quinta-feira, 26 de novembro de 2009

u-Carbureto

Terça-feira passada o Helder Herik lançou seu segundo livro de poemas. As Plantas Crescem Latindo foi confeccionado em São Paulo e leva o Selo u-Carbureto. O evento aconteceu no SESC que tem sido um bom parceiro, principalmente depois da criação do seu Laboratório de Literatura, espaço reservado para uma boa conversa se o assunto for literatura. Lá já esteve o Raimundo Carrero fazendo a sua Oficina e há promessas de outros encontros. No lançamento das Plantas tivemos também o lançamento do Selo u-Carbureto que já foi nome de jornal literário e agora é o nome de um projeto ousado que tem como objetivo fazer o papel que as grandes editoras negligenciam em nome dos apelos do mercado. Não é apenas o de publicar autores como Helder que reside longe dos grandes centros – e é bom salientar que grande centro é Rio e São Paulo – mas o de publicar bons trabalhos e mostrar que mesmo longe do eixo “civilizado” há vida literária e, quem sabe, boas surpresas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

2012

Há numa cena do filme Amadeus um episódio interessante. No final da apresentação de uma das peças de Mozart, não me lembro qual, todos esperam batidas fortes dos instrumentos anunciando o fim, mas diferente disso, as notas lentamente se calam. Sem gran finale ou apoteose. Mozart espera o reconhecimento de sua originalidade, mas ao invés disso, é questionado por aquele final sem graça e sem sentido.

O que isso nos diz? Que as pessoas são assim, elas buscam sentido e ordem em tudo. Aquilo que tem começo precisa ter um fim. É essa, talvez, a razão por que damos tanto crédito aos vaticínios de fim de mundo. O fim do mundo anunciado centenas ou milhares de anos atrás estabelece um nexo de ordem no caos. Outra razão, que tem tudo a ver com a primeira, é uma pretensão que alimentamos em torno do que somos e do que representamos. Creditamos a nós mesmos uma importância de protagonistas do universo. Assim como os judeus, nos sentimos o povo escolhido. Montesquieu traduziu nossa natureza numa passagem do seu Cartas Persas, no livro ele diz que mesmo que a imortalidade da alma fosse um erro, sentiria não crer nela porque o satisfaz a idéia de ser tão imortal quanto Deus. Ele chamava aos ateus de os verdadeiros humildes.

Não creio que o mundo vá acabar em 2012, mesmo sendo isto um vaticínio da ciência e religião juntas. Dizem que um dos calendários Maia acaba na data correspondente ao nosso 21 de dezembro de 2012. tampouco por isso. Mas não sou radical, acho que um dia algum cataclismo vai extinguir da face da terra a aventura humana, mas quando isso acontecer, não vai ser anunciado, vai ser num dia como qualquer outro, um domingo à tarde de sol e boas recomendações meteorológicas. Vai nos pegar a todos desprevenidos e vamos todos, com nossas caras espantadas, perecer como sempre existimos, sem o menor sentido.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

a casa

Não me lembro quando cheguei aqui nem por quem fui trazido. Sequer sei a razão. Adormeço e acordo e é como se não houvesse sucessão, todos os dias cabem num só dia, por isso desisti de contá-los; são iguais. A verdade é que me acostumei, e só me sinto incomodado nas várias ocasiões durante as quais minhas pernas se recusam a andar, e sou obrigado a ficar na cama com o corpo dormente e banhado em suor. Nessas ocasiões sofro o inferno de sentir o tempo passar. São eternos os dias.

Aqui é tudo muito grande, com paredes dobradas e tetos que medem a altura do céu. Sei que me chamam de exagerado, dizem que pra mim tudo é conspiração, mas nada me tira da cabeça que dimensões tão disparatadas só podem ser obra de quem tudo faz para nos acentuar nossa pequenez. Também dizem que há uma saída – diferente dos mais novos já não me fascinam as especulações, – o certo é que aqueles para quem foi dado conhecer a saída, não retornaram. Certo dia, ouvi um dos donos da casa dizer que só nos interessa conhecer a saída quando nossa permanência aqui não fizer mais sentido. Depois daquele dia aumentei ainda mais meu receio deles, e não tenho dúvidas, é isso o que nos distingue; para eles – os donos da casa – faz sentido estarmos aqui.

