23 junho 2010

Paris é uma festa

Tenho saudade de meu tempo de jovem adolescente quando lia sem entender nada os teóricos do Comunismo. Tenho saudade de Sandra, uma menina por quem estive apaixonado ali pelos meus 13 anos. Ela era linda, já tinha peitos – o que me rendia certa catarse solitária – e nutria por mim o desprezo característico que as meninas de 13 anos sentem pelos meninos da mesma idade. Sinto saudades de outras coisas que vivenciei e de pessoas que já não são as mesmas ou deixaram de existir. Mas também sinto saudades de lugares por onde nunca andei e de épocas que nunca vivi.

Uma dessas épocas é a década de 20 e um dos lugares – alguns já adivinharam – é a França. Paris, para ser exato. Tal experiência se repete todas as vezes que leio Paris é uma festa, do Ernest Hemingway. O testemunho que dá o autor é autobiográfico. O livro não é ficção, é memória e sem dúvida nenhuma se constitui na gênese de outro livro – este sim, de ficção – que eu leio com o mesmo deleite do primeiro. Todos já sabem: O Sol também se levanta. A atmosfera – ou a sensação que em mim provoca – que provém de Paris daqueles primeiros vinte anos do século passado povoada de artistas, músicos, poetas e escritores, a maioria pobre, muito antes da fama, vivendo um período de formação, mas sem a rigidez que lhes proibisse o prazer de tomar vinho, uísque e o que mais lhes ajudasse a combater o frio das casas sem calefação. Um período de formação que também incluía frequentar – porque faziam parte do meio – o ateliê de pintores excêntricos que mais tarde se suicidariam de tão excêntricos, acompanhados quase sempre – antes de cortar os pulsos ou morrer de overdose – de mulheres, algumas de vida fácil, mas todas lindas e seduzidas por eles – os artistas – e suas visões de mundo encantadoras, muito embora pessimistas ou niilistas ao ponto de Gertrude Stein taxar aquela geração de perdida. Tal atmosfera, como eu dizia, tem o efeito de me embriagar como o vinho.

Ter vivido naquela época – a mim parece – é pertencer a um dos mais interessantes períodos da história, e é claro que quando digo isto estou ajudando a construir o mito. Mas quem começou foi Hemingway. Foi ele quem disse que era pobre e feliz. Os poetas neoclássicos nos falam da vida campestre e de homens simples e rudes e, por isso mesmo, felizes. Hemingway nos dá conta de homens urbanos, sofisticados, excêntricos e exigentes, porém felizes. Parece uma contradição de termos. Mas, mais do que isso, é a sua experiência. Ele era jovem, estava apaixonado e entusiasmado com sua carreira de escritor. A gente não pode esquecer que o livro foi escrito muitos anos depois, um ano antes de sua morte. Hemingway estava saudosista daquele tempo e por certo idealizou muito, assim como eu faço – muitos fazem – quando lêem o livro e se deixam seduzir por ele.

Andar nas ruas de Paris. Nas ruas não, nas calçadas. Frequentar os cafés e quando não encontrar ninguém para conversar sobre o nosso mais novo projeto literário, sentar a uma mesa, e beber uma taça de vinho olhando para quem passa. Caminhar com eles, homens e mulheres – muitos dos quais morrerão na guerra – e despercebido do perigo que nos ronda, sentindo-se mesmo pleno de felicidade e desfrutando de uma inocência da qual sentiremos saudade mais tarde, imaginar personagens e poder traçar – um minuto antes do clímax alcoólico – alguns perfis de personagens.

Alguém sensato dirá que esta Paris não existe. Jamais existiu senão para Hemingway. Talvez. Não me interessa pensar assim. Só sei que todas as vezes que abro as páginas de Paris é uma festa sinto-me como se tivesse sido minha a experiência – e não a de Hemingway – de viver em Paris nos anos vinte, ao lado de minha esposa que me ama e me admira. Antes do fim da inocência. Mas não é apenas uma lembrança – e aqui me mostro mais poderoso do que o autor. Eu, o simples leitor – parece que ainda estou lá, sou o usurpador da experiência do outro, vivendo todos os dias aqueles dias felizes. Só preciso abrir as páginas. Durante o tempo da leitura dura em mim a sensação de eternidade.

