01 maio 2026

   

 

A bala dos desarmados


 

A primeira vez que ouvi o nome de Francisco de Morais Mendes, e dito assim, por extenso, saiu da boca de um escritor admirável, o Fernando Monteiro, isso aconteceu nos idos de 2006, no palco de uma livraria, no Recife, onde se discutia literatura contemporânea e o mercado editorial. Fernando usava o nome de Francisco justamente para alardear o quanto era mal tratada a literatura nessas nossas terras tupiniquins, uma vez que o contista mineiro, embora já detentor de alguma fama nos circuitos mais seletos, continuava desconhecido do grande público. Hoje, vinte anos depois, a livraria não existe mais, aquele evento de literatura desapareceu do calendário cultural do Recife, Fernando Monteiro se jogou no mar de Boa Viagem e Francisco de Morais escreveu mais alguns excelentes livros de contos, ao que tudo indica, só não mudou o público leitor e o mercado editorial, objetos das críticas do Fernando Monteiro naquele começo de século.

Naquela semana, depois dos elogios que o Fernando dedicou aos contos de Francisco, comprei no sebo: A razão selvagem (2003) e o li num fôlego. Fernando Monteiro não exagerou quando exaltou as qualidades do contista mineiro. Ainda me lembro dos contos, em particular de um, na época escrevi uma anotação da qual reproduzo o seguinte trecho:

Em Apartamentos um cara depois de atingir certa condição financeira se põe a considerar a possibilidade de investir no ramo imobiliário. Antes disso, porém, resolve viajar e em suas viagens fotografa cidades vazias. Quando retorna monta uma exposição das fotografias e publica um álbum com uma seleção das melhores fotos. Não obtém sucesso nem com a exposição nem com o livro. Arruinado, vende o apartamento onde morava e passa a ocupar um pequeno quarto no apartamento da irmã. Meses depois, parece que num táxi – na verdade não sabe precisar –, surge a obsessão de fotografar apartamentos vazios. A imobiliária não desconfia de seu verdadeiro propósito, fornece-lhe as chaves dos apartamentos e ele passa a visitá-los levando consigo sua Pratika.

Mas os apartamentos, embora fechados, contêm os barulhos da rua e em todas as incursões ele sempre se depara com alguém. Há um pai e uma filha, cada um apresentando o outro como louco. No final resta ao leitor alguma dúvida sobre a quem atribuir menos sanidade.

Em outro apartamento, uma mulher bate à porta, talvez alguém interessado pelo imóvel. Eles não se conhecem e em poucos minutos estão entregues aos prazeres do corpo numa situação muito próxima ao animalesco. Mais tarde ele vai se lembrar dela e se masturbar para preencher sua falta.

A busca pelo apartamento vazio se revela mais uma identificação pelos espaços vazios do que mera idiossincrasia de artista. No final, não há um sentido, uma lógica, só há o vazio impossível de preencher.

Além deste, os contos de A razão selvagem, parecem ter sido sugeridos por sonhos, e tanto isso quanto o animalesco e a loucura e certa dose de violência continuam provocando a imaginação do autor do mais recente A bala dos desarmados.

Malu, no conto Ar, conclui que a bala dos desarmados é a palavra. Poeta, pensa em escrever uma carta que ainda não sabe direito a quem destinar sobre a série de eventos que resultou no assassinato do pai pelo tio por causa do modo como as coisas ficaram no mundo, provocadas pela polarização política. Se buscássemos uma unidade para o livro, poderíamos começar com o tema da ascensão da extrema Direita, presente em alguns dos contos, mas não se iluda, embora o autor esteja atento aos problemas da contemporaneidade, não se descuida da carpintaria do conto. Francisco sabe que um conto sem atmosfera perde muito da sua força, neste A bala dos desarmados, o sonho também está presente e seus elementos de imprecisão – importantes na criação da atmosfera – encontram eco na própria realidade acordada nesses nossos tempos nebulosos.

