16 maio 2013

Do tiro no próprio pé



Marina Silva defendeu o Presidente da Comissão de Direitos Humanos, o muito querido das redes sociais, deputado e pastor evangélico Marco Feliciano. O evento se deu no auditório da Universidade Católica de Pernambuco. A ex candidata a presidente do Brasil disse que Feliciano estaria sendo hostilizado mais por ser evengélico do que por suas declarações equivocadas.

O interessante é que muitos que acusam Feliciano são cristãos, cristãos de todas as denominações, cristãos católicos, cristãos espíritas, cristãos que ainda esperam Dom Sebastião e até cristãos devotos de matadores de dragões, mas todos, enfim, cristãos; creem no Cristo, na sua morte e ressurreição e por certo na Bíblia, o livro santo que contem a revelação do Senhor. O livro de lombada dourada, com ilustrações de Gustave Doré, enorme e muito digno que serve para enfeitar o móvel da sala e advertir os visitantes que ali reside uma família temente a Deus.

Tantos cristãos críticos não se deram conta ainda que o que pensa Feliciano e o conteúdo de suas declarações está intimamente ligado ao fato de ser cristão (evangélico). Sua condição de sectário pressupõe uma visão de mundo que não destoa da bíblia, como a visão de mundo do islâmico não destoa do Alcorão. Sobre a homofobia, talvez a polêmica maior que envolve o deputado, a Bíblia é sete vezes sete mais radical do que Feliciano, basta ler o episódio do Gênesis que trata da destruição de Sodoma e Gomorra ou Levítico 20:13; o sexo entre iguais nunca foi do agrado de Deus.

A crítica a Feliciano, à sua visão tacanha e anacrônica do mundo, é a crítica à visão de mundo da bíblia. Só os críticos não perceberam isso, pelo menos os críticos cristãos, e isso é muito engraçado, se não fosse trágico.

15 maio 2013

fazer o quê?


Mesmo escritores importantes e homens comprometidos com seu tempo são capazes de ficar absolutamente cegos pela ideologia – um facho de luz que lhes atira do cavalo no chão de fé e dogmatismo. E nem os ateus são imunes, também eles são capazes de transcendência.  É o caso de muitos escritores da América Latina, alguns entre eles clássicos, como Gabriel Garcia Marques, que nunca questionou o fato de alguém se perpetuar no poder, como Fidel. Isso é ditadura e ditadura não é boa, seja ela de esquerda ou direita. Uma vez, na fliporto, ouvi o Galeano falar de Hugo Chavez, e parecia que ele estava falando do mais inocente e meigo de todos os homens. Inocente? Tudo bem que ele se transformou em pomba, quando morreu, mas tenho a mesma impressão de Alberto Caeiro sobre as pombas, são estúpidas e feias. Mas não julgo um bom escritor só porque ele sofre de improbidade intelectual. Que ele seja partidário ou sectário de uma seita religiosa, daquelas bem anacrônicas que ainda supõe sem máculas o hímen de Maria, tudo bem, desde que  faça literatura e não panfleto. O caso mais extremo talvez seja Ferdinand Celine, o cara era colaborador nazista, mas escreveu Viagem ao fim da noite, fazer o quê?

20 março 2013

Uma estadia em Recife


Fellipe, o jornalista do Diário de Pernambuco não foi o único que ficou surpreso quando soube que eu, autor de livro de contos e um dos editores de um jornal de literatura, era do Corpo de Bombeiros. Literatura, pelo menos para o escritor obscuro, autor de obra independente e que vive num mundo estranho ao eixo rio-são paulo, não é capaz de prover as necessidades financeiras de ninguém, espera-se que o escritor também seja jornalista, professor ou outra profissão afim das letras. Antes de Fellipe foi a vez de João Marques. Um dia ele me disse: Nivaldo, esse negócio de ser militar não tem nada a ver com literatura, deixa o Corpo de Bombeiros e te dedica à educação, vai ser professor, rapaz. O que eu respondi a João naquela ocasião; repeti agora para o Fellipe. Disse-lhes que o CB é um aliado importante porque me paga um salário e de quebra me concede tempo livre que eu aproveito lendo e escrevendo.