09 junho 2010

Indignação

Tenho lido tudo o que vem sendo publicado do Philip Roth aqui no Brasil, nos últimos anos, e venho fazendo isso desde quando descobri o autor, a coisa de uns dez anos e por puro acaso. O livro que veio parar nas minhas mãos, por força do destino, foi O Teatro de Sabath. Encontrei-o na prateleira da livraria – pequena livraria que, me parece, ainda funciona num quartinho – minúsculo quartinho – na faculdade onde cursei letras no final dos anos 90. Carlos, o dono da bodega de livros, disse que o romance veio parar ali por engano – nas prateleiras só havia livros técnicos, muita coisa de biologia e história e também pedagogia e outros livros que propunham conhecimento e pragmatismo – os clientes do Carlos não perderiam tempo com livros inúteis – e por isso o Teatro estava sendo vendido por um preço realmente ridículo, só pra desocupar espaço na prateleira, disse-me o Carlos. Li o comentário na orelha do livro e o comprei. Mas não foi o enredo ou a informação de que o autor havia conquistado o pulitzer aquilo que me fizeram comprar. Minha maior motivação, devo dizer, foi mesmo o preço, uma ninharia.

Li o livro alguns dias depois e aí não parei mais, vieram depois dele Pastoral Americana, A Marca Humana, Homem Comum e muitos outros como o impagável Complexo de Portnoy. Todos publicados no Brasil. Gostei de cada um deles, uns mais que outros, mas gostei de todos e hoje, dez anos depois do Teatro de Sabath, posso dizer que sou um fã. Sem carteirinha nem gritinho. Apenas fã. O que o Philip Roth escreve eu compro e leio imediatamente, mesmo quando estou interrado até o pescoço noutros projetos de leitura.

Por esses dias li Indignação, seu penúltimo romance – o último já saiu, chama-se A humilhação – nele Roth conta a história de Marcus. Ao contrário de outros personagens que sofrem as pressões da velhice, este é jovem, e nem por isso menos trágico.

Vamos começar do começo, bem simples, não vou dizer tudo, imagino que muita gente ainda não leu e prefere ficar sabendo do desenvolvimento da narrativa pelo próprio Philip Roth, mas é preciso dizer que Marcus, o narrador, conta sua história do mundo dos mortos como o nosso Brás Cubas – isso fica patente na orelha do livro – logo não estou adiantando nada. Pois bem, Marcus, o autor defunto é um menino de 18 anos e estava na faculdade quando tudo começou, o contexto é do início da década de 50 quando seu pai é açougueiro kosher, isto é, vende carne sem sangue para judeus. Os EUA estão em guerra contra a Coréia e Marcus, que perdeu dois primos na Segunda Guerra, morre de medo de ser convocado para ser recruta zero e morrer. E se morrer é uma coisa estúpida e nos desafia os sentidos, morrer na guerra é ainda mais estúpido e sem sentido. Ele é um bom garoto, e de tão bom chega a ser perfeito, sua mãe acha isso, seu pai e todos os vizinhos judeus compradores de carne kosher também concordam. Dedicar-se aos estudos, portanto, que ele já fazia por vocação, pois é menino prodígio, autodidata e leitor dos bons, agora com a guerra e a possibilidade de virar estrume na Coréia, passa a ser, além da única via possível de interromper a tradição de açougueiros da família, a estratégia de que precisa para driblar o Tio Sam e não ser convocado ou pelo menos não ser convocado como soldado raso com todas as chances possíveis de efetiva participação no front.

Vamos lá. Ele sai de casa para fugir do pai porque o senhor açougueiro teve uma coisa, pirou, teve um surto, foi acometido pela síndrome do pânico. De repente ficou desesperado com a idéia – fixa – de que algo de ruim pudesse acontecer com o filho. Único filho. E esse desespero não tinha motivos. Tudo bem que havia a guerra, mas a guerra não convocaria o Marcus, e sobravam motivos pra isso, ele não se enquadrava no perfil de bucha de canhão, estava se graduando, era o melhor da classe. Aluno nota dez. Graduar-se ou se casar valia uma dispensa da guerra. A fixação do pai, portanto, era doença. É a mãe de Marcus quem reconhece isso. Fica claro na conversa entabulada com o filho quando vai visitá-lo no hospital. É ela quem fala do marido, hoje um desconhecido, tão diferente do açougueiro kosher com quem se mantivera casada todos esses anos, alguém que sempre conseguiu se manter na linha, justo, coerente e honesto, um homem de quem ela sempre se orgulhou e agora sentia medo. Tanta é sua convicção de que o marido não é mais o dr. Jekyll, que está disposta a se divorciar dele. Mas não se divorcia, e a isso se deve o acordo que faz com o filho. Ele não devia se encontrar mais com a namorada que cortou os próprios pulsos. Em troca disso desiste do divorcio e volta para Mr. Hide.