Um de meus companheiros formulou uma interessante teoria, para ele este lugar foi construído por algum arquiteto a quem muito perseguiram os pesadelos na sua infância, pois afora os corredores que dão todos para escadarias que dessem mil degraus, as salas todas se ligam a outras e estas a outras e assim ad infinitum, e o mais espantoso é que uma não é apenas a extensão da outra, mas a sua mais perfeita repetição.

Não me lembro quando ele chegou, provavelmente num daqueles dias em que minhas pernas me penitenciavam. Soube-o dos outros, parece que provocou alarde logo nos primeiros dias, coisa que muito desagradou os donos da casa. Para aqueles a quem a casa há muito subjugou, alguma coisa nele lhes despertava de sua inércia, havia um alento, um não sei quê que dava aos homens, novo ânimo.

Nos primeiros dias, apesar do entusiasmo geral, confesso que não dei por isso. Durante muito tempo alimentei expectativas, algumas assombrosas, sobre a casa e o nosso destino, entretanto minha empresa de percorrer nove salas por dia ano após ano não logrou êxito. Somados os anos e os dias e depois tudo isso multiplicado pelo número de salas teremos o equivalente a uma vida inteira, e nunca, por mais perscrutador, nunca, insisto, divisei a menor diferença entre as salas.

Uma vez em que eu estava na mesma sala em que ele chegou acompanhado por uma turba de ruidosos seguidores, não obstante o calor e o desconforto, decidi ouvi-lo, e assim o fiz de soslaio. Seu enorme discurso fazia apologia da humildade e da misericórdia, convidava-nos à pobreza e à paz e disso inferi um juízo que ainda hoje conservo. Suas palavras não infundem convite nenhum à rebeldia, eu disse a um circunstante, Por que então temer?, e nesse ponto me referi a quatro homens, cada um postado numa porta que dava acesso àquela sala, Não havia de quê nos escondermos, prossegui, Certamente os donos da casa gostarão de saber que entre nós há um pacificador, alguém que nos ensina a suportarmos nossas dores e não reclamar um til. O homem ao meu lado não discordou, também não disse nada.

Naqueles dias me julguei curado da indiferença. Entre uma coisa e outra que maquinei, uma particularmente me pareceu verossímil. Ele, com seu discurso de sujeição e conformismo, devia ser alguém contratado pelos donos da casa. Naquele tempo havia alguns entre nós que falavam em revolta e fuga em massa, e isso não devia ser do desconhecimento dos donos da casa (Eles sabiam e controlavam tudo), uma prova disso eram suas leis e exigências de inquilinato cada vez mais duras e severas. A sensação, quase insuportável naqueles dias, de que tudo poderia explodir, foi pouco a pouco arrefecendo, e no lugar dos homens de semblantes endurecidos e desejo eloqüente de luta, o que se viam eram cordeirinhos a caminho do abatedouro.

Em vão tentaram me dissuadir. Alguns entre meus companheiros tornaram-se legítimos discípulos dele, e me repreendiam as palavras e os modos. Diziam da minha interpretação, pessoal demais para o gosto deles e também equivocada e estúpida.

Um dia, ainda nas primeiras horas, um barulho me tirou do torpor. Alguns homens, entre eles meus antigos companheiros, entraram naquela sala e ganharam a seguinte, atrás deles muitos outros seguiam ofegantes e espavoridos. Alguma coisa estava acontecendo, deduzi, e depois de relutar com o próprio corpo em deixar o canto de parede, me pus em marcha.

Nove salas depois deparei a razão de toda aquela desordem. Ele estava se despedindo de todos, havia ovação e muito choro, algumas mulheres rasgavam as próprias vestes e os homens, desnudos da cintura para cima, auto flagelavam-se. Uma comoção havia se apoderado de todos e uma atmosfera de expectativa pairava no ar.

A voz dele cresceu e fez calar a multidão, e nesse momento reparei que dois comparsas dos donos da casa seguravam-no com força. Disse que estava cumprindo seu destino, por isso precisava deixá-los, mas prometia um dia voltar para lhes mostrar a saída. Depois disso, as mãos que o seguravam se enrijeceram e o arrastaram daquela sala, e quando o som das passadas cessou, era só silêncio e tristeza, e a certeza, passado algum tempo, de que ninguém mais atinava com o rumo das portas.