Além de me disponibilizar tempo pra ler e escrever, o CB é capaz de outros prodígios como foi em 2005 quando fui transferido, contra minha vontade, da Seção de Bombeiros de Garanhuns para a Diretoria Administrativa no CCB, em Recife. Naquela ocasião as circunstâncias me oportunizaram frequentar a oficina de Raimundo Carrero uma vez por semana durante um ano e conhecer, numa leitura de contos, na livraria cultura, o escritor Ronaldo Correia de Brito. Tal encontro, com Ronaldo e com a Oficina de Carrero (eu já conhecia o autor de Sombra Severa fazia alguns anos) foi muito importante. Até aquele momento eu ainda não havia rompido as fronteiras que me separavam do resto do mundo, nem virtualmente, uma vez que a internet continuava pra mim um terreno inexplorado. Vivia em Garanhuns, na minha província, e meus voos não iam além dos livros. Os contos eram consumidos por alguns bons amigos que por educação ou porque nossa proximidade lhes embotava o censo crítico, não se arriscavam em críticas mais severas.

Na oficina, além da exposição de novas técnicas e verdadeiras autópsias que procedíamos sob a batuta de Carrero em clássicos como Madame Bovary ou Doutor Fausto, também se faziam leituras de contos dos alunos. Nem todos se aventuravam, mas eu estava ali passando umas chuvas, a qualquer momento poderia voltar pra Garanhuns, por isso não poderia me dar ao luxo de pudores e mesmo temendo parecer impertinente me expunha sempre que possível ávido pela impressão que poderia causar no mestre e carente de suas observações. É bem verdade que nem sempre me conformava com as observações de Carrero, às vezes elas me pareciam o resultado de puro cansaço do professor diante dos alunos ineptos. Numa dessas ocasiões ele achou de cismar com uma palavra aparentemente sem importância que apontou num parágrafo. Eu jamais usaria esse verbo, disse num tom quase arrogante. O famigerado verbo se tratava de tinha, pretérito imperfeito. Para Carrero tinha soava como doença ou coceira. Isso aqui não é o Parnasianismo, eu lhe disse, tinha é tão palavra quanto qualquer outra. A discussão se alongou e envolveu outros alunos. Carrero é um amor de pessoa, é o cara mais gentil que eu conheço. Suas observações eram sempre apresentadas com muita delicadeza. As duas horas passaram rápido e eu voltei para meu alojamento no colégio da polícia militar (nesses dois anos que passei em Recife, também ministrei aula de literatura para quatro turmas de terceiro ano naquele colégio) no alojamento me sentei na cama com o conto na mão, reli o parágrafo e substitui a palavra execrada pelo mestre. O resultado me pareceu melhor. Afinal Carrero tinha razão.

Até aquele momento, embora Ronaldo já fosse o festejado autor de Faca e Livro dos Homens, eu ainda não o conhecia. Fui encontrá-lo na livraria cultura, onde dividia o auditório com Luzilá Gonçalves. Gostei de Ronaldo naquela hora. Ele me pareceu o escritor idealizado por mim, tão apaixonado e envolvido com o que fazia ao ponto disso estar refletido na sua compleição física, por isso seus modos de homem culto, herdeiro da memória dos livros e consciente da dor e do efêmero, revelava sua verdadeira natureza de artista, do tipo capaz de tal sofisticação que soava fatal, quase trágica como a de Adrian Leverkun.

Eu pedi que Cristhiano Aguiar nos apresentasse, Ronaldo se mostrou receptivo, acho que ele percebeu que estava diante de um futuro leitor, aquele para quem a gente escreve na esperança de um diálogo. Se foi isso o que pensou, acertou em cheio. Se ele ganhou um leitor, eu ganhei um professor. Eu já tinha Carrero. A oportunidade de ter dois professores de peso me foi dada em troca de minha transferência de quartel. O pacato e tranqüilo de Garanhuns pela torre de babel do Recife. Eu ainda não disse, mas a transferência não fazia sentido, Recife já tinha sargentos de mais, as seções estavam ocupadas por eles, sargento batendo em sargento. O que eu fazia ali, tão distante de Garanhuns? Ninguém sabia me responder, alguns oficiais concordavam que minha transferência era despropositada, provavelmente um equívoco, por isso compraram a briga, mas seus esforços resultaram inúteis, ninguém sabia de onde partira a ideia da transferência, é certo que fora publicada no Boletim Geral, de fato a Seção de Pessoal da D.A. precisava de um primeiro sargento, mas por que eu?, tudo ia de mal a pior. Entre a publicação da nota de transferência e minha apresentação houve mudança de comando, eu precisava esperar; outra transferência agora só mediante permuta. Nesse meio tempo eu me vi responsável pelo setor de pessoal da D.A., aquilo estava um caos. O tempo foi se passando, todos os dias eu falava com um capitão ou major diferente, ninguém dava jeito, eu sofria por causa da burocracia.