Pois é, há a namorada. A garota que faz sexo oral no primeiro encontro e deixa o Marcus meio desorientado. Mas nós estamos na década de 50, estamos nos EUS de maioria cristã e o Marcus, mesmo sendo ateu e dono de bom discernimento, ainda é um homem do seu tempo. Está preso a valores, mesmo àqueles que ele despreza e que, não fosse a precoce interrupção da vida, provavelmente superaria. Nós estamos – insisto – no início dos anos 50, ele só tem 18 anos e há a guerra. A famigerada guerra é a grande causadora do stress.

Pois é, o stress. Marcus não é inconseqüente juvenil como Ícaro, ele não é frágil, impetuoso ou cheio de ódio – talvez um pouco de ódio – mas um ódio por ser incompreendido, por tipos como o diretor e os dois alunos com quem ele divide os dois primeiros quartos. Um deles, o Betram Flusser, que faz barulho e não deixa o colega estudar. Pronto, se muda e quando se muda uma segunda vez o faz por razão diversa, mas ainda assim razão: o Ewleyn Jr. ofende a menina por quem Marcus se julgava apaixonado. Deixa o quarto, procura outro, qual o problema?

O problema é que desta vez tem que se explicar com o diretor da faculdade que o convoca a seu gabinete. Tem de explicar por que em tão pouco tempo mudou-se duas vezes. Marcus explica ou pelo menos tenta. E por mais que se explica não se faz entender. Não adianta dizer que o Betram é um vagabundo, esse sim um inconseqüente, que não deseja estudar nem deixar ninguém estudar. O diretor, que é religioso, e obriga a todos os alunos, cristãos e judeus, além dos ateus, a assistirem ao culto, ministrado por ele próprio, está disposto a não levar em consideração os argumentos de Marcus. Sobre o aluno já formulou seu conceito. E o conceito formulado por ele é de que Marcus está fugindo, do pai, do açougue, dos colegas de quarto, da guerra etc.

Então é a vez de Marcus pirar. É muita pressão, do pai, da guerra, dos colegas de quarto, da mãe e sua chantagem, da namorada que se decepcionou com ele, com sua reação de homem da década de 50 que não consegue encarar numa boa o fato de ser chupado no primeiro encontro e por fim aquele diretor Caudell e seu interrogatório despropositado, um tipo detestável de dono da verdade a quem Marcus considera supersticioso e limitado. É interessante o diálogo dos dois, quando Marcus, cansado de não conseguir se fazer entender na sua enésima tentativa de explicar as razões que o levaram a mudar-se duas vezes, explode e acaba dizendo tudo o que pensa do diretor e da maneira como ele conduz a faculdade obrigando os alunos, independentemente de suas convicções, a freqüentar o culto religioso. Philip Roth, no discurso da personagem, reproduz trechos inteiros de "No que acredito" de Bertrand Russell, livro considerado blasfemo pelos religiosos.

Então Marcus perde o controle das coisas e suas ações mais banais resultam no desfecho trágico. Mais do que Ícaro e sua queda provocada pela inconsequencia juvenil, a queda de Marcus não é tão simples, pois carrega consigo uma boa dose das pressões provocadas por quem não quis ou não pôde entender suas razões mais simples de encarar o mundo e levar a vida.

31 maio 2010

DEUS um delírio

Richard Dawkins, no seu brilhante DEUS um delírio, nos conta que “umas das punições mais rígidas do Antigo Testamento é a imposta à blasfêmia. Ela ainda está em vigor em determinados países. A seção 295-C do código penal do Paquistão prevê a pena de morte para esse “crime”. No dia 18 de agosto de 2001, o dr. Younis Shaikh, médico e palestrante, foi condenado à morte por blasfêmia. Seu crime específico foi dizer aos alunos que o profeta Maomé não era muçulmano antes de inventar a religião, aos quarenta anos. Onze de seus alunos denunciaram-no às autoridades pela ofensa.”