Blecautes, estado de sítio, pandemias são ameaças sempre à vista num mundo já fraturado. Às vezes valendo-se de material extraído da realidade que o jornal da tevê vem noticiando nos últimos anos, Francisco tenta desvendar essa Babel que se tornou a sociedade brasileira, reflexo do mundo afora. Uma Babel da qual é difícil apreender a realidade difusa onde uma maioria parece ter perdido o interesse pela verdade do fato, seduzida pela verdade da fé. Se em livros anteriores o sonho fornecia a imprecisão da qual Francisco lançava mão para construir atmosferas, agora ele encontra tais imprecisões na própria teia da realidade, pulverizada pela usina de mentiras a serviço da extrema direita e nos alerta, como no excelente Um olhar, uma foto que a loucura, a tragédia podem voltar. Tal tema e suas variáveis não são consenso em todos os contos, mas nos ajuda a buscar uma possível unidade.

Mas não é só o tema que nos ajuda a entender o livro enquanto conjunto, mas o tratamento que é dispensado ao tema. Em Rastros, um dos contos de que mais gostei, Glauco se vê enredado numa situação difícil: depois de socorrer uma moça que parecia estar sendo vítima de um assalto, vê-se envolvido numa série de eventos que o transforma num assassino. Pelo menos foi o que pensou até ouvir o barulho na mala do carro. Glauco é exemplo de personagem levado pela sucessão de acontecimentos sobre os quais descobre não ter tido nenhum controle. Se sua intenção era de apenas ajudar uma moça que parecia ser vítima de uma tentativa de assalto, descobre que sua interferência teria várias consequências entre as quais a de tê-lo transformado num assassino. A noite não será fácil e não será apenas aquele ferimento na cabeça aquilo que o fará lembrar-se do inferno que viveu, sua angústia enquanto dirigia sem rumo, supondo que seu porta malas de fato abrigava o corpo de alguém morto por suas mãos. Nesse conto, assim como em outros, não é o extraordinário que move o autor, na maioria dos casos os eventos nascem mesmo das situações mais comezinhas. São suas implicações, a força de impacto que sofrem as personagens na sua experiência aquilo que importa ao autor.  

Cortazar é citado num dos contos. Acredito mesmo que seja um dos autores que compõe a biblioteca pessoal de Francisco, e dizendo isso, recordo-me de um ensaio ou entrevista na qual o escritor argentino se referia a seus contos como descrições perfeitas de sonhos. Eu não diria que os contos de A bala dos desarmados sejam descrições perfeitas de sonhos, mas poderiam ter sido sugeridos por eles, A visita, A caminho do grande espetáculo, Chuva, Névoa e Fora de época são bons exemplos dos quais comentarei dois.

Em A visita, uma mulher resolve vistoriar seu apartamento que sofreu uma reforma. Passeando pelos cômodos e testando como ficou o novo funcionamento dos interruptores digitais, o trabalho dos carpinteiros e encanamentos refeitos etc, reflete sobre a história de como evoluímos da caverna para as moradias modernas com água encanada e luz elétrica. A história parte de um acontecimento banal da mulher que prende a mão com supercola na tampa do vaso sanitário. O embaraço, que não parecia nada, escala para uma situação desesperadora. Nele, como no já citado Rastros, a personagem fica perplexa quando se dá conta de que não tem o controle das coisas ao seu redor. Permanece na gente sua imagem presa no vaso sanitário como um recorte da realidade, uma fotografia capaz de captar aquele momento com todas as suas nuances. Acho esse conto um perfeito exemplo do conto esférico, postulado por Cortazar, uma narrativa que se fecha em si mesma, e não precisa de um final aberto ou de esconder uma história secreta para continuar repercutindo dentro da gente. Seu mérito está na tensão provocada pelas implicações daquela mão presa com cola no vaso devido ao descuido vulgar de não ter lido as instruções do fabricante da cola, fato que leva aquela mulher de um estado de espírito para outro, do paraíso ao inferno.

