07 fevereiro 2011

Da arte de não ler

Schopenhauer temia que o estudo dos clássicos estivesse ameaçado já no seu tempo. Com efeito, tal risco se evidenciava na sanha ignorante dos leitores contemporâneos do filósofo que – segundo o próprio – pareciam mais interessados nas publicações da moda, livros ruins, segundo ele, escritos por escritores que não viviam para a ciência ou para a poesia, mas da ciência ou da poesia. O pessimista, com boas razões para sê-lo, e que não foi lido em vida, tendo seu valor só reconhecido postumamente, lamentava profundamente a indiferença de seus contemporâneos preocupados com o livro como mero entretenimento – os romances de Eugênio Sue, por exemplo – ou aqueles de abordagens superficiais e não raro equivocadas dos filósofos.

Engraçado como nós às vezes achamos que certos males de nosso tempo são exclusivos de nosso tempo e não um fenômeno também verificado em épocas que consideramos de ouro. Schopenhauer denuncia a futilidade dos leitores de seu tempo e o faz de tal modo que nós – fossemos seus contemporâneos – poderíamos arriscar dizer que era o despeito e não uma análise impessoal aquilo que o movia.

O livro de que trato é o seu: Sobre o ofício do escritor, por sua vez dividido em três partes. Estas impressões são Da leitura e dos livros, o capítulo considerado por mim mais curioso, tão contemporâneas me parecem as preocupações ali manifestadas pelo autor. Curioso é sem dúvida o lamento do escritor num tempo em que o livro figurava como protagonista; constituindo quase sempre entretenimento e fonte de saber dos homens de letras de um tempo e de uma Europa que posava de paradigma cultural do mundo ocidental.

Acho que Harold Bloom estava pensando em Schopenhauer quando afirmou numa entrevista que não acreditava numa criança como leitora de futuro que tivesse sua iniciação com livros comerciais como Harry Potter, por exemplo. Segundo o crítico americano, o estrago seria tão alarmante que a criança, uma vez adulto, continuaria refém de um intelecto atrofiado, e permaneceria lendo e relendo o livro do bruxinho por toda a vida sem jamais (nevermore) permitir-se leituras mais ousadas e desafiadoras. Feitiçaria ou não, o fato é que as palavras de Bloom encontram correspondência numa das máximas do livro do filósofo que diz: “Livros ruins são um veneno intelectual: estragam o espírito”.

E por isso, aos leitores que se reconhecerem nessa categoria, o filósofo aconselha mui sabiamente que “não ler é de máxima importância”.

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