É interessante quando percebemos que a história não revela muitos casos – para não dizer nenhum – de ataques de ateus ou agnósticos contra religiosos. Os exemplos de violência partem quase sempre dos religiosos em direção àqueles que se arrogam o direito de não professar religião nenhuma ou o de admitir simplesmente seu sentimento de negação para com Deus. Eu conheci um professor de inglês que passou uns dias vivendo em nossa cidade, onde se empregou em algumas escolas. Ele apresenta duas peculiaridades que o distingui do tipo mais comum e normalmente aceito de heterossexual e cristão, é assumidamente gay e ateu. Numa conversa me disse que não enfrentou problemas por causa da opção sexual, pelo menos não o tipo de problema incontornável. Mas, quando em uma escola ficaram sabendo de seu ateísmo, as coisas tomaram outro rumo que resultou na sua demissão. Disse que não apresentaram nenhuma justificativa. Não houve sequer a tentativa em explicar o porquê de estar sendo demitido, apesar do bom trabalho desenvolvido na escola. Apenas apresentaram a demissão e pronto.

Há um capítulo inteiro em DEUS um delírio em que Dawkins trata dessa questão. Ser ateu não implica dizer herege, assassino ou bruxo, termos esses que em épocas bem remotas foram usados como “sinônimos” para ateu. Dawkins vai mais longe quando diz que o Velho Testamento não pode servir de modelo de moralidade, não para os nossos dias, não para o tipo de civilização que construímos. Nosso zeitgeist moral não nos permite mais considerar a mulher como mera propriedade. Hoje em dia ninguém concordaria com a atitude do hospitaleiro em Juízes 19, 25-26. Sentimos alguma dificuldade em entender as razões que levaram Jave a exigir de Abraão o sacrifício de Isaac, tampouco é justificado o genocídio contra os midianitas e a fúria de Moisés contra os soldados que pouparam as crianças e mulheres. Acho que muito provavelmente poucos entre nós concordariam com o procedimento de Josué em Jericó e ninguém que eu conheça está disposto a atender o Levítico que nos recomenda matar qualquer um que trabalhe no sábado ou mantenha relações sexuais com o mesmo sexo. Em outras palavras, o Velho Testamento pode ser uma boa obra de ficção, pode haver valor poético como há na Ilíada ou Odisséia, mas seguramente não há um valor moral que nos possa servir de modelo. Muitos que o consideram assim costumam seqüestrar aviões para bater contra prédios. Só há duas maneiras de entender tal livro como modelo de moral: Ou você é um fanático religioso, pertencente a alguma sociedade teocrática ou simplesmente nunca o leu.

André Comte-Sponville em O Espírito do Ateísmo, aborda, entre outras questões, a de que é possível viver sem religião e que há de fato espiritualidade no ateísmo. O livro é um convite ao prazer da leitura e seu autor, o filósofo, discorre sobre questões polêmicas com delicadeza e diplomacia. Aponta a ética como a luz do farol que deve guiar a todos nós, ateus ou religiosos, em nossa passagem pela vida. Para ele, esta vida, a vida que temos, é a única possível e diante disso a alternativa viável é viver do melhor modo possível. O ateu, mais do que aquele que espera os préstimos de uma vida pós-tumulo, tem as melhores razões para ser ético e isso faz toda a diferença e nos assegura que ele, muito diferentemente do que pensava certa personagem dostoievskiana, é nossa melhor aposta na construção de uma sociedade que tem na vida, seu mais precioso bem.

15 maio 2010

a visita dos mórmons

Dois mórmons com forte sotaque americano outro dia bateram à minha porta. Eu estava sozinho e eles perguntaram se podiam entrar para uma conversinha sobre algo que poderia me interessar. Eu sabia que nenhuma conversa de mórmon poderia me interessar, mas como tenho um grave problema de não saber dizer não, nem mesmo a mórmons, deixei que entrassem.

