15 maio 2010

a visita dos mórmons

Dois mórmons com forte sotaque americano outro dia bateram à minha porta. Eu estava sozinho e eles perguntaram se podiam entrar para uma conversinha sobre algo que poderia me interessar. Eu sabia que nenhuma conversa de mórmon poderia me interessar, mas como tenho um grave problema de não saber dizer não, nem mesmo a mórmons, deixei que entrassem.

Cada um deles se sentou numa poltrona, gesto esse que foi imitado por mim, que fiquei com a terceira, a do meio. Os dois rapazes, de pele branca e sardas no rosto, ainda não tinham dito nada e eu já brigava com minha compulsão de olhar o relógio, afinal era sábado e aos sábados a gente só deve fazer o que gosta.

Um deles, como que adivinhando minhas considerações mentais a respeito de desperdício do tempo, perguntou-me se poderia contar uma história. Eu disse que foi pra isso que eu os deixei entrar, ele não entendeu minha ironia e prosseguiu retirando de uma pasta o que pareciam três cartas gigantes de baralho. Na primeira um homem de tez confiável entrava num bosque, na outra tinha sua atenção voltada para uma direção de onde emanava forte luminosidade e na terceira, com o semblante que era pura contrição, aparecia ajoelhado diante de um Jesus ariano de quatro metros de altura.

Durante a exposição das ilustrações, feita por um dos rapazes de sardas no rosto, o outro me narrava em seu português, carregado de sotaque, a história de como foi dada a Joseph Smith a revelação de um novo evangelho, apesar de Paulo, o inventor do Cristianismo, nos advertir que é anátema todo evangelho que não trouxer a assinatura de João, Marcos, Lucas e Mateus.

Quando ele terminou sua história, fitou-me por um momento e perguntou o que eu estava sentindo. Ele não me perguntou o que eu achava; o que pra mim devia ser a pergunta mais cabível, mas talvez sua pergunta mais do que uma intenção, refletia sua dificuldade com a língua. No momento não sei se encarei assim, lembro-me apenas que em cima da dele fiz minha própria pergunta, esta sim, cheia de intenção.

Posso ser honesto?, eu perguntei. Eles se entreolharam e não sei se entenderam. Houve qualquer coisa como uma confusão nos olhos deles. Talvez aquela palavra – honestidade –, ainda mais em português, fosse-lhes completamente estranha. Os mórmons ainda esperavam que eu dissesse o que sentia quando usei outra palavra, esta sim, mais do que a outra; completamente estranha no vocabulário mórmon. Eu disse que sentia incredulidade. Disse que não podia acreditar num Jesus de estatura normal, muito menos num de quatro metros, e disse que mais estranho do que aquela altura toda era o fato dele estar na América. Eles continuavam sem entender quando eu completei: Jesus era comunista, o que é que diabo fazia na América do Norte?

Quando foram embora, me restituíram o sábado e me deixaram de presente o Livro dos Mórmons, que eu conservo até hoje, só pra contrariar o Paulo.

05 maio 2010

Wilmot e Meslier

Clarence Wilmot, ministro presbiteriano, é um personagem interessante do John Updike. No romance, Na Beleza dos Lírios, ele é um religioso que resolve – para poder argumentar a favor de sua fé – ler autores como Nietzsche e Darwin a fim de refutá-los. Acontece, porém, que o tiro sai pela culatra e o ministro, ao invés de refutar os argumentos dos materialistas, descobre-se convencido deles. A implicação é perder a fé e se deparar com o absurdo. Durante algumas páginas acompanhamos o drama da personagem que tem sua vida transformada a partir daquele evento – o da perda da fé – de organizada e coerente em caótica. É interessante o conselho que lhe dá um de seus superiores, de que ele continuasse assim mesmo, sem fé, com a prática religiosa. Wilmot, sem temperamento para tanto, e cativo de uma honestidade latente para consigo mesmo, não empreende a farsa e abandona o ministério. É claro que ele sofre todo tipo de recriminação por parte da família que não consegue entender como alguém pode levar tão a sério uma crise de fé. Desistir do ministério significa perder o emprego e a casa paga pela congregação. O resto de sua vida será consumido vendendo enciclopédias para sustentar os filhos.