Muitos anos se passaram desde aquele dia, e muitos são os que ainda esperam por ele. Eu nunca esperei, não sou doido. E nos dias que se seguiram eu me vi obrigado a quebrar de vez em quando uma cabeça. Eu não queria, nunca fui de violências, mas os companheiros que desistiam de esperar, imploravam por isso, e tanto faziam e insistiam que a única forma de recobrar a paz era lhes fazendo a vontade. Os donos da casa quando ficaram sabendo me proibiram, mas como eu não lhes dei ouvidos e com o tempo acho que desenvolvi prazer naquilo, não sei se porque fazia a vontade de meus companheiros ou se porque contrariava meus superiores, o fato é que depois de muitos miolos espalhados nas paredes, os donos da casa acharam de me manter preso numa sala só minha. Hoje durmo mais do que sempre dormi, às vezes adormeço em pé, e se caio ou permaneço em pé, tanto faz, as paredes como o chão não me deixa machucar.

sábado, 10 de outubro de 2009

nobel

Herta Müller, 56 anos, é o mais novo prêmio Nobel de literatura. A mulher veio dos cafundós do Juda e a melhor coisa que li a respeito de sua produção é que é uma escrita simples. Não sei até que ponto isso pode constituir um elogio. Isso quer dizer que uma escrita complexa não presta? É por isso que Borges nunca ganhou, e olha que ele esperou que só pelo prêmio, morreu com quase noventa anos e eu acho que se não fosse essa espera prolongada, se não fosse a esperança que mantinha incólume, afinal diziam que ele era a maior expressão literária do século XX. Se não fosse esse monte de equívocos, menos o de que era um bom escritor, acho que ele teria morrido antes, em paz consigo mesmo, sem mais desgaste, um bom ateu e pessimista digno.

Mas o critério do prêmio Nobel sempre me pareceu uma coisa cretina. Mas cretina no mais profundo sentido do termo. Tive certeza disso quando eles anunciaram o prêmio a Dario Fo, em 1997. Esse imbecil e completo desconhecido e laureado pelo Nobel que logo logo vai desaparecer quase tão rápido quanto aquele escritor que Drummond chama de gauche e que publicou seu livro de contos por uma gráfica, sem selo nem código de barras. Esse Dario Fo de quem a única coisa boa que sabemos é que é viado, escreve umas peças de teatro e o mérito delas, segundo a justificativa do prêmio, é que defendem a dignidade dos oprimidos do flagelo dos déspotas. Primeiro que oprimido nenhum tem dignidade e mesmo que tivesse isso é lá justificativa para se avaliar as qualidades de um texto? Quer dizer que basta isso, ter boas intenções? Mas não é de boas intenções que o inferno está cheio?

A verdade é que o prêmio não está interessado no valor do escritor. Entre a grande maioria dos laureados, com exceção de um Thomas Mann, de um Faulkner e outros, o critério sempre está subordinado a questões muito mais de ordem política do que literária. Mesmo o Thomas Mann que eu citei, teve a legitimação do prêmio não pelo valor literário da obra, mas por sua postura de escritor contrária ao Nazismo. E se muitos ganharam o prêmio por suas escolhas políticas porque apoiavam o Comunismo, por exemplo, como uma força de reação ao poder do grande capital e da injustiça social, hoje que a verdade veio à tona e o Regime de Lênin e Stalin se confunde com uma ditadura anacrônica da América do Sul, Herta Müller é laureada e tem o reconhecimento do prêmio pela sua escrita simples e sua postura ideológica contrária ao Comunismo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

dízimo

O som do coral até que não era mal, ademais Israel não tinha nada pra fazer quando passava diante das portas abertas da igreja evangélica, e por isso entrou e se sentou com fastio. Depois de passear os olhos nos arredores ali dentro, desconfiou de que os santos haviam sido banidos do céu, entre tantas paredes lisas, só havia no centro uma cruz.

Fazia muitos anos desde a última vez que pôs os pés numa igreja, pra falar a verdade nem se lembrava mais que havia igrejas.

Chamou sua atenção uma morena sentada à frente. O banco de madeira com encosto exagerado roubava-lhe alguma certeza, mas não era difícil imaginar, os ombros e o pescoço longo forneciam as pistas; devia ser dona de cintura fina e um rabo de encher os olhos.

De vez em quando ela olhava pra trás. Não era nada com Israel, provavelmente não o notou ainda, seu olhar passava ao largo e ia dar na porta.

À sua frente, num compartimento no encosto do banco, Israel encontrou um envelope. Enfastiado pegou o envelope e leu o que dizia: IGREJA UNIVERSAL. Em baixo, em itálico: Trazei todos os dízimos à casa do Senhor. Mateus 3,10; e em seguida: Porque Deus ama a quem dá com alegria. 2 Coríntios 9,7, e finalmente pedia o nome do fiel contribuinte, o mês e o valor da oferta.