Cada um deles se sentou numa poltrona, gesto esse que foi imitado por mim, que fiquei com a terceira, a do meio. Os dois rapazes, de pele branca e sardas no rosto, ainda não tinham dito nada e eu já brigava com minha compulsão de olhar o relógio, afinal era sábado e aos sábados a gente só deve fazer o que gosta.

Um deles, como que adivinhando minhas considerações mentais a respeito de desperdício do tempo, perguntou-me se poderia contar uma história. Eu disse que foi pra isso que eu os deixei entrar, ele não entendeu minha ironia e prosseguiu retirando de uma pasta o que pareciam três cartas gigantes de baralho. Na primeira um homem de tez confiável entrava num bosque, na outra tinha sua atenção voltada para uma direção de onde emanava forte luminosidade e na terceira, com o semblante que era pura contrição, aparecia ajoelhado diante de um Jesus ariano de quatro metros de altura.

Durante a exposição das ilustrações, feita por um dos rapazes de sardas no rosto, o outro me narrava em seu português, carregado de sotaque, a história de como foi dada a Joseph Smith a revelação de um novo evangelho, apesar de Paulo, o inventor do Cristianismo, nos advertir que é anátema todo evangelho que não trouxer a assinatura de João, Marcos, Lucas e Mateus.

Quando ele terminou sua história, fitou-me por um momento e perguntou o que eu estava sentindo. Ele não me perguntou o que eu achava; o que pra mim devia ser a pergunta mais cabível, mas talvez sua pergunta mais do que uma intenção, refletia sua dificuldade com a língua. No momento não sei se encarei assim, lembro-me apenas que em cima da dele fiz minha própria pergunta, esta sim, cheia de intenção.

Posso ser honesto?, eu perguntei. Eles se entreolharam e não sei se entenderam. Houve qualquer coisa como uma confusão nos olhos deles. Talvez aquela palavra – honestidade –, ainda mais em português, fosse-lhes completamente estranha. Os mórmons ainda esperavam que eu dissesse o que sentia quando usei outra palavra, esta sim, mais do que a outra; completamente estranha no vocabulário mórmon. Eu disse que sentia incredulidade. Disse que não podia acreditar num Jesus de estatura normal, muito menos num de quatro metros, e disse que mais estranho do que aquela altura toda era o fato dele estar na América. Eles continuavam sem entender quando eu completei: Jesus era comunista, o que é que diabo fazia na América do Norte?

Quando foram embora, me restituíram o sábado e me deixaram de presente o Livro dos Mórmons, que eu conservo até hoje, só pra contrariar o Paulo.

05 maio 2010

Wilmot e Meslier

Clarence Wilmot, ministro presbiteriano, é um personagem interessante do John Updike. No romance, Na Beleza dos Lírios, ele é um religioso que resolve – para poder argumentar a favor de sua fé – ler autores como Nietzsche e Darwin a fim de refutá-los. Acontece, porém, que o tiro sai pela culatra e o ministro, ao invés de refutar os argumentos dos materialistas, descobre-se convencido deles. A implicação é perder a fé e se deparar com o absurdo. Durante algumas páginas acompanhamos o drama da personagem que tem sua vida transformada a partir daquele evento – o da perda da fé – de organizada e coerente em caótica. É interessante o conselho que lhe dá um de seus superiores, de que ele continuasse assim mesmo, sem fé, com a prática religiosa. Wilmot, sem temperamento para tanto, e cativo de uma honestidade latente para consigo mesmo, não empreende a farsa e abandona o ministério. É claro que ele sofre todo tipo de recriminação por parte da família que não consegue entender como alguém pode levar tão a sério uma crise de fé. Desistir do ministério significa perder o emprego e a casa paga pela congregação. O resto de sua vida será consumido vendendo enciclopédias para sustentar os filhos.