No A caminho do grande espetáculo, somente uma coisa não gostei por julgá-la desnecessária, pior, comprometeu um pouco da força do conto que é a informação ao leitor de que é a narrativa de um pesadelo. Muitos dirão que ele encerra a metáfora da própria vida, nossa caminhada ao longo de uma estrada sem muito sentido. As interpretações cabem aos leitores. O pai, sua esposa e filho estão no meio de uma multidão que se desloca na direção de um grande teatro ou arena onde buscarão seus assentos a fim de assistirem a um espetáculo. Não sabemos que espetáculo é esse e isso pouco importa. A multidão se desloca com dificuldade, há muita gente, jovens ruidosos com suas latas de refrigerante incomodam muito. Num dado momento sua mulher fica para trás, perde-se na multidão e isso provoca no marido apenas uma reação, ele teme pelo filho, não quer preocupá-lo e por isso tenta esconder da criança o desaparecimento da mãe. Já perto do fim ficamos sabendo que esse pai encolheu de velhice e o garoto já é um homem de cabelos grisalhos, e continuam na mesma marcha, premidos pela multidão. Finalmente passam por catracas e sabemos que pai e filho têm noções diferentes da passagem do tempo. O lugar está próximo, o velho não vê a hora de se sentar. O que mais gosto nesse conto não é a metáfora da vida. A jornada absurda que empreendemos ao longo da vida etc. Aquilo de que mais gosto e confere tensão ao conto, sua força maior, está na sensação que provoca. Francisco sempre explorou elementos do Impressionismo na sua obra, nunca esteve interessado em reproduzir o realismo das manchetes de jornal, não é essa a função da literatura, afinal nada pode ser explicado. Embora seja dito o tempo todo no conto que se trata do movimento de uma multidão para assistir a um espetáculo, permanece na gente – leitor – em mim, pelo menos, a sensação de que estamos lendo o relato do deslocamento de uma multidão de refugiados, de imigrantes ilegais presos por uma polícia à serviço de um déspota. Não pude deixar de pensar na leva de judeus conduzida por soldados nazistas para o abatedouro dos campos de concentração.

Alguns contos vêm misturados com memória ou delírio, como o ótimo Fora de época, mas o elemento onírico está ali preservado. O autor não faz uso de experimentalismos estéreis. Sua escrita nos conduz sem dificuldade, caberá a cada um desempenhar seu nível de leitura. Lendo seus contos penso na escrita de certos autores ingleses, impecável e elegante. Se tivesse de resumir, diria que seu estilo é redondo, como às vezes nos referimos a uma caligrafia bonita. Não saímos de seus contos com o mesmo tipo de incômodo que saímos dos contos de uma Flannery O’Connor, não há salas secretas, tudo se encontra na superfície. 

A epígrafe do livro, um trecho retirado do Avalovara, de Osman Lins, reforça a intenção de Francisco em dizer que ainda acredita no poder da palavra, ela é a bala dos desarmados, a arma de gente pacífica nesse mundo fraturado. Sim, como eu já disse, os contos promovem uma crítica do crescimento da violência oriunda do estado das coisas a que chegamos com o aumento do extremismo no mundo. Em livros anteriores como A razão selvagem e Escreva, querida, sempre notei um autor maduro, a quem importava a busca da palavra e a consciência de que o conto como mecanismo de pura sofisticação não pode estar desinteressado da sondagem do humano e digo o mesmo deste A bala dos desarmados, ao qual acrescento o que está resumido no próprio título: A palavra empregada à serviço da resistência.

 

 