Israel sorriu desconfiado das boas intenções, e displicentemente se recostou ao banco à sua frente – o banco da morena – tomado por um grande desejo de tocar os cabelos dela.

Ao seu lado, a uma distância de um metro e meio, talvez dois, um rapaz fitava a cruz lá na frente. Israel experimentou uma sensação de que já o conhecia. De onde?, não se lembrava, mas sabia que o conhecia de algum lugar.

O coro executaria sua última canção. Antes disso o regente, depois de ovacionado pelo pastor, achou-se na obrigação de ser gentil. Sua cantilena foi breve.

A canção era alegre e Israel esperava que todos se pusessem de pé e batessem palmas; o traseiro da morena apareceria em todo seu esplendor. Ninguém se levantou. Tudo bem, ele pensou, não foi a canção que revelou o traseiro da morena, seria a oração. Todo culto termina com uma oração. Israel não estava com pressa. Ninguém o esperava.

As mulheres que primeiramente povoaram seu imaginário de punheteiro não tinham rostos, mas tinham rabos. O padre mandava que todos se levantassem nos momentos de oração. A mãe nunca foi condescendente, ela e sua cruzada em evitar a influência perniciosa do diabo. Por isso não dormia no ponto e o levava à igreja, fizesse chuva ou sol. O menino então ficava assim, com aquele monte de rabos à sua frente. Rabos metidos em saias e rabos metidos em calças apertadas que desenhavam seus contornos. A mãe não sabia, mas naquele tempo seu filho não conseguia ir à missa com outra intenção senão a de desnudar aquelas mulheres e possuí-las em cima daqueles bancos desconfortáveis.

Então aconteceu. O magricela pegou o envelope à sua frente e depositou nele algumas cédulas. Agora Israel sabia de onde o conhecia, vira sua fotografia no jornal, o suicida frustrado que outro dia parou a avenida ameaçando pular de um prédio. Os bombeiros se arriscaram numa operação felizmente bem sucedida e o agarraram por trás no momento em que pulou. O bombeiro ficou preso numa corda e quase despencaram os dois. As pessoas aplaudiram, e a coragem do bombeiro ocupou as principais manchetes.

Israel sabe que os protestantes pagam de dízimo dez por cento de seu salário. Encheu os olhos. O magricela suicida ajeitou-se. Levantou-se e foi embora com a música ainda pela metade. Não esperou pela oração. Levantou-se antes da hora. Israel não acreditou, estava sozinho com o dízimo do outro. Precisava apenas pegar e meter no bolso o envelope com tudo dentro.

O pastor está com o microfone e uma vez mais faz missa de corpo presente. O maestro se incomoda. O coral não merece tantos elogios. Era modesto, muito tem que melhorar. O maestro está enfastiado.

Todos se levantam. A morena também. Ele só tem olhos para o envelope. Ninguém está vendo. O envelope está próximo, é só esticar a mão. Uma coisinha de nada, esforço nenhum. O pastor pede a Deus que continue protegendo todo mundo ali dentro. Só tem gente de bem, fiel cumpridor do pagamento do dízimo. Ele está com o pacote na mão. Todo mundo continua de pé, acabou-se a oração. Todo mundo já foi abençoado e é muito remota a possibilidade de ser assaltado ou ter o ônibus metido em algum acidente até em casa. Ele continua ali, no mesmo lugar. Ninguém percebeu seus movimentos. Muitos, como ele, seguram envelopes, escrevem nele e depositam cédulas de dinheiro. Não há perigo, pode também segurar o envelope. O nome ali escrito pode ser o seu. Ninguém há por que duvidar. Estamos entre fiéis servidores e pagadores. O dízimo é que importa. Pagar o dízimo e gozar da segurança de chegar a casa.

Tudo está muito bem, afinal Deus existe e é pai, não é padrasto. Já começava a lamentar não vir mais vezes à igreja quando se deu conta do nome ali escrito. O mesmo nome de seu pai. Um Silvio subscrito, trêmulo e desenhista de uma letra semi-analfabeta, dessas que se aprende depois de adulto, em programa de alfabetização do Governo. Silvio achou pouco em penar para subscrever o próprio nome e informar que era maio e o valor de que podia pagar não passava de uma surrada nota de cinco reais. Também desenhou uma frase começada com H. H de “horem por mim”.