Eu me lembrei do Wilmot porque acabei de ler Memória, o livro de Jean Meslier, padre ateu que viveu no século XVIII. Diferente da personagem de Updike, o padre que também se descobre sem fé, não abandona o ministério e vive a farsa de ser padre durante quarenta anos. Nesse meio tempo ele vai escrever suas memórias e nelas dizer tudo o que pensa do cristianismo e catolicismo. Sem dúvida nenhuma as memórias o ajudarão a manter a farsa. Imagino o padre, todas as noites, munido de pena, tinteiro e papel, sob a luz bruxuleante de uma vela, fazendo a sua terapia como uma forma de não perder totalmente o respeito a si mesmo. O livro das memórias é seu testamento. Escrever para ser publicado postumamente não o redime da covardia, já que o morto – principalmente para um ateu – não pode mais ser atingido, mas o redime, em parte, da falsidade. Sua prática noturna, algo para a qual certamente exigia muito de um cura de província, semi-letrado, não deve ter sido fácil, mas foi a alternativa que encontrou para compensar uma vida inteira de mentiras.

Tanto numa personagem quanto na outra, uma tirada da ficção, outra da realidade, uma coisa é comum: a atração pela ética. E acho que nesse sentido os ateus ganham de disparada dos religiosos. Enquanto para estes ser ético constitui uma espécie de salvo conduto para a outra vida, sem a qual o prêmio do paraíso estaria comprometido, para aqueles, os ateus, ser ético é uma necessidade para se viver a única vida possível.

26 abril 2010

O livro de eli

Parece um bom filme, pelo menos no início, sentimos qualquer coisa como uma expectativa, quando acompanhamos o peregrino caminhando dentro de um cenário apocalíptico, alguma coisa que nos faz pensar – fez a mim – n'A Estrada, ótimo livro do Cormac McCarthy, com a diferença de que no livro as personagens reproduzem o humano e, no filme, o personagem representado por Denzel Washington parece mais um herói das histórias em quadrinhos.

Desde o início, fica claro que o Livro de Eli é na verdade a bíblia, novo e velho testamentos, e é provavelmente o último exemplar. Uma guerra varreu a terra e o livro, segundo comentário de uma personagem, foi o responsável porque, com a sua “verdade”, dividiu nações e instigou o conflito. No mundo desolado, não sobraram exemplares, tendo sido queimados para se evitar outra guerra.

Faz 30 anos que ocorreu a guerra e desde então a única prerrogativa é sobreviver num mundo caótico onde a antropofagia não causa mais pudicícia em ninguém e ter o controle da pouca água restante faz de um homem o senhor absoluto. Na estrada seguindo para o oeste, está o peregrino, ele acha que uma voz sussurrou àquela direção, é a mesma voz já sussurrada antes nos ouvidos de Moisés, Paulo, ou Joseph Smith.

A perseguição ao peregrino e o desejo de posse da bíblia traduzem a história da motivação. Tanto o mocinho quanto o bandido estão convictos de sua motivação. Enquanto o primeiro está crente de que obedece a uma ordem e a um propósito, algo maior do que ele, que ele não entende porque é insignificante, mas algo em que deve confiar porque bom e justo, o segundo deseja o livro para fazer dele uma arma para controle social, a mesma coisa que fez a Igreja Católica durante os mais de mil anos, que duraram a Idade Média.