Então a burocracia me venceu. Um dia eu deixei de procurar, também não sabia se ainda estava interessado em voltar pra Garanhuns, eu estava gostando da Oficina, sentia que ela surtia efeito. As observações de Carrero foram capazes de me dar um novo olhar sobre meus escritos, somado a isso havia o diálogo com Ronaldo. Dei de ombros e me deixei levar pela correnteza.

A vida de Ronaldo não é fácil, precisava se dividir entre a medicina, a família e sua produção literária, apesar disso, ele abriu um espaço na sua agenda e aceitou ler meus contos e se encontrar comigo para comentar sua impressão. Nem sempre Ronaldo era delicado como Carrero, mas eu gostava de sua sinceridade que às vezes me parecia transformada em sadismo. Suas observações eram duras, ele não alisava, refazia parágrafos inteiros, me chamava a atenção para a inutilidade de uma frase, questionava a verossimilhança de um perfil de personagem e dizia que eu precisava sujar o texto. Ousar mais. Na melhor das hipóteses ele dizia que o conto não estava ruim, mas faltava alguma coisa. Às vezes eu saía de um desses encontros desolado, pensando seriamente em desistir da literatura. Mas todo aquele esforço de Ronaldo para que eu perdesse minha literatura escondia um intuito secreto: Eu precisava perdê-la para achá-la.

Durante aqueles dois anos, tive o privilégio de me encontrar com Ronaldo Correia de Brito e Raimundo Carrero, dois importantes escritores que para sorte minha foram com a minha cara, e me levaram a sério como escritor, sou grato a eles e também ao Corpo de Bombeiros e sua burocracia kafkiana que possibilitou tal encontro. 

15 fevereiro 2013

O destino das metáforas

A voz em primeira pessoa, a sutileza, o transcorrer do tempo, a morte na metáfora da máquina do tempo. Daniel, o amigo, o que ficou para trás e espera a máquina é a história da transcendência que não se realiza. Nesse conto que empresta título ao livro, assim como nos outros – e para mim uma das confirmações de sua unidade – o plano de narração reflete outros planos em que a súmula dos efeitos da escritura de Sidney Rocha – todos em pró do não dito – faz a diferença entre o limite do real e sua fabulação.

O destino das metáforas é transcender a realidade que se divisa na historia do garoto cego que tropeça no gato de três patas (gato para quem recairá a fúria) e tomba da escadaria para a morte ou no pai que mata os filhos arremessando-os da ponte como se pequenas aves fossem e precisassem do incentivo paterno para voar. Também no bebê de passos trôpegos que morde e arranca o mamilo (a lua) da mãe numa correspondência genial com os passos trôpegos de Armstrong vistos na TV. Esses são resumos mal feitos de alguns dos contos do livro. Nele a realidade chã é transmutada para outra dimensão, a dimensão poética que refaz o teatro em que se desenrola o drama humano.

Em todos os contos nota-se uma rigorosa medida, coisa de matemático, que milimetricamente conduz o leitor em cada frase. Tudo parece ser calculado, e do traçado disso surge diante do leitor satisfeito uma prosa rigorosa e vigorosa; parábolas de tensão e linguagem sem estratégia nenhuma de efeitos vazios (tão comum nesses tempos pós-modernos, quando se tornou tão difícil ser escritor, e resta o desespero e uma busca quase vã pela originalidade) Sidney Rocha, em O destino das metáforas, não se confunde com esse tipo de prestidigitador canhestro.

Os contos apresentam camadas, talvez outro nome para a história secreta de Piglia, daí, talvez, a sensação de que você leu uma narrativa que deixa na lembrança a certeza de que não foi apenas aquele número de página, indicada no sumário, não aquele número – os contos são curtos, alguns curtíssimos – a responsável em conter todo o jorro da narrativa. A realidade explicitada não basta, existe alguma coisa a mais que se esconde, se insinua, algo que você leitor quase nunca sabe o que é, mas, desconfiado, alimenta suspeitas. Uma suspeita de que há algo a mais (que o noticiário deu conta superficialmente) e que não foi dito a respeito do sujeito encontrado morto numa lata de lixo.