Israel deixou o envelope onde estava. A morena passou por ele. Não pôde ver o rabo dela, entre os dois se interpôs a multidão. Lá fora o hálito morno da cidade fazia tudo se mover em câmara lenta. Agora não tem jeito, pensou, e tomou a direção da parada de ônibus.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Literaturas

Eu gosto de literatura que desafia a inteligência do leitor, afinal sou leitor de Osman Lins e houve um tempo na minha vida que precisei exorcizar o Guimarães Rosa. Também gosto do Samuel Beckett, não o do Como É, mas de Malone morre e os outros da trilogia, além das Novelas (excelentes) e Primeiro Amor que li e reli na edição da Cosac. Também sou leitor de Borges e Faulkner e por ai – se não vou parecer pedante – você percebe que sou um leitor pelo menos razoável. Mas, de vez em quando me deparo com um desses escritores que a crítica consagrou como monstro e coisa e tal e quando estou lendo começo me sentir culpado e infeliz quando percebo que não estou gostando ou não estou entendendo nada. E o engraçado é que também me sinto culpado e infeliz quando leio um autor que faz o caminho inverso, uma literatura que poderíamos chamar – Rodrigo Lacerda chamou – de conservadora do ponto de vista formal, e percebo que aquele livro, livrinho em que aparentemente não há nenhuma preocupação com estilo e o autor parece apenas preocupado em contar uma boa história, está me dando um enorme prazer. Tudo bem que tem o Philip Roth que pode ser muito bem enquadrado no perfil de escritor conservador, e há também o Cormac McCarthy que não é propriamente um experimentalista, e o Jorge Amado, Rubem Fonseca, Mário Vargas Llosa etc. Então fico me perguntando: por que a crítica se comporta assim, por que medir o valor de um livro concedendo-lhe maior ou menor mérito a partir do grau de parentesco que ele estabelece com Finnegans Wake?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

dois contos dA Razão Selvagem

Em Redes há um jogo interessante com o termo e suas variantes. É a rede onde a personagem se balança. A rede ou teia da aranha, mais tarde comparada com a clínica, outra rede, onde ele e os outros internos estão presos como insetos. É o monólogo de um louco. Ele está numa clínica, balança-se numa rede e faz comentários a respeito do ambiente além de descrever os volteios de uma aranha que se move carregando sua pata morta. Não fosse a constatação da loucura, eu diria que estamos diante de um personagem saído de um livro de Beckett.

A aranha carrega em si a impossibilidade de caminhar livremente. O obstáculo que se interpõe entre a aranha e seu percurso é essa perna morta, o peso morto, uma suprema dificuldade que a aranha não pode prescindir, assim como a loucura dele que o prende à clínica. A personagem, em primeira pessoa, sofre de esquizofrenia e é a influencia da doença, a lógica do doido, que dá o ritmo do conto. Ele se refere a vozes, teme ser aborrecido por alguém que não conhecemos e menciona a intenção de derrubarem a clínica. Seu único lampejo de lucidez é perceber que é de todos aqueles iguais a ele, o único a não receber visita naquele dia de visitas.

Em Apartamentos um cara depois de atingir certa condição financeira se põe a considerar a possibilidade de investir no ramo imobiliário. Antes disso, porém, resolve viajar e em suas viagens fotografa cidades vazias. Quando retorna monta uma exposição das fotografias e publica um álbum com uma seleção das melhores fotos. Não obtém sucesso nem com a exposição nem com o livro. Arruinado, vende o apartamento onde morava e passa a ocupar um pequeno quarto no apartamento da irmã. Meses depois, parece que num táxi – na verdade não sabe precisar –, surge a obsessão de fotografar apartamentos vazios. A imobiliária não desconfia de seu verdadeiro propósito, fornece-lhe as chaves dos apartamentos e ele passa a visitá-los levando consigo sua Pratika.

Mas os apartamentos, embora fechados, contêm os barulhos da rua e em todas as incursões ele sempre se depara com alguém. Há um pai e uma filha, cada um apresentando o outro como louco. No final resta ao leitor alguma dúvida sobre a quem atribuir menos sanidade.

Em outro apartamento, uma mulher bate à porta, talvez alguém interessado pelo imóvel. Eles não se conhecem e em poucos minutos estão entregues aos prazeres do corpo numa situação muito próxima ao animalesco. Mais tarde ele vai se lembrar dela e se masturbar para preencher sua falta.

A busca pelo apartamento vazio se revela mais uma identificação pelos espaços vazios do que mera idiossincrasia de artista. No final, não há um sentido, uma lógica, só há o vazio impossível de preencher.