12 dezembro 2010

A Confraria

Eu vi na televisão – só podia ser – que cresce no Brasil o número de leitores. Será?

Vejamos: você é um escritor, e do tipo pretensioso; quer escrever boa literatura mesmo que isso represente fracasso financeiro e na melhor das hipóteses, depois de uma labuta tremenda – porque o esforço recompensa o gênio –, depois de anos e uma pilha enorme de páginas produzidas – algumas ganhadoras de prêmios importantes que não serão notícias no Jornal Nacional –, depois de tudo isso, talvez dois ou três casamentos e uma úlcera, você vai ser um ilustre desconhecido e vai ter de fazer vista grossa quando seu editor não conseguir disfarçar desagrado porque nem se passou dois anos e você já está com um livro novo.

De fato não é muito diferente o universo de um escritor que conquistou boa editora e é distribuído nacionalmente e um escritor ainda não reconhecido, inédito (admitindo o fato que também seja um bom escritor). O primeiro não precisa pagar pela edição do livro, embora não receba um tostão por ela. O segundo paga do próprio bolso, às vezes consegue incentivo do governo ou é promovido pelos amigos. Tanto um como o outro terão tiragens muito próximas e insignificantes: o primeiro três mil exemplares, o segundo mil. Nenhum dos dois espera uma segunda edição. (no campo das improbabilidades, a segunda edição de um livro vem logo após a segunda vinda de Cristo)

O primeiro terá seu livro exposto na vitrine das principais livrarias durante uma semana inteira, depois os livros serão recolhidos para as estantes secundárias e passado um mês são despachados para o depósito e em seguida devolvidos à editora que vai tentar uma parceria com o governo num desses projetos de incentivo à leitura e se tudo der certo aquele livro de contos que dialoga com Cortázar e Osman Lins, leitura densa e difícil, vai ser adquirido pela metade do preço e depois de vencer toda a burocracia vai parar numa prateleira bonitinha, pintada de verde e recostada numa parede cheia de desenhos de uma escolinha de primeira a quarta série.

O segundo vai fazer um lançamento para o qual serão convidados os amigos que vão comprar o livro para ajudar (não confundir com ler) estamos falando de filantropia, as pessoas estão imbuídas de um propósito mais nobre e sem falar que não lendo o livro a gente conserva o mito de que o autor fez por onde merecer seu nome indelével, com letras garrafais, na capa.

O que acontece hoje em dia é uma troca de figurinhas, foi o Marçal Aquino quem disse, e ele tem toda a razão. Quem ler literatura, boa literatura, é escritor. O aumento de leitores de que falam – o governo, que não é besta, e precisa vender seu peixe sobre os projetos nas áreas de educação e cultura – é mentira, conversa pra boi dormir. A tiragem de um escritor importante no Brasil não passa de três mil exemplares. Que história é essa de leitores? Que leitores? Do Paulo Coelho? Da Zibia Gasparetto? De auto-ajuda? Do livro que virou superprodução hollywoodiana? Não vale. É lixo.

Autofagia é o que existe de fato. Quer um exemplo? Pois bem, vou dar o exemplo: um grupo de escritores locais criaram um jornal literário que só teve cinco edições porque ninguém agüentava mais correr atrás de patrocínio. O jornal é bonito – alguns o consideram pretensioso. Um dos editores do jornal conheceu um escritor importante de São Paulo por ocasião de uma dessas festas literárias. Como esse tal escritor fosse muito simpático, o tal editor do jornal perguntou se ele não estaria interessado em colaborar com seu jornal. De fato é muito simpático o escritor, pois não apenas aceita como se sente (ou ao editor pareceu) lisonjeado. O conto foi mandado via e-mail e quando os editores – são três – venceram as dificuldades de praxe e pagaram à gráfica, o conto do escritor importante foi publicado numa das páginas principais. Todo mundo ficou orgulhoso. Como era de se esperar, alguns exemplares foram mandados para São Paulo, no endereço da residência do escritor importante que de fato é muito simpático.

Perceberam?

O texto do escritor de renome foi lido pelos escritores locais que tiveram seus textos lidos pelo escritor de renome. Escritor ler escritor que ler escritor. Está formada a Confraria, o resto é conversa, enganação do governo, manipulação de dados.

2 comentários:

Negro Sangue disse...

Nivaldo, vou tentar colocar sua idéia em prática. Lembra? "Curso de leitura". Tentarei implementá-la em uma escola aqui da cidade, em 2011.

Erick Camilo

Vanessa Souza Moraes disse...

Será? Não sei.