O peregrino chega aos destroços de uma cidade dominada por um homem que a conquistou a base da força. É um tipo excêntrico que se espelha nos ditadores do século XX, logo na primeira cena aparece lendo uma biografia de Mussolini. Seu desejo, sua obsessão é conseguir a bíblia e para isto está disposto a tudo como utilizar mercenários selvagens, que matam e pilham a todos na estrada numa desesperada cruzada para encontrar o livro. Quanto ao peregrino ou mocinho, manter-se firme em seu propósito de conduzir o livro até onde deve, até onde a voz ordenou que levasse, não importa a custa do sacrifício que fosse, é aquilo que dá sentido ao homem que sabe que vai morrer, mas a morte não assusta mais, a própria morte deixa de significar desesperança e passa a ocultar outro sentido, o da promessa de eternidade.

O filme peca quando cria uma personagem estereotipada por que pautada no dualismo que divide mocinhos e bandidos. Não há inocência na história do cristianismo e é desrespeitoso – para não dizer pior – esse negócio de um livro, quer seja a bíblia, torá ou alcorão se arrogar o direito de verdade universal. A história do cristianismo não é a história dos justos, há, inclusive, quem faça uma distinção muito clara entre o Cristo e os cristãos. O cristianismo católico serviu aos poderosos, conferiu poder divino a todos os reis que só tiveram esse princípio violado em 1789, depois de considerada uma visão racionalista de mundo. Os peregrinos da vida e sua motivação são os resultados de fanatismo e ignorância, eis tudo. Se alguém quiser chamar isso de fé ou de boa vontade, fique à vontade, mas não muda o fato de que não passam de pobres ignorantes que não se dão conta de que estão servindo à causa do mais forte, como a legião de evangélicos que enriquecem com o dízimo a conta bancária dos Edir Macedos .

O filme não convence, a história é fraca, inverossímil, o peregrino é o Demolidor sem máscaras, capaz de lutar com um bando inteiro sem sofrer arranhões, num roteiro bem típico de Hollywood, que também inclui explosões e mensagem politicamente correta, é mais um bom exemplo que agrada ao público que vai ao cinema porque gosta de pipoca.

13 abril 2010

leitor de conto

O conto privilegia um texto sutil onde as palavras dizem menos e escondem mais.

Tenho reparado que mesmo bons leitores muitas vezes fazem uma leitura indigente do conto e não percebem nem vinte por cento das sutilezas ali escondidas. Não é uma informação o que se deseja obter no conto, mas uma revelação que exige, muitas vezes, nossa participação efetiva no processo criativo. Leitor de conto não é passivo e para angariar o prazer próprio da leitura lhe é cobrado o preço de certo esforço intelectual. É por isso que nenhum editor no Brasil gosta de livros de contos. Pior do que eles só os de poesia.

Vamos imaginar um conto em que um velho compra a casa onde nasceu e se estabelece nela de posse de seis garrafas de vinho. Uma vez ali estabelecido ele começa a tomar as garrafas e lamentar o fato de ter deixado um livro de poemas do Sá-Carneiro no hotel. Promete a si mesmo pegar o livro na primeira oportunidade que nunca aparece. Os vinhos são mencionados e todos são exemplares de uma adega de um homem ao mesmo tempo de posses e de bom gosto. Nesse meio tempo o leitor começa a suspeitar de que há algo estranho e aquele homem possivelmente veio ao encontro da morte. É interessante notar que o poeta português mencionado foi suicida. A suspeita se confirma quando nos últimos parágrafos ficamos sabendo que antes de comprar aquela casa e fazer sua viagem solitária, aquele homem enterrara a própria mulher. O conto termina quando ele relembra o projeto que se desenhou na mente enquanto faziam descer o caixão de Helena, sua esposa, tal ação narrativa se desenrolaria mais ou menos assim:
comprar a casa e mudar-se pra lá de posse apenas de um livro, provavelmente o que estivesse lendo, e algumas garrafas de vinho. As melhores de sua adega. O passo seguinte era fácil. Não comer nada, só vinho e quando as garrafas secassem nem isso.”

O patético suicídio por inanição parece encontrar na morte da mulher o possível motivo e é, certamente, essa a conclusão do leitor apressado.

