15 fevereiro 2014
Analisando o caso
Analisando o caso Caio Silva de Souza, o
rapaz de 22 anos, da Baixada Fluminense, responsável pela morte do
cinegrafista, depois de manusear artefatos explosivos, notamos sem conter nossa
frustração, que ele não era nenhum ativista político, anarquista tampouco, que nunca
terminou o ensino médio, e que provavelmente nunca leu um livro na vida, muito
menos Proudhon. Que não fazia parte de nenhuma célula
terrorista, oriunda de uma republiqueta islâmica incrustada no século XIV. Não,
o Caio, de acordo com as investigações, não é ninguém. Só um cara pobre. Tudo indica
que ele e outros jovens recebiam 150 reais de políticos para provocar baderna
nas manifestações de rua.
Diante do caso percebemos que as coisas assumem outro grau de
complexidade quando nos dispomos a ir mais fundo. Diz que generalizar é o que
faz o néscio quando apenas se permite uma análise superficial. Aprofundar-se
diante de um tema, de uma discussão, é, às vezes, incorrer no risco de encarar
as contradições do nosso próprio discurso. O Brasil está muito (acho que sempre
foi) político-partidário. A oposição ao Governo nunca foi tão debilitada. Não há
uma discussão séria, apenas nos encarregamos de reproduzir outro episódio da
Torre de Babel. Está difícil enxergar por trás da cortina de fumaça, mas uma
coisa é certa: o que importa é a verdade. O rapaz, claro, vai ser enquadrado e preso,
mas isso é só a ponta do iceberg; estamos lidando com algo muito mais sério do
que homicídio não intencional.
13 fevereiro 2014
Tempo de intolerância
Tolerância é uma palavra em moda, principalmente nesses
tempos de terrorismo. Eu, particularmente, não gosto muito dela, devia-se
inventar outro termo para representar a pacífica convivência entre os “diferentes”.
Ela é bem empregada quando se diz: tolerei
a agonia de uma cadeira espanhola e não confessei nenhuma das injúrias de que
fui acusado ou tolerei a humilhação
de portar a estrela tanto em Bagdá quanto na Alemanha Nazista ou tolerei a anexação da
Cisjordânia. Conviver entre os “diferentes” não deveria ser
uma prova de bravura. Daquele que suporta a dor. Não é possível tolerar a dor
indefinidamente, afinal somos humanos e resistir não é exatamente o nosso
forte. Conviver com o “diferente” deveria ser encarado com estoicismo, algo
assim: ele é diferente e por isso me
desagrada, mas esse sentimento “destrutivo” pode ser um erro de julgamento.
Acho que o caminho é por aí, a reflexão filosófica. Não a religiosa. A religião
só divide. Nada de achar que o outro é infiel. O infiel merece a morte tanto no
Corão 4,95 - 101 quanto em Deuteronômio 13,12 - 16. O ideal seria ouvir mais imagine de John Lennon, mas a gente sabe
que não é tão simples assim. Outro dia, aqui no face book, um de meus amigos, certamente
movido pela melhor das intenções e comentando um crime hediondo, disse: isso é coisa de quem não tem Deus no coração.
O que ele quis dizer? Que os ateus são assassinos? É por isso que eu digo que
essa palavra, tolerância, não serve, é preciso inventar outra, mais doce, senão
continuamos assim: intolerantes com a
melhor das intenções.
O tempo envelhece depressa
O tempo. Muitos já se encarregaram
desse tema: poetas, romancistas, filósofos. É possível citar alguns livros
famosos, lembro-me de Lete de Harald Weinrich, alguém vai se lembrar de Borges
e o rio de Heráclito. É sobre o tempo o livro de contos de Antônio Tabucchi. O
tempo envelhece depressa é o título. Li numa assentada. Fininho, pouco mais de
150 páginas.
Antônio nasceu na Itália, dizia que
costumava sonhar em português, e não há nada de estranho nisso, não para quem
se apaixonou pela poesia de Fernando Pessoa, o poeta dos heterônimos que se
converteria em personagem do próprio Tabucchi. Dizem que encontrou o poema
Tabacaria num quiosque perto da Gare de Lyon, Paris, assinado por Álvaro de
Campos. Desse dia em diante se interessou pelas coisas de Portugal, tanto que
se casou com uma portuguesa: D. Maria José de Lancastre de Melo Sampaio, filha de baronesa
e neta de conde.
Fico imaginando o Antônio perdido nas
ruas e becos de Paris, uma grande cidade, não resta dúvida, uma cidade estrangeira;
ele cruza as ruas e desaparece na multidão. Acho que melhor descrição não
caberia para as personagens de O tempo envelhece depressa. Para quem os observa
de longe: transeuntes. Um pouquinho mais perto e a gente nota a diferença:
alguns estão em terra estrangeira, são homens cultos na sua maioria, poliglotas
e leitores de Homero, mas estão velhos, alguns senis e além da paisagem: o
efêmero.