Eu me lembrei do Wilmot porque acabei de ler Memória, o livro de Jean Meslier, padre ateu que viveu no século XVIII. Diferente da personagem de Updike, o padre que também se descobre sem fé, não abandona o ministério e vive a farsa de ser padre durante quarenta anos. Nesse meio tempo ele vai escrever suas memórias e nelas dizer tudo o que pensa do cristianismo e catolicismo. Sem dúvida nenhuma as memórias o ajudarão a manter a farsa. Imagino o padre, todas as noites, munido de pena, tinteiro e papel, sob a luz bruxuleante de uma vela, fazendo a sua terapia como uma forma de não perder totalmente o respeito a si mesmo. O livro das memórias é seu testamento. Escrever para ser publicado postumamente não o redime da covardia, já que o morto – principalmente para um ateu – não pode mais ser atingido, mas o redime, em parte, da falsidade. Sua prática noturna, algo para a qual certamente exigia muito de um cura de província, semi-letrado, não deve ter sido fácil, mas foi a alternativa que encontrou para compensar uma vida inteira de mentiras.

Tanto numa personagem quanto na outra, uma tirada da ficção, outra da realidade, uma coisa é comum: a atração pela ética. E acho que nesse sentido os ateus ganham de disparada dos religiosos. Enquanto para estes ser ético constitui uma espécie de salvo conduto para a outra vida, sem a qual o prêmio do paraíso estaria comprometido, para aqueles, os ateus, ser ético é uma necessidade para se viver a única vida possível.

26 abril 2010

O livro de eli

Parece um bom filme, pelo menos no início, sentimos qualquer coisa como uma expectativa, quando acompanhamos o peregrino caminhando dentro de um cenário apocalíptico, alguma coisa que nos faz pensar – fez a mim – n'A Estrada, ótimo livro do Cormac McCarthy, com a diferença de que no livro as personagens reproduzem o humano e, no filme, o personagem representado por Denzel Washington parece mais um herói das histórias em quadrinhos.

Desde o início, fica claro que o Livro de Eli é na verdade a bíblia, novo e velho testamentos, e é provavelmente o último exemplar. Uma guerra varreu a terra e o livro, segundo comentário de uma personagem, foi o responsável porque, com a sua “verdade”, dividiu nações e instigou o conflito. No mundo desolado, não sobraram exemplares, tendo sido queimados para se evitar outra guerra.

Faz 30 anos que ocorreu a guerra e desde então a única prerrogativa é sobreviver num mundo caótico onde a antropofagia não causa mais pudicícia em ninguém e ter o controle da pouca água restante faz de um homem o senhor absoluto. Na estrada seguindo para o oeste, está o peregrino, ele acha que uma voz sussurrou àquela direção, é a mesma voz já sussurrada antes nos ouvidos de Moisés, Paulo, ou Joseph Smith.

A perseguição ao peregrino e o desejo de posse da bíblia traduzem a história da motivação. Tanto o mocinho quanto o bandido estão convictos de sua motivação. Enquanto o primeiro está crente de que obedece a uma ordem e a um propósito, algo maior do que ele, que ele não entende porque é insignificante, mas algo em que deve confiar porque bom e justo, o segundo deseja o livro para fazer dele uma arma para controle social, a mesma coisa que fez a Igreja Católica durante os mais de mil anos, que duraram a Idade Média.

O peregrino chega aos destroços de uma cidade dominada por um homem que a conquistou a base da força. É um tipo excêntrico que se espelha nos ditadores do século XX, logo na primeira cena aparece lendo uma biografia de Mussolini. Seu desejo, sua obsessão é conseguir a bíblia e para isto está disposto a tudo como utilizar mercenários selvagens, que matam e pilham a todos na estrada numa desesperada cruzada para encontrar o livro. Quanto ao peregrino ou mocinho, manter-se firme em seu propósito de conduzir o livro até onde deve, até onde a voz ordenou que levasse, não importa a custa do sacrifício que fosse, é aquilo que dá sentido ao homem que sabe que vai morrer, mas a morte não assusta mais, a própria morte deixa de significar desesperança e passa a ocultar outro sentido, o da promessa de eternidade.

O filme peca quando cria uma personagem estereotipada por que pautada no dualismo que divide mocinhos e bandidos. Não há inocência na história do cristianismo e é desrespeitoso – para não dizer pior – esse negócio de um livro, quer seja a bíblia, torá ou alcorão se arrogar o direito de verdade universal. A história do cristianismo não é a história dos justos, há, inclusive, quem faça uma distinção muito clara entre o Cristo e os cristãos. O cristianismo católico serviu aos poderosos, conferiu poder divino a todos os reis que só tiveram esse princípio violado em 1789, depois de considerada uma visão racionalista de mundo. Os peregrinos da vida e sua motivação são os resultados de fanatismo e ignorância, eis tudo. Se alguém quiser chamar isso de fé ou de boa vontade, fique à vontade, mas não muda o fato de que não passam de pobres ignorantes que não se dão conta de que estão servindo à causa do mais forte, como a legião de evangélicos que enriquecem com o dízimo a conta bancária dos Edir Macedos .