Há muito o que dizer do conjunto dos contos. Em Castilho Hernandez, por exemplo, um dos meus favoritos, a perda da identidade e certa esquizofrenia da personagem da o tom e Sidney se sai muito bem na sua contribuição para a galeria de contos (em que se destacam Poe e Borges) que exploram a temática do Outro. A escritura poliédrica permitiu-lhe explorar num mesmo conto, como A Vida e A Morte de John Lennon, vários temas como o fim da infância (numa bonita metáfora que nos lembra Baudelaire, “o fim da infância, a cidade deixada pra trás...” ), a reinvenção de Sísifo na necessidade de andar em círculo, a felicidade e a morte vistas ao mesmo tempo num beijo, o erotismo e a perda do vigor, o inacessível objeto de desejo, a senilidade e a morte. Tudo isso num só conto, milimetricamente construído e de uma unidade a toda prova.

Mas nem só do não dito ou de uma narrativa bem estruturada vive O destino das metáforas, nele encontramos o criador de clichês, que ainda não são clichês no momento em que são forjados, só quando passam a ser tomados de empréstimo por outros escritores. Nos contos há uma riqueza de construções que trazem a marca da originalidade; uma obsessão dos nossos tempos, como eu já disse, quando se tornou impossível ser original porque chegamos tarde, diria Harold Bloom. Num único parágrafo o leitor se depara com construções como: “Nunca trocaram palavras, é verdade, mas deu-lhe a distância como pedagogia, e como madrinha a própria esposa, vejam, e esta, nos Natais ia lá e lhe sondava as necessidades.” e “A morte lhe deu feição de sinistro monumento.” De fato o automatismo da escrita de Sidney inventa frases e suas conexões com o mundo real traduz para o leitor um tanto de beleza que é poesia sem deixar de ser prosa.

Sobre seus mestres mudos, consigo localizar Borges e Cortazar. Não são reflexos no espelho de Sidney, são companheiros das mesmas inquietações. Com eles aprendeu, ao seu modo, reinventar o uso das metáforas, a história dentro da história, a arte do não dito e a exploração do insólito – talvez com menor recorrência, apesar de tão comum na literatura desde “Kafka e seus precursores” – como no conto Magnetismo, quando o autor transcende o contexto da experiência cotidiana com o menino que era um ímã e atraía os metais, engolindo tudo; o médico mesmerista e a Torre de Paris, que é logo substituída para se conservar a plasticidade da realidade. Além de todos esses elementos, que é o melhor que encontramos na literatura contemporânea e emprestam ao livro sofisticação, Sidney conservou a narrativa, a história, não caiu nas armadilhas (dos desesperados por originalidade) das pirotecnias e hermetismos áridos.

Também encontrei nos contos uma desesperança, Sidney deve desconfiar muito do gênero humano, ele é um pessimista, no melhor sentido, como Saramago foi, mas é fato que o sofrimento dos homens e mulheres é combustível do qual se alimenta o escritor, talvez porque deseje expurgá-lo, não sei, ele não é o deus dos hebreus, não é sádico, se importa com o sofrimento que aflige os humanos, sem dúvida, e por isso precisa fazer algo, e como seria anacrônico demais colocar uma boina e ir viver na selva amazônica treinando guerrilheiros, ele escreve e suas criaturas, como Atlas, carregam nas costas um peso imensurável, daí a recorrência da morte e da loucura, mas não há nada de casmurro nos contos, há humor e delicadeza, o tipo de humor que nos faz pensar e a delicadeza que nos desconcerta. O destino das metáforas, em suma, é um desses livros que exige um leitor que seja capaz de encarar a literatura mais do que mero entretenimento.

10 março 2012

Liberdade

Há muita coisa que se pode dizer de Liberdade, romance de Jonathan Franzen. Eu poderia me dirigir aos leitores pragmáticos, por exemplo, aquele do tipo que não perde seu tempo com uma leitura que não seja útil. O tipo de leitor a quem Oscar Wilde reservaria um pouco de seu desdém, o tipo de leitor interessado no quanto de conhecimento imediato um livro pode oferecer, desinteressado do prazer ou enlevo que a arte proporciona, e que passa todo o seu tempo mergulhado em ignorância depois de formular um conceito que há de lhe valer para o resto da vida, a saber: a de que romance é coisa para moças (no sentido equivocado que as sociedades conservadoras relegaram às moças de família e seu lugar de leitoras de romances água com açúcar, moral cristã e outras tolices indignas de atenção intelectual).