09 setembro 2019


Causou polêmica a censura imposta pelo prefeito do Rio ao beijo gay exibido na hq dos Vingadores. Todo mundo saiu em defesa da hq, em defesa da democracia, do estado laico e do direito que têm os gays de demonstrar, também eles, amor e afeto seja na hq, seja na tv ou no cinema. Todo mundo parece concordar que o que esse prefeito fez foi uma ofensa, um ato criminoso, manifestação irrestrita da mais abjeta homofobia. E é isso mesmo, mas o que ninguém parece perceber é que não há evangélico sem a sua religião, que o que diz o evangélico fundamentalista não é nada que não esteja amparado no Livro. Fala-se muito no indivíduo movido por sua fé, mas pouco dessa fé. Parece que há um consenso que existe evangélico homofóbico, mas não existe religião homofóbica, que há pastores homofóbicos, mas não há Livros sagrados homofóbicos. A Bìblia só prega o amor.
A maioria das igrejas evangélicas acredita na cura gay. E se há uma cura prevista é porque há uma doença, um mal que precisa ser curado. Todo mundo só se lembra de Jesus entre as putas, mendigos, ladrões e toda horda de párias para os quais ele veio porque foi para os doentes que ele veio. Perdoa teu inimigo, disse ele, não uma vez, mas as vezes que forem necessárias multiplicadas pelo infinito. Foi Jesus quem mandou atirar a pedra aquele que nunca pecou na hora do julgamento da mulher adúltera. Jesus, portanto, é muito diferente do Crivella e de uma parcela significativa de evangélicos. Jesus é muito diferente do eleitor de Bolsonaro, não consigo ver Jesus apologista da Ditadura Militar nem apoiador entusiasta de criminosos torturadores, Jesus certamente perdoaria uma mulher que fez aborto e jamais concordaria com a pena de morte. Jesus jamais diria bandido bom é bandido morto. Esse, felizmente, é o Jesus de quem gostamos, é o Jesus normalmente ignorado por esses religiosos. Mas mesmo tão bom, Jesus diria assim a um homossexual: Vá e não peques. Diria o mesmo que disse à mulher adultera. Vá e não peques, vá e não se deite novamente com o outro do mesmo sexo, e Jesus diria isso porque Jesus com toda sua bondade e apesar de toda bondade também era religioso, e os religiosos, pelo menos do monoteísmo, não aceitam que homens se deitem com outros homens, tal prática, para Deus, o mesmo Deus Cristão, Judaico ou Islâmico, é abominação. Está lá no Livro, não foi o Crivella quem inventou. Então não é só o Crivella que atenta contra a Democracia, o Estado laico e o direito que têm os gays de se beijarem numa hq, não é só o Crivela o monstro preconceituoso, a coisa é mais séria. 
O Brasil caminha para o fundamentalismo, se as coisas continuarem como estão, logo seremos uma sociedade teocrática, a bancada evangélica só faz crescer, o presidente da república diz que é preciso indicar um ministro do supremo terrivelmente evangélico, é sabido que a Universal do Reino de Deus tem um projeto de poder, Dória é cotado para as eleições de 2022. É preciso, portanto, de uma discussão séria. É preciso menos condescendência, é preciso parar de fingir que são só casos isolados de indivíduos preconceituosos. E não é só os gays que estão ameaçados, aumentou muito os ataques aos terreiros do candomblé e centros espíritas e os ateus não perdem por esperar.

03 maio 2019

Tolerância é uma palavra em moda, principalmente nesses tempos de terrorismo, obscurantismo e Bolsonarismo. Eu, particularmente, não gosto muito dela, devia-se inventar outro termo para representar a pacífica convivência entre os “diferentes”. Ela é bem empregada quando se diz: tolerei a agonia de uma cadeira espanhola e não confessei nenhuma das injúrias de que fui acusado ou tolerei a humilhação de portar a estrela tanto em Bagdá quanto na Alemanha Nazista ou tolerei a anexação da Cisjordânia. Conviver entre os “diferentes” não deveria ser uma prova de bravura. Daquele que suporta a dor. Não é possível tolerar a dor indefinidamente, afinal somos humanos e resistir não é exatamente o nosso forte. Conviver com o “diferente” deveria ser encarado com estoicismo, algo assim: ele é diferente e por isso me desagrada, mas esse sentimento “destrutivo” pode ser um erro de julgamento. Acho que o caminho é por aí, a reflexão filosófica. Não a religiosa. A religião só divide. Nada de achar que o outro é infiel. O infiel merece a morte tanto no Corão 4,95 - 101 quanto em Deuteronômio 13,12 - 16. O ideal seria ouvir mais imagine de John Lennon, mas a gente sabe que não é tão simples assim. Outro dia, aqui no facebook, um de meus amigos, certamente movido pela melhor das intenções e comentando um crime hediondo, disse: isso é coisa de quem não tem Deus no coração. O que ele quis dizer? Que os ateus são assassinos? É por isso que eu digo que essa palavra, tolerância, não serve, é preciso inventar outra, mais doce, senão continuamos assim: intolerantes com a melhor das intenções.