Pois se não, vejamos. Se ele queria apenas se matar por causa da mulher morta, por que compra a casa onde nasceu?, não haveria nisso nenhum outro propósito?, a casa onde nasceu é provavelmente a metáfora de que o autor precisa para de novo confrontá-lo com seus fantasmas. Essa história, a outra história, que o Ricardo Piglia chama de secreta é aquilo que mantém a tensão do conto e o justifica como obra literária.

O senhor de quase oitenta anos, dono de uma cultura literária e uma adega comprada a custa de uma pequena fortuna foi uma criança quebradiça, debilitada e que por uma estranha razão sobreviveu aos outros, a seu pai morto de câncer aos 37 anos e seu irmão, ainda criança, morto num estúpido acidente automobilístico. Essa é a história que nos é contada nos flashbacks que aparecem entre uma garrafa de vinho e outra. Cada um deles é um pedaço do quebra-cabeça que vai construindo aos olhos do leitor o perfil da personagem.

Basta prestar a atenção, num momento e noutro ele se pergunta por que não morreu no lugar do irmão e lamenta não ter herdado o câncer do pai. Voltar a casa, portanto, é retomar o fio da discussão e continuar a inquirir o absurdo da existência que não nos poupa o sofrimento da perda. Ele deseja se matar porque não suporta a morte. É a história de um homem revoltado com o absurdo de existir e que vê na morte da mulher a gota d’água de que precisava para dar um basta.




12 março 2010

sobre o plágio insosso da realidade

Num dos contos de Detalhes de um Pôr-do-sol, Nabokov – ou a personagem de Passageiro – compara a página de literatura com a vida e entre uma e outra – em termos de complexidade e sucessão de eventos absolutamente não condicionados a uma idéia de ordem e concisão artística – lamenta a subordinação do artista que necessita modificar tais elementos que a realidade fornece para somente assim alcançar “uma espécie de harmonia convencional e concisão artística”.

No conto, a personagem – um escritor –, narra para outra personagem – um crítico – uma história por ele vivenciada. Nada de mais. Um episódio dos mais simples. Está num trem e faz uma viagem noturna. Numa das paradas ele acorda – pois está deitado na cama beliche – e percebe que há um novo passageiro na cabine. O sujeito está sentado na cama de cima e seus pés balançam enquanto se prepara para dormir. O escritor acorda com o movimento que faz os pés do outro e fita aqueles membros. Na verdade se detém e na descrição que faz enfatiza algumas particularidades como o fato de serem repelentes. Por fim os pés desaparecem debaixo das cobertas e seu dono passa a reproduzir um choro ou grunhido que se estende – com uma pequena interrupção aqui e acolá – durante a noite. O escritor, desperto, não tem alternativa senão acompanhar o lamento do outro, enternecer-se e se angustiar tentando imaginar sua origem. A noite é longa e o choro parece não ter fim, mas num dado momento o escritor é vencido pelo sono. Na manhã seguinte é despertado pelo camareiro. Levanta-se e nota que seu vizinho deixou de chorar – ninguém sabe a que altura da noite – e dorme profundamente enrolado dos pés à cabeça. O escritor, contando a história ao crítico, parece querer alimentar certo mistério em torno da identidade daquele homem que dorme. Mas o deixa para trás e ganha o corredor no momento em que o trem pára numa estação onde um grupo de policiais entra chamando a atenção de todos. Os homens da lei estão procurando por um assassino que matou a mulher adultera e que, ao que tudo indica, se encontra naquele trem. Eles revistam a todos e se dirigem para a cabine onde dorme o homem que passou a noite chorando.

Está tudo esclarecido, portanto, e o leitor esperto já adivinhou: o choro daquele homem durante a noite é o resultado de uma alma que sofre as dores de consciência próprias de quem cometeu um ato ignominioso. Mas o que se segue, entretanto, é o que a vida oferece e não a arte. O homem mostra os documentos e logo fica esclarecido que não se trata do assassino. Decepcionante?, talvez, mas são as tramas da vida, bem mais complexas, caóticas e reticentes do que aquelas oferecidas pelo escritor que usa “truques pessoais para dar sabor a nossos plágios insossos” da realidade.