Lendo a biografia do jovem Marx descobrimos um leitor apaixonado por Balzac, e foi no autor da Comédia Humana que Marx se deu conta dos mecanismos da sociedade francesa daquele tempo. A literatura do século XIX estava preocupada em apreender a realidade, desmistificar preconceitos e corrigir injustiças. Alguns escritores fizeram disso seu objetivo enquanto faziam arte: Balzac, Tolstoi, Stendhal, são alguns entre outros que aliaram o estudo da realidade de seu tempo com o máximo de rigor artístico, e por causa disso escreveram grandes livros.

Personagens que são verdadeiras invenções do humano; tramas envolvendo questões comezinhas e a reinvenção do herói que definitivamente troca Aquiles pelo mais reles dos mortais e um final que aponta para a comédia que representamos num mundo caótico e doente por causa das nossas escolhas ao longo de um tempo curto demais para percebermos o quanto de frágeis e confusos somos e o quanto nossa vida, não obstante toda complexidade, é carente de sentido. Esses critérios – vamos chamar de critérios – ainda funcionam na hora de escrever um grande romance e é isso o que Franzen, herdeiro dessa tradição dos grandes romancistas, lança mão para compor o seu belíssimo Liberdade.

Eu falava dos leitores pragmáticos, acho que até mesmo eles vão gostar do romance e talvez até mudem seu conceito de leitura para moças. Liberdade nos dá conta de muitas questões, algumas das quais só encontraríamos em ensaios jornalísticos comprometidos com a verdade. Assim como os romances de Balzac deram ao jovem Marx uma idéia muito precisa da sociedade francesa de seu tempo e por esse tanto do mundo, Franzen nos faz divisar uma América do Norte afundada na própria merda que as disputas entre Democratas e Republicanos fizeram chegar. Uma América a quem a recessão é só mais um dos problemas. Uma América no impasse de liberais e conservadores; liberais demais a ponto de temerem qualquer semelhança com ditadores chineses e sua política assustadora de controle da natalidade e por isso indiferentes às questões relativas ao aumento da população e perigo para o futuro sustentável do planeta e conservadores demais incapazes de perceber o quanto a religião lhes embota a vista e lhes impõe uma visão tacanha do mundo.

Bush e seus asseclas das empresas corruptas de venda de armas e exploração do petróleo, a imoralidade subjacente de tal comercio, o engodo para legitimar uma guerra (do Iraque) que num certo sentido se baseou no dualismo de que tanto gostam os fundamentalistas cristãos da América que em tudo enxergam a guerra entre o bem e o mal incapazes de perceber que não é clara a divisão dos papeis. Essas e outras questões tão bem desenvolvidas no livro por certo interessarão aos leitores sisudos, os leitores de jornal, os leitores interessados das questões fundamentais de seu tempo.

Mas o livro, devo advertir, não é importante porque somente trate dessas questões, porque nos garanta uma visão da realidade. Nada disso. Ele é importante – pelo menos pra mim – porque ali nos encontramos em Walter, Patty ou Katz e no quanto suas vidas são numa certa medida a nossa vida, a vida do leitor de quem já se disse que é narcisista e gosta mais do livro em que se vê representado. Porque no fundo é essa a função da grande arte, uma função que não precisa ser anunciada, mas que funciona. Um livro, quero dizer: um romance não é bom porque seja capaz de compor um painel da sociedade ou causar entretenimento, mas funciona na medida em que também nos reinventa como humanos e terminamos sua leitura nos sentindo outra pessoa, sentindo mesmo uma sensação de que a leitura daquelas 600 páginas de algum modo contribuíram para que nos sentíssemos melhores seres humanos.

É claro que não nos tornamos melhores, mas a ilusão é que conta.

