inventaram a escrita.
E agora?
Ri em algumas páginas, pesaroso em outras, encantado com a fluência e o ritmo em algumas e me dou por satisfeito..

Já essa comparação inevitável com Ronaldo...é outra coisa.