Sem dúvida nenhuma é uma crítica aos escritores que na narrativa “punem a virtude no começo e o vício no fim”, e nesse grupo podemos incluir todos os autores de novela e romances campeões de venda feitos para agradar ao público. Nabokov faz a defesa do Realismo. O escritor, personagem do conto, deseja ser o autor de Lolita que nos chocou – não por uma mera questão de pudicícia – mas por nos contar uma história que se desenvolve a partir de anotações do diário de um pedófilo – com todos os truques para parecer real – e seu desejo abjeto por uma menina de 12 anos. Não há uma tentativa de parecer agradável, H.H. é um monstro, sem dúvida, e se simpatizamos com ele é porque sua estranheza não é tanta que o diferencie de nós mesmos. Nisso reside umas das preocupações de Nabokov: a realidade como é e não como gostaríamos que fosse. Em alguns momentos a narrativa de Lolita pode parecer enfadonha para um leitor convencional, mas na verdade ela revela a intenção do autor de impor à prosa um ritmo que imite a própria vida. Não há intenção de agradar – não é para isso que se presta o romance – mas para desconcertar o leitor e fazê-lo enxergar a si mesmo, desnudo do desejo de ilusão.

09 março 2010

Moisés, exemplo de intolerância religiosa

Os cristãos destruíram deuses em nome de seu deus soberano. O deus cristão é o único deus, mas os sacerdotes de batina enxergavam nos ídolos pagãos da Grécia ao México uma ameaça, coisa no mínimo curiosa, já que os pobres ídolos nunca passaram disso, de formas inanimadas de barro não transcendental. Quando leio o Velho Testamento noto que os padres tiveram em Moisés um bom exemplo de intolerância religiosa. O episódio é conhecido por todos: Moisés é advertido por Deus que a turma lá em baixo está aprontando. O velho patriarca levando as tábuas dos dez mandamentos – aquilo devia pesar pra burro – se apressa em descer o Monte Sinai e de fato encontra seu povo dançando na maior alegria diante do bezerro de ouro que foi moldado por Aarão – irmão e profeta de Moisés escolhido pelo próprio Iahweh – que usa sua arte para atender as aspirações do povo. Moisés, entretanto, não gosta nem um pouco do que vê; presa de uma fúria que só encontrará precedentes em Átila e no Incrível Hulk, faz pedacinhos do bezerro de ouro.

Nessa passagem bíblica há dois pontos interessantes e dignos de nota. O primeiro reforça minhas desconfianças nos fatos narrados. Não consigo entender como o mesmo povo que presenciou todos os prodígios realizados por Moisés em nome do Deus; vocês devem se lembrar de alguns como a vara transformada em serpente – não confundir com nenhum duplo sentido – , a água transformada em sangue, rios poluídos e peixes mortos e o desespero dos ambientalistas, as pragas de rãs, dos mosquitos e moscas e a peste que matou os animais dos egípcios, inocentes ou não. As úlceras, a chuva de pedras – não confundir com meteoros –, mais pragas de gafanhotos e finalmente o mais prodigioso feito contra os egípcios: a morte de todos os primogênitos. Segundo conta o livro sagrado, ninguém foi poupado, nem o mais pobre egípcio, nem mesmo aquele que morava fora da cidade e era contrário à política do faraó. Este, como todos os outros, sofreu a perda irreparável do filho. Aliás, nem o gado foi poupado, toda vaca e todo boi perdeu seu primeiro filhote – muito tempo depois um romano vai tentar um feito parecido, mas não vai chegar nem perto –, e todos esses prodígios, além do Mar Vermelho que se tornou terra seca para passagem do povo, tudo isso e outros “milagres” não vão surtir efeito sobre a fé dos israelitas em Iahweh. Cansados e impacientes com Moisés – que era péssimo escrivão – e por isso se demorava escrevendo nas tábuas os dez mandamentos, vão se dirigir a Aarão e solicitar