31 janeiro 2012

Sofrimento, Teodicéia e malogro

Como acreditar numa verdade que não resiste ao tempo? Ainda mais uma verdade com pretensão universal? Mas o fato é que não resiste e à medida que o resultado do trabalho de pensadores e cientistas se impõe e aparece um novo espírito de época vai ocorrendo por parte dos conservadores uma tentativa desesperada de acomodar as coisas. E vão aparecendo as justificativas (a teodicéia é uma delas) surgem argumentos do tipo: “é preciso contextualizar” e alguns jargões são logo construídos e repetidos de boca em boca de padres e pastores evangélicos.

Uma questão interessante a esse respeito é a idéia de sofrimento e como ela foi tratada pelos autores da bíblia.

Os profetas como Amós, Jeremias ou Isaias tentaram justificar o sofrimento pelo qual passava seu povo, o povo escolhido, falando de desobediência – e é interessante notar que é desobediência e não pecado, algo sobre o que tratarei mais adiante. Sofria o povo porque insistia em desobedecer e por isso recaia sobre ele a fúria de deus. Deus é bom e tudo pode, mas mesmo sua paciência tem limite.

Com o Pentateuco ou Torá, composto pelos primeiros cinco livros, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, ficamos sabendo da origem do mundo e da vida e depois acompanhamos o povo escolhido de deus, os judeus, a aliança, ida para o Egito acossado pela fome, uma relativa prosperidade naquela terra estrangeira e sua escravização pelo faraó duas gerações depois de Abraão. Depois disso é preciso que um líder apareça para libertar o povo e é o que faz Moisés depois de ser arauto das pragas de Javé contra os egípcios. Ele conduz mar vermelho adentro seu povo para o grande malogro que é a terra prometida.

Uma coisa curiosa e que passa despercebida é que a tal terra prometida (Canaã) já era habitada por povos ferozes e que para obter a posse da terra se fazia necessário lutar. Deus não estava familiarizado com a burocracia dos cartórios. Não conhecia os tramites legais, é por isso que os portugueses que são sábios e aprendem com a experiência alheia, logo que atracaram no paraíso abaixo da linha do equador lavraram a escritura e garantiram a posse legal das novas terras descobertas (os índios, como deus, também não manjavam esse negócio de cartório).

Era preciso lutar e o povo reluta, coisa que não é bem recebida por Javé. Não interessava que o povo estivesse extenuado, afinal fora liberto fazia pouco do trabalho escravo, é de se supor, portanto, que não esbanjasse saúde, mas Javé não se interessa por detalhes, seu povo desobedecia fazendo corpo mole e isso não era coisa que ele pudesse tolerar. Não Javé. E o que acontece em seguida todo mundo sabe e faz vista grossa; o povo amargou 40 anos no deserto, andando para lugar nenhum até que toda aquela geração de homens podres do trabalho egípcio morresse.

Como se vê, nunca foi fácil ser judeu, a tal terra prometida quase nunca lhes pertenceu de verdade, Israel (a Palestina para ser mais exato) por séculos foi sempre uma terra ocupada por estrangeiros; centenas de gerações de judeus viveram e morreram sob o jugo de outros povos: Assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, entre outros, durante muito tempo foram os verdadeiros donos da terra prometida por deus.

Numa época muito anterior ao holocausto, certamente os judeus já se perguntavam por que, sendo eles o povo escolhido e apadrinhado por deus, sofriam tantos reveses. A resposta estava na ponta da língua dos profetas: sofria porque merecia já que é tão teimoso em desobedecer. Tudo bem, o argumento parece que convencia – a pelo menos uma boa parcela deles – mas aconteceu algo que os profetas não previram. Quando Antíoco IV assumiu o trono em 175 a.C. ( 1 Macabeus) e perseguiu os judeus forçando-os a abandonar suas crenças, proibindo o culto a Javé e sentenciando à morte os pais que fizessem circuncidar seus filhos entre outras coisas, a explicação dos profetas já não convencia nem os mais abnegados religiosos. Antes o povo sofria porque desobedecia a Lei de Javé e agora estava sofrendo justamente porque obedecia ou queria obedecer. E então? Como explicar o sofrimento?

Fácil. Uma nova estratégia foi montada e passaram a surgir os autores apocalípticos. Daniel foi o primeiro. Sobre essa questão eu recomendo ao leitor interessado por mais informação o muito bom O Problema com Deus, de Bart D. Ehrman, ex-pastor batista que recobrou a razão quando perdeu a fé.