Como em outros livros do autor, nesse
há referências literárias, o “pobre rapaz de Praga que acordou fora de
contexto” do conto Clof, clop, clofete, clopete é Gregor Samsa e como ele as
personagens de O tempo envelhece depressa também estão atordoados, não com a
metamorfose. Não há nenhuma além do corpo jovem que se fez velho. Também não é
a cidade estrangeira. A descrição da paisagem é quase sempre dada a um narrador
sensível que faz disso motivo de reflexão e apreciação da arte. O atordoamento
porque se acordou fora de contexto é provocado pelo tempo que passou depressa e
nos deixou incompletos, fragmentados.
O tempo de Antônio Tabucchi acabou no
dia 25 de março de 2012. Ele nem fizera ainda 69 anos.
26 junho 2013
FLIG 2013
Foi anunciado que em
setembro deste ano o FLIG, festival de literatura de Garanhuns, vai
ressuscitar. O evento teve três edições, nas ocasiões, realizado pela Academia
de Letras de Garanhuns, APL e UBE. João
Marques, o presidente da Academia e a Prefeitura de Garanhuns estão somando esforços
para realizar o milagre de trazer o morto à vida. Isso é bom, e acontece num
momento favorável quando a produção literária local chama a atenção da capital.
E melhor ainda será se os organizadores do evento aprenderam com a experiência.
A morte do festival
foi anunciada em sua primeira edição, e eu fui o chato que chamou a atenção de
todos para o fato. O formato do evento não agradou, trazia o selo de validade
vencido, acontecia no palco do teatro, a uma distância enorme do público, havia
uma mesa muito parecida com aquela em que Cristo comeu seu triste e último
desjejum, era ali onde se estreitava o escritor, exprimido por um tal
presidente da mesa e um tal relator, dois Judas de imobilidade e serventia. Além
da falta de apoio, foi a pompa e formalidade o outro vilão que ultimou o evento
na sua terceira edição. Não funciona assim, é preciso mudar, a Academia tem sua
ritualística, seu ritmo que de jeito nenhum deve imprimir ao festival, este
obedece a outra lógica, ambiciona outro público além da homogenia audiência dos
acadêmicos, e como ninguém é obrigado a comparecer, o festival deve se atrever
a acreditar que os jovens possam se interessar por uma conversa de escritores.
Outra coisa
importante é evitar a segregação. Isso mesmo. Não existe esse negócio de
literatura de Pernambuco ou de Garanhuns ou de Nova Iorque. Existe literatura
boa e literatura que não presta. Quando se faz um evento para mostrar a
literatura de Pernambuco, quando essa é a justificativa do evento, acaba se
prestando um desserviço ao escritor. É como se por trás disso houvesse uma
lógica fascista que dita uma regra: de um lado a literatura e do outro a
literatura de Pernambuco. O evento deve convidar bons escritores, escritores
jovens, escritores daqui e escritores já maduros com obras publicadas por
grandes selos e distribuídas no Brasil. Vamos conversar, convidar críticos literários para mediar as mesas e discutir crítica literária, vamos fazer bonito e chamar a atenção de todos para um
evento enxuto, sem provincianismo.
16 maio 2013
Do tiro no próprio pé
Marina Silva defendeu o Presidente da Comissão de Direitos Humanos,
o muito querido das redes sociais, deputado e pastor evangélico Marco
Feliciano. O evento se deu no auditório da Universidade Católica de Pernambuco.
A ex candidata a presidente do Brasil disse que Feliciano estaria sendo
hostilizado mais por ser evengélico do que por suas declarações equivocadas.
O
interessante é que muitos que acusam Feliciano são cristãos, cristãos de todas
as denominações, cristãos católicos, cristãos espíritas, cristãos que ainda
esperam Dom Sebastião e até cristãos devotos de matadores de dragões, mas
todos, enfim, cristãos; creem no Cristo, na sua morte e ressurreição
e por certo na Bíblia, o livro santo que contem a revelação do Senhor. O livro
de lombada dourada, com ilustrações de Gustave Doré, enorme e muito digno que serve
para enfeitar o móvel da sala e advertir os visitantes que ali reside uma
família temente a Deus.
Tantos
cristãos críticos não se deram conta ainda que o que pensa Feliciano e o
conteúdo de suas declarações está intimamente ligado ao fato de ser cristão
(evangélico). Sua condição de sectário pressupõe uma visão de mundo que não
destoa da bíblia, como a visão de mundo do islâmico não destoa do Alcorão.