Vamos, faze-nos um deus que vá à nossa frente, porque a esse Moisés, a esse homem que nos fez subir da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu. (Êxodos 32,1)

O segundo ponto é, na minha opinião, a história das religiões que está bem representada na fúria de Moisés quando desce do Monte Sinai e destrói o ídolo de ouro. Acho que as religiões, principalmente as de tradição judaico-cristã e islâmica, não têm feito outra coisa senão dividir os homens. Há uma ética, por certo, e dela a religião se aproveita e se sente justificada. De fato o Judaísmo, Cristianismo ou Islamismo não manda ninguém ser mau, e entre as oposições antitéticas, é preferível o bem ao mal, a virtude ao vício, a bondade e não a crueldade. Mas há muita hipocrisia e o convívio é apenas tolerado. É fácil notar isso. Temos desde exemplos os mais radicais como aqueles que nos oferecem judeus e palestinos que não fazem uma distinção muito clara entre as coisas de interesse do Estado e da Religião, e exemplos menos radicais – dependendo do lugar – como nos dão católicos e protestantes que até convivem pacificamente, mas no íntimo estão certos do quanto estão errados os outros em sua interpretação do Cristo.

08 março 2010

outro pesadelo de Kafka

Desde quarta feira que tento resolver uma pendência com o Banco Real. Desde quarta e ainda não consegui. O problema é simples: O Banco descontou sem aviso prévio a bagatela de 700 reais da minha conta. Não entendi e como sou desorganizado imaginei que alguma coisa me escapara, talvez um cheque que não anotei ou uma compra irresponsável – que tratei de esquecer – usando o Visa Elétron. Mas não foi nada disso, e tudo se esclareceu: O Banco descontou quatro parcelas de um empréstimo que eu – honrado que sou – já havia quitado como manda um bom acordo entre cavalheiros. Desde então venho tentando resolver o entrave que cada vez mais ganha contornos kafkianos.

O gerente me esclareceu tudo, não pediu desculpas e apenas me informou que eu deveria me dirigir ao setor onde meu problema seria resolvido. Não era ali, ele disse. Mas com o pessoal do empréstimo consignado. Acontece que esse tal setor está congestionado já faz dias como provavelmente não esteve nem durante o Bug do Milênio e por isso todos os dias tem sido a mesma penitência: Chego às 13 horas – é o horário que posso chegar –, dirijo-me ao setor de consignado, resignado retiro minha ficha e me sento na cadeira lendo uma coletânea de contos de horror – aliás, bem apropriado – até o momento quando alguém cerimonioso me informa que devo voltar amanhã, já que o sistema – por mais incrível que pareça – saiu do ar.

No primeiro dia peguei uma ficha de atendimento número 49 e fiquei deveras desolado quando comparei com o número na placa luminosa. Faltavam duas horas para se encerrar o expediente bancário e eu tinha 44 pessoas na minha frente. No segundo dia a ficha trazia o número 52 e as coisas só pioraram já que sexta feira o número pulou para 58. Hoje, segunda feira, fiquei quase feliz fitando um simpático 55.

Quando fui informado que o sistema saiu do ar – durante quatro dias consecutivos o destino nunca foi tão repetitivo – faltavam dez minutos para as cinco horas e nisso tudo intui uma simbologia dos números. A moça me deu uma ficha de número 6 e foi a primeira vez que peguei um número contendo apenas um dígito. Naquele meio tempo achei que só existissem dezenas. Amanhã estarei lá com minha ficha número 6. Na numerologia o seis significa liberdade. Não ambiciono outra coisa, finalmente estar livre do pesadelo de Kafka e reembolsado dos meus 700 reais.