A partir de agora é preciso criar novos conceitos e o mais importante deles é a Dualidade. Ehrman ainda cita Pessimismo (o mundo é governado pelo mal – com a aquiescência de deus – e nada que possamos fazer pode mudar isso); Castigo (foi deus quem criou este mundo e é ele quem vai redimi-lo castigando com o inferno aqueles que merecem) e Iminência (em breve deus retornará, o diabo vai se recolher à sua insignificância e os bons e justos viverão sob os auspícios de deus todo poderoso que vai governar como um rei).

É interessante notar que nos primeiros livros da bíblia como o Pentateuco, por exemplo, não existe a figura de satanás como nós o conhecemos hoje. A serpente que tenta Eva não passa de uma serpente com a diferença que se expressava na mesma língua da primeira mulher e possuía a incrível habilidade de andar sobre duas pernas. Quando sofre a punição de Javé, perde as pernas e passa a rastejar sobre o próprio ventre. Não é ao demônio a quem deus se dirige, mas à serpente. Ainda não existe o conceito universal de dualidade que trouxe com ele a idéia de pecado. O universo não é dividido entre duas forças que se opõem; de um lado deus pesando muitos quilos que representa o bem e do outro o famigerado e magricela satanás representando o mal.

Isso é tão certo que num dos livros poéticos e sapienciais, Jó, satanás aparece como um conselheiro de deus, um de seus filhos que tem livre acesso ao céu onde é recebido com honra e ocupa uma determinada função.

E agora cito o interessante questionamento de Epicuro:

"Deus está disposto a evitar o mal, mas não é capaz? Então ele é impotente.
Ele é capaz, mas não está disposto? Então ele é malévolo.
Ele é igualmente capaz e disposto? Por que, então, há mal no mundo?"

Entendendo o mal como causa do sofrimento, percebemos que teve deus dois advogados, ou tipos de advogados para sua defesa. Primeiro os profetas que entendiam o sofrimento como forma escolhida por deus de castigar a desobediência à sua Lei. Quando essa justificativa ou “verdade” se esgotou, outros profetas com novos conceitos apareceram para justificar a impotência de deus e garantir a fé dos fieis. O Apocalipse é aquela que se mantém até hoje. Há sofrimento porque outra força se opera na terra e esta força se opõe a deus, no meio está o homem e o livre arbítrio. Por causa do livre arbítrio deus não pode fazer nada enquanto se endurece ainda mais as forças do mal. Mas um dia (e todos os profetas do apocalipse são unânimes em dizer que em breve, desde Daniel a Paulo passando por Jesus e o Batista) o reino de deus será estabelecido entre os homens, os maus serão punidos e os justos recompensados.

Não há nenhuma dúvida de que os profetas da bíblia falavam para seus contemporâneos quando previam o Apocalipse e mesmo Jesus deixa isso muito claro em Marcos 9,1 “em verdade vos digo que estão aqui presentes alguns que não provarão a morte até que vejam o reino de deus, chegando com poder.”

Diante disso só nos resta duas alternativas quanto ao sofrimento, ou esperamos sentados o apocalipse ou pusemos mãos à obra e tentamos fazer alguma coisa para tornar o mundo melhor.

22 novembro 2011

Narciso, todo poderoso

Entre os religiosos do islã, não há uma separação entre o Deus prescrito no livro sagrado – Corão – e aquele que de fato povoa o imaginário dos fieis. Entre os cristãos o Deus que povoa o imaginário dos crentes se distancia daquele previsto na bíblia todas as vezes que o espírito da época exige. Isso ocorre, provavelmente, porque o cristianismo sofreu reformas e aproximações históricas que o islã não permitiu. É por isso que se diz que as bases de uma religião estão na manutenção da tradição.

De fato, hoje em dia, a Igreja Católica considera boa parte das escrituras como alegorias, portadoras de verdades teológicas (se é que isso quer dizer alguma coisa), mas que não possuem necessariamente verdade histórica. É claro que nem todo mundo está de acordo, principalmente entre os sectários fundamentalistas de certas seitas evangélicas. Mas o fato é que muito do que a bíblia preconiza, quer seja histórico quer seja verdade moral, não pode ser entendido literalmente, senão a gente vai sair por aí matando homossexuais ou os filhos que nos desobedecerem.