13 maio 2014

Machado de Assis e a histeria fast food

Uma professora que se rendeu à cultura do fácil, inspirada, talvez, na comida fast food, reescreve e torna fácil o Machado, substituindo sinônimos, pasteurizando etc só por causa das reclamações de seus alunos que consideram todo clássico um saco. Lógico que isso é absurdo, em literatura pouco importa o que se diz, mas como diz e nisso a atitude da professora se mostra equivocada. Essa questão para mim e para quase todo mundo com quem conversei parece muito fácil de resolver, a sorte dela é que não mais existem fogueiras da inquisição para queimar os possuídos do diabo – no caso da professora, os despossuídos da razão.  Eu amo Machado de Assis por suas soluções, aprecio seu narrador escorregadio, aprecio nele o precursor de Borges. Machado de Assis não precisa de sinônimos que atualizem sua linguagem. Ele é o fundador da modernidade. Nessa história, todo mundo já sabe, existem dois vilões, a professora e sua equipe de prestidigitadores e o Ministério da Cultura que apoiou a causa. Nenhuma novidade, portanto. Uma coisa, entretanto, chamou-me a atenção. Tem gente – e gente da melhor espécie – que pensa que o importante mesmo é que o jovem leia, não importa o quê. Todos os livros, não importam de que anão ou fada estamos falando. O importante é ler. Como se ler garantisse a salvação. Jesus não salva, ler o evangelho sim. Acho isso uma histeria. Quem disse que todo mundo precisa ler? Quem disse que para o outro – um outro que imagino agora – a experiência de ler é tão importante como foi para mim, por exemplo e para muitos, como para você que está lendo este texto? Vamos reservar ao outro o direito de também não ler. No evento Clisertão, ouvindo a história do Rogério Pereira sobre sua experiência de leitor a gente nota que ele teve todos os motivos do mundo – e a história dele não é diferente da minha, talvez pouco diferente da sua, leitor amigo – para não ler, desde pais analfabetos a péssimas condições de vida quando o que importava era a sobrevivência, isso, entretanto, não o impediu de ser leitor. É claro que devemos fazer a nossa parte, é preciso investir na educação, pagar e preparar professores, devemos ler para nossos filhos, comprar livros etc, mas nada de histeria, nada de querer adaptar Machado de Assis ou outro clássico para a linguagem de hoje. Quem não gostou do Machado original tampouco vai gostar na versão fast food.

15 fevereiro 2014

Analisando o caso

Analisando o caso Caio Silva de Souza, o rapaz de 22 anos, da Baixada Fluminense, responsável pela morte do cinegrafista, depois de manusear artefatos explosivos, notamos sem conter nossa frustração, que ele não era nenhum ativista político, anarquista tampouco, que nunca terminou o ensino médio, e que provavelmente nunca leu um livro na vida, muito menos Proudhon. Que não fazia parte de nenhuma célula terrorista, oriunda de uma republiqueta islâmica incrustada no século XIV. Não, o Caio, de acordo com as investigações, não é ninguém. Só um cara pobre. Tudo indica que ele e outros jovens recebiam 150 reais de políticos para provocar baderna nas manifestações de rua.


Diante do caso percebemos que as coisas assumem outro grau de complexidade quando nos dispomos a ir mais fundo. Diz que generalizar é o que faz o néscio quando apenas se permite uma análise superficial. Aprofundar-se diante de um tema, de uma discussão, é, às vezes, incorrer no risco de encarar as contradições do nosso próprio discurso. O Brasil está muito (acho que sempre foi) político-partidário. A oposição ao Governo nunca foi tão debilitada. Não há uma discussão séria, apenas nos encarregamos de reproduzir outro episódio da Torre de Babel. Está difícil enxergar por trás da cortina de fumaça, mas uma coisa é certa: o que importa é a verdade. O rapaz, claro, vai ser enquadrado e preso, mas isso é só a ponta do iceberg; estamos lidando com algo muito mais sério do que homicídio não intencional. 