O filme não convence, a história é fraca, inverossímil, o peregrino é o Demolidor sem máscaras, capaz de lutar com um bando inteiro sem sofrer arranhões, num roteiro bem típico de Hollywood, que também inclui explosões e mensagem politicamente correta, é mais um bom exemplo que agrada ao público que vai ao cinema porque gosta de pipoca.

13 abril 2010

leitor de conto

O conto privilegia um texto sutil onde as palavras dizem menos e escondem mais.

Tenho reparado que mesmo bons leitores muitas vezes fazem uma leitura indigente do conto e não percebem nem vinte por cento das sutilezas ali escondidas. Não é uma informação o que se deseja obter no conto, mas uma revelação que exige, muitas vezes, nossa participação efetiva no processo criativo. Leitor de conto não é passivo e para angariar o prazer próprio da leitura lhe é cobrado o preço de certo esforço intelectual. É por isso que nenhum editor no Brasil gosta de livros de contos. Pior do que eles só os de poesia.

Vamos imaginar um conto em que um velho compra a casa onde nasceu e se estabelece nela de posse de seis garrafas de vinho. Uma vez ali estabelecido ele começa a tomar as garrafas e lamentar o fato de ter deixado um livro de poemas do Sá-Carneiro no hotel. Promete a si mesmo pegar o livro na primeira oportunidade que nunca aparece. Os vinhos são mencionados e todos são exemplares de uma adega de um homem ao mesmo tempo de posses e de bom gosto. Nesse meio tempo o leitor começa a suspeitar de que há algo estranho e aquele homem possivelmente veio ao encontro da morte. É interessante notar que o poeta português mencionado foi suicida. A suspeita se confirma quando nos últimos parágrafos ficamos sabendo que antes de comprar aquela casa e fazer sua viagem solitária, aquele homem enterrara a própria mulher. O conto termina quando ele relembra o projeto que se desenhou na mente enquanto faziam descer o caixão de Helena, sua esposa, tal ação narrativa se desenrolaria mais ou menos assim:
comprar a casa e mudar-se pra lá de posse apenas de um livro, provavelmente o que estivesse lendo, e algumas garrafas de vinho. As melhores de sua adega. O passo seguinte era fácil. Não comer nada, só vinho e quando as garrafas secassem nem isso.”

O patético suicídio por inanição parece encontrar na morte da mulher o possível motivo e é, certamente, essa a conclusão do leitor apressado.

Pois se não, vejamos. Se ele queria apenas se matar por causa da mulher morta, por que compra a casa onde nasceu?, não haveria nisso nenhum outro propósito?, a casa onde nasceu é provavelmente a metáfora de que o autor precisa para de novo confrontá-lo com seus fantasmas. Essa história, a outra história, que o Ricardo Piglia chama de secreta é aquilo que mantém a tensão do conto e o justifica como obra literária.

O senhor de quase oitenta anos, dono de uma cultura literária e uma adega comprada a custa de uma pequena fortuna foi uma criança quebradiça, debilitada e que por uma estranha razão sobreviveu aos outros, a seu pai morto de câncer aos 37 anos e seu irmão, ainda criança, morto num estúpido acidente automobilístico. Essa é a história que nos é contada nos flashbacks que aparecem entre uma garrafa de vinho e outra. Cada um deles é um pedaço do quebra-cabeça que vai construindo aos olhos do leitor o perfil da personagem.

Basta prestar a atenção, num momento e noutro ele se pergunta por que não morreu no lugar do irmão e lamenta não ter herdado o câncer do pai. Voltar a casa, portanto, é retomar o fio da discussão e continuar a inquirir o absurdo da existência que não nos poupa o sofrimento da perda. Ele deseja se matar porque não suporta a morte. É a história de um homem revoltado com o absurdo de existir e que vê na morte da mulher a gota d’água de que precisava para dar um basta.