Sobre a homofobia, talvez a polêmica maior que envolve o deputado, a Bíblia é
sete vezes sete mais radical do que Feliciano, basta ler o episódio do Gênesis
que trata da destruição de Sodoma e Gomorra ou Levítico 20:13; o sexo entre
iguais nunca foi do agrado de Deus.
A crítica
a Feliciano, à sua visão tacanha e anacrônica do mundo, é a crítica à visão de
mundo da bíblia. Só os críticos não perceberam isso, pelo menos os críticos
cristãos, e isso é muito engraçado, se não fosse trágico.
15 maio 2013
fazer o quê?
Mesmo escritores importantes e homens comprometidos com seu
tempo são capazes de ficar absolutamente cegos pela ideologia – um facho de luz
que lhes atira do cavalo no chão de fé e dogmatismo. E nem os ateus são imunes,
também eles são capazes de transcendência.
É o caso de muitos escritores da América Latina, alguns entre eles
clássicos, como Gabriel Garcia Marques, que nunca questionou o fato de alguém
se perpetuar no poder, como Fidel. Isso é ditadura e ditadura não é boa, seja
ela de esquerda ou direita. Uma vez, na fliporto, ouvi o Galeano falar de Hugo
Chavez, e parecia que ele estava falando do mais inocente e meigo de todos os
homens. Inocente? Tudo bem que ele se transformou em pomba, quando morreu, mas
tenho a mesma impressão de Alberto Caeiro sobre as pombas, são estúpidas e
feias. Mas não julgo um bom escritor só porque ele sofre de improbidade
intelectual. Que ele seja partidário ou sectário de uma seita religiosa,
daquelas bem anacrônicas que ainda supõe sem máculas o hímen de Maria, tudo
bem, desde que faça literatura e não panfleto. O caso mais extremo talvez
seja Ferdinand Celine, o cara era colaborador nazista, mas escreveu Viagem ao
fim da noite, fazer o quê?
20 março 2013
Uma estadia em Recife
Fellipe, o jornalista do Diário de Pernambuco não foi o
único que ficou surpreso quando soube que eu, autor de livro de contos e um dos
editores de um jornal de literatura, era do Corpo de Bombeiros. Literatura,
pelo menos para o escritor obscuro, autor de obra independente e que vive num
mundo estranho ao eixo rio-são paulo, não é capaz de prover as necessidades
financeiras de ninguém, espera-se que o escritor também seja jornalista,
professor ou outra profissão afim das letras. Antes de Fellipe foi a vez de
João Marques. Um dia ele me disse: Nivaldo, esse negócio de ser militar não tem
nada a ver com literatura, deixa o Corpo de Bombeiros e te dedica à educação,
vai ser professor, rapaz. O que eu respondi a João naquela ocasião; repeti
agora para o Fellipe. Disse-lhes que o CB é um aliado importante porque me paga
um salário e de quebra me concede tempo livre que eu aproveito lendo e
escrevendo.
Além de me disponibilizar tempo pra ler e escrever, o CB é
capaz de outros prodígios como foi em 2005 quando fui transferido, contra minha
vontade, da Seção de Bombeiros de Garanhuns para a Diretoria Administrativa no
CCB, em Recife. Naquela ocasião as circunstâncias me oportunizaram frequentar a
oficina de Raimundo Carrero uma vez por semana durante um ano e conhecer, numa
leitura de contos, na livraria cultura, o escritor Ronaldo Correia de Brito. Tal
encontro, com Ronaldo e com a Oficina de Carrero (eu já conhecia o autor de
Sombra Severa fazia alguns anos) foi muito importante. Até aquele momento eu ainda
não havia rompido as fronteiras que me separavam do resto do mundo, nem
virtualmente, uma vez que a internet continuava pra mim um terreno inexplorado.
Vivia em Garanhuns, na minha província, e meus voos não iam além dos livros. Os
contos eram consumidos por alguns bons amigos que por educação ou porque nossa
proximidade lhes embotava o censo crítico, não se arriscavam em críticas mais
severas.
Na oficina, além da exposição de novas técnicas e
verdadeiras autópsias que procedíamos sob a batuta de Carrero em clássicos como
Madame Bovary ou Doutor Fausto, também se faziam leituras de contos dos alunos.