13 fevereiro 2014

Tempo de intolerância




Tolerância é uma palavra em moda, principalmente nesses tempos de terrorismo. Eu, particularmente, não gosto muito dela, devia-se inventar outro termo para representar a pacífica convivência entre os “diferentes”. Ela é bem empregada quando se diz: tolerei a agonia de uma cadeira espanhola e não confessei nenhuma das injúrias de que fui acusado ou tolerei a humilhação de portar a estrela tanto em Bagdá quanto na Alemanha Nazista ou tolerei a anexação da Cisjordânia. Conviver entre os “diferentes” não deveria ser uma prova de bravura. Daquele que suporta a dor. Não é possível tolerar a dor indefinidamente, afinal somos humanos e resistir não é exatamente o nosso forte. Conviver com o “diferente” deveria ser encarado com estoicismo, algo assim: ele é diferente e por isso me desagrada, mas esse sentimento “destrutivo” pode ser um erro de julgamento. Acho que o caminho é por aí, a reflexão filosófica. Não a religiosa. A religião só divide. Nada de achar que o outro é infiel. O infiel merece a morte tanto no Corão 4,95 - 101 quanto em Deuteronômio 13,12 - 16. O ideal seria ouvir mais imagine de John Lennon, mas a gente sabe que não é tão simples assim. Outro dia, aqui no face book, um de meus amigos, certamente movido pela melhor das intenções e comentando um crime hediondo, disse: isso é coisa de quem não tem Deus no coração. O que ele quis dizer? Que os ateus são assassinos? É por isso que eu digo que essa palavra, tolerância, não serve, é preciso inventar outra, mais doce, senão continuamos assim: intolerantes com a melhor das intenções.     

O tempo envelhece depressa


O tempo. Muitos já se encarregaram desse tema: poetas, romancistas, filósofos. É possível citar alguns livros famosos, lembro-me de Lete de Harald Weinrich, alguém vai se lembrar de Borges e o rio de Heráclito. É sobre o tempo o livro de contos de Antônio Tabucchi. O tempo envelhece depressa é o título. Li numa assentada. Fininho, pouco mais de 150 páginas.
Antônio nasceu na Itália, dizia que costumava sonhar em português, e não há nada de estranho nisso, não para quem se apaixonou pela poesia de Fernando Pessoa, o poeta dos heterônimos que se converteria em personagem do próprio Tabucchi. Dizem que encontrou o poema Tabacaria num quiosque perto da Gare de Lyon, Paris, assinado por Álvaro de Campos. Desse dia em diante se interessou pelas coisas de Portugal, tanto que se casou com uma portuguesa: D. Maria José de Lancastre de Melo Sampaio, filha de baronesa e neta de conde.
Fico imaginando o Antônio perdido nas ruas e becos de Paris, uma grande cidade, não resta dúvida, uma cidade estrangeira; ele cruza as ruas e desaparece na multidão. Acho que melhor descrição não caberia para as personagens de O tempo envelhece depressa. Para quem os observa de longe: transeuntes. Um pouquinho mais perto e a gente nota a diferença: alguns estão em terra estrangeira, são homens cultos na sua maioria, poliglotas e leitores de Homero, mas estão velhos, alguns senis e além da paisagem: o efêmero.
Como em outros livros do autor, nesse há referências literárias, o “pobre rapaz de Praga que acordou fora de contexto” do conto Clof, clop, clofete, clopete é Gregor Samsa e como ele as personagens de O tempo envelhece depressa também estão atordoados, não com a metamorfose. Não há nenhuma além do corpo jovem que se fez velho. Também não é a cidade estrangeira. A descrição da paisagem é quase sempre dada a um narrador sensível que faz disso motivo de reflexão e apreciação da arte. O atordoamento porque se acordou fora de contexto é provocado pelo tempo que passou depressa e nos deixou incompletos, fragmentados.

O tempo de Antônio Tabucchi acabou no dia 25 de março de 2012. Ele nem fizera ainda 69 anos.