Para a sobrevivência da religião anacrônica – como são todos os monoteísmos – se faz necessário todo tipo de contorcionismo. Nietzsche chamava a isso de improbidade intelectual. Muitos acham que ela precisa acompanhar os novos tempos, coisa muito estranha, se imaginarmos que ela é a palavra de Deus, e como tal imutável. Mas o fato é que muitos ainda, apesar de todos os avanços e descobertas, seja no campo da paleontologia, seja na física, não deseja abrir mão da idéia consoladora de um pai. Sobre isso nada posso acrescentar que já não esteja esmiuçado em O Futuro de uma ilusão, de Freud.

Então acontece uma coisa; de repente não concordamos mais com o livro e passamos a considerá-lo ultrapassado. Mas isso acontece num nível do inconsciente, ainda é a Palavra, mas a Palavra que precisa ser decifrada, que guarda um grande segredo. Então as pessoas se recusam a ler com medo de ter de se deparar com tais verdades porque no fundo parecem vulgares e despropositadas. É preferível não ler, então as pessoas – aquelas que não querem abdicar da idéia de que há um pai – passam a nutrir muito receio do Livro, conservando-o na estante. É por isso que algumas pessoas pagam verdadeiras fortunas em bíblias enormes, quase impossíveis de manusear, com lombada dourada e contendo todas as ilustrações de Doré. É para não ter que ler, afinal fica muito pesada. Impossível de manusear. Lá dentro, consigo mesmo, o sujeito quebra a cabeça: Não é possível que alguém quer que eu leve à sério isso?

Vou dar um exemplo, aquilo que Deus diz à mulher, depois que os dois comem da fruta do bem e do mal. Já leram? Pois então vamos lá para o Livro de Gênesis 3,16: “com dor terás filho e tua vontade será para sempre a do teu marido e ele te dominará.”

Qual é a mulher, no mundo ocidental e em nossos dias, que está disposta a encarar esse absurdo como uma verdade inquestionável? Qual é a mulher, depois de toda a luta que travaram no fatídico século XX – que ainda travam nesse começo de século – que não se sente ofendida diante de tais palavras, tal castigo, tal maldição?

Na última festa literária de Olinda encontrei a Maria Paula, aquela do Casseta e Planeta, numa das mesas alternativas do evento. Ela e mais duas mulheres desenvolviam um trabalho com o público que tinha como tema o papel da mulher na história ou qualquer coisa do gênero. A intenção era fazer justiça à mulher que sempre sofreu descriminação e a quem foi dado um lugar de subordinação. Então a partir de islaides e comentários quase sempre bem humorados elas passaram a descrever como as mulheres atuaram nos diversos momentos históricos. Na Idade Média elas não deixaram de culpar a Igreja e seus clérigos por terem sido demonizadas.

Quando a conversa acabou eu levantei a mão e fiz uma pergunta: Por que a mulher, perguntei, apesar de ter sofrido e ainda sofrer tirania por parte da religião, continua sendo sua maior defensora?

Maria olhou para as amigas e saiu-se com uma resposta que é o mais puro reflexo desse contorcionismo de que falei. Ela disse que a mulher tem predisposição à fé, algo que faz parte da sua natureza, daí porque sua defesa da religião. É claro que essa resposta tem mais de romantismo ou idealismo do que argumentação e propriedade, ela não considerou o fato do condicionamento sofrido pela mulher, algo indelével que decerto deixou marcas profundas. Mas não foi essa resposta aquilo que me chamou a atenção na sua fala, mas o que ela disse um pouco antes, referindo-se à bíblia; disse que era um livro escrito por homens, cheio de idéias masculinas e, portanto sem importância para os dias de hoje. Chamou o livro de anacrônico e descontextualizado.

E aí eu volto para o que disse no início; as pessoas estão fazendo uma separação ou distinção, Maria Paula não disse nenhuma novidade; uma coisa é a bíblia e o Deus ali prescrito, outra coisa é o Deus que cada um imagina e idealiza de acordo com seus interesses. É a confirmação do axioma: Deus é feito à imagem e semelhança do homem. Mas agora deixa de ser aplicado à coletividade. Não mais a um grupo social e cultural que compartilham a mesma idéia de divindade. Deus fragmentou-se e está subordinado ao reflexo do indivíduo. Narciso elevado à mais alta hierarquia.

Sem dúvida alguma coisa se quebrou.