Nem todos se aventuravam, mas eu estava ali passando umas chuvas, a qualquer
momento poderia voltar pra Garanhuns, por isso não poderia me dar ao luxo de
pudores e mesmo temendo parecer impertinente me expunha sempre que possível
ávido pela impressão que poderia causar no mestre e carente de suas
observações. É bem verdade que nem sempre me conformava com as observações de
Carrero, às vezes elas me pareciam o resultado de puro cansaço do professor
diante dos alunos ineptos. Numa dessas ocasiões ele achou de cismar com uma
palavra aparentemente sem importância que apontou num parágrafo. Eu jamais
usaria esse verbo, disse num tom quase arrogante. O famigerado verbo se tratava
de tinha, pretérito imperfeito. Para Carrero tinha soava como doença ou coceira. Isso aqui não é o
Parnasianismo, eu lhe disse, tinha é
tão palavra quanto qualquer outra. A discussão se alongou e envolveu outros
alunos. Carrero é um amor de pessoa, é o cara mais gentil que eu conheço. Suas
observações eram sempre apresentadas com muita delicadeza. As duas horas passaram
rápido e eu voltei para meu alojamento no colégio da polícia militar (nesses
dois anos que passei em Recife, também ministrei aula de literatura para quatro
turmas de terceiro ano naquele colégio) no alojamento me sentei na cama com o
conto na mão, reli o parágrafo e substitui a palavra execrada pelo mestre. O resultado
me pareceu melhor. Afinal Carrero tinha
razão.
Até aquele momento, embora Ronaldo já fosse o festejado
autor de Faca e Livro dos Homens, eu ainda não o conhecia. Fui encontrá-lo na livraria
cultura, onde dividia o auditório com Luzilá Gonçalves. Gostei de Ronaldo
naquela hora. Ele me pareceu o escritor idealizado por mim, tão apaixonado e
envolvido com o que fazia ao ponto disso estar refletido na sua compleição
física, por isso seus modos de homem culto, herdeiro da memória dos livros e
consciente da dor e do efêmero, revelava sua verdadeira natureza de artista, do
tipo capaz de tal sofisticação que soava fatal, quase trágica como a de Adrian
Leverkun.
Eu pedi que Cristhiano Aguiar nos apresentasse, Ronaldo se
mostrou receptivo, acho que ele percebeu que estava diante de um futuro leitor,
aquele para quem a gente escreve na esperança de um diálogo. Se foi isso o que
pensou, acertou em cheio. Se ele ganhou um leitor, eu ganhei um professor. Eu
já tinha Carrero. A oportunidade de ter dois professores de peso me foi dada em
troca de minha transferência de quartel. O pacato e tranqüilo de Garanhuns pela
torre de babel do Recife. Eu ainda não disse, mas a transferência não fazia
sentido, Recife já tinha sargentos de mais, as seções estavam ocupadas por eles,
sargento batendo em sargento. O que eu fazia ali, tão distante de Garanhuns?
Ninguém sabia me responder, alguns oficiais concordavam que minha transferência
era despropositada, provavelmente um equívoco, por isso compraram a briga, mas
seus esforços resultaram inúteis, ninguém sabia de onde partira a ideia da
transferência, é certo que fora publicada no Boletim Geral, de fato a Seção de
Pessoal da D.A. precisava de um primeiro sargento, mas por que eu?, tudo ia de
mal a pior. Entre a publicação da nota de transferência e minha apresentação houve
mudança de comando, eu precisava esperar; outra transferência agora só mediante
permuta. Nesse meio tempo eu me vi responsável pelo setor de pessoal da D.A., aquilo
estava um caos. O tempo foi se passando, todos os dias eu falava com um capitão
ou major diferente, ninguém dava jeito, eu sofria por causa da burocracia.
Então a burocracia me venceu. Um dia eu deixei de procurar,
também não sabia se ainda estava interessado em voltar pra Garanhuns, eu estava
gostando da Oficina, sentia que ela surtia efeito. As observações de Carrero
foram capazes de me dar um novo olhar sobre meus escritos, somado a isso havia o
diálogo com Ronaldo. Dei de ombros e me deixei levar pela correnteza.
A vida de Ronaldo não
é fácil, precisava se dividir entre a medicina, a família e sua produção
literária, apesar disso, ele abriu um espaço na sua agenda e aceitou ler meus
contos e se encontrar comigo para comentar sua impressão. Nem sempre Ronaldo
era delicado como Carrero, mas eu gostava de sua sinceridade que às vezes me
parecia transformada em sadismo. Suas observações eram duras, ele não alisava,
refazia parágrafos inteiros, me chamava a atenção para a inutilidade de uma
frase, questionava a verossimilhança de um perfil de personagem e dizia que eu
precisava sujar o texto. Ousar mais. Na melhor das hipóteses ele dizia que o
conto não estava ruim, mas faltava alguma coisa. Às vezes eu saía de um desses
encontros desolado, pensando seriamente em desistir da literatura. Mas todo
aquele esforço de Ronaldo para que eu perdesse minha literatura escondia um intuito
secreto: Eu precisava perdê-la para achá-la.
Durante aqueles dois anos, tive o privilégio de me
encontrar com Ronaldo Correia de Brito e Raimundo Carrero, dois importantes
escritores que para sorte minha foram com a minha cara, e me levaram a sério
como escritor, sou grato a eles e também ao Corpo de Bombeiros e sua burocracia
kafkiana que possibilitou tal encontro.
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