08 junho 2009

A casa das belas adormecidas


Na cama a menina dorme seu sono letárgico. O velho Eguchi acende um cigarro e sente angustia e vazio. Lembra-se de um poema que ouviu e jamais esqueceu. “O que a noite me reserva são os sapos, os cães negros e os corpos afogados.” Os versos que falam da noite, traduzem seu sentimento sobre a velhice.

Yasunari Kawabata escreveu um romance que se passa quase todo dentro de um quarto. O monólogo de um velho diante do corpo nu de uma jovem que ele não conhece, impossibilitado pelas normas da “casa” de nunca com ela se relacionar sob pena de botar tudo a perder e fazer desaparecer todo o mistério que o seduz e causa sofrimento. O tempo narrativo linear é apenas interrompido de vez em quando para dá lugar ao fluxo de consciência da personagem que volta no tempo e relembra os momentos de vida ao lado das filhas, amante e esposa. Nesses momentos a sensualidade cede lugar a sentimentos confusos que o impele a rever a vida que levou. Mas a tônica maior, acho eu, é o desespero em face da impossibilidade, o sentimento da impotência e a dor de envelhecer.

Apesar de não ser ainda um “cliente de total confiança”. Mas um homem com alguma virilidade, embora não muito longe da decadência da velhice, o velho Eguchi sente que “o desespero de envelhecer se tornava insuportável
.” Estar diante do mais precioso objeto de desejo potencializa esse sofrimento que é procurado por ele numa insensatez ou ânsia de purgação.

Parece que volto a comentar “O homem comum” de Roth, porque este livro, como o outro, também é o relato de um ser dilacerado, em luta contra os fantasmas e obsessões. O monólogo de Eguchi revela suas fragilidades e o reduz a uma parcela mínima do homem que um dia foi.

07 junho 2009

O crânio de Yorick

Quando o homem comum vai ao cemitério fazer sua última visita ao túmulo judeu de seus pais – embora não saiba que seja a última, encontra o coveiro. Tal encontro me fez lembrar da cena I do Quinto Ato de Hamlet. Nela o perturbado príncipe se encontra com o coveiro e se espanta diante do horror de segurar nas mãos o crânio de Yorick, o bobo da corte de seu pai, que o fazia rir e o carregava nas costas. Que fizeram de teus sarcasmos, de tuas cabriolas e canções, pergunta o príncipe. O coveiro é bem humorado, está cantando quando aparecem Hamlet e Horácio e não reconhece o príncipe. Este lhe faz perguntas. Quanto tempo é coveiro e quanto tempo pode ficar um homem enterrado antes de apodrecer?

Causa indignação a Hamlet a indiferença ou naturalidade do coveiro diante do horror da morte.

O coveiro da novela de Roth é negro, tem 58 anos, é ainda forte e robusto e há 34 anos – o coveiro de Hamlet há 30 – cava buracos tão lisos no fundo que daria para fazer uma cama ali. Como o da peça este também comenta sobre alguns mortos enterrados por ele, como o cara que lutou na Segunda Guerra Mundial e o garoto de 17 anos, morto num trágico acidente de carro. Fala dessas coisas como se comentasse a previsão meteorológica para domingo.

Um dia nublado, com pancadas de chuva à tarde.

Assim como Hamlet, o personagem de Roth não compactua com o coveiro da mesma naturalidade com que este encara a morte. Nele há indignação e revolta e um forte sentimento de inconformismo por saber-se impotente diante do inevitável.

Há mais de uma leitura possível no livro, porém aquela que mais me tocou é a história de um homem que sabe que vai morrer, senão hoje, mas um dia, talvez mais cedo do que seria da sua escolha e que não há nada a fazer, senão revoltar-se. Mais do que isso, é a história de um homem que não tem nome porque representa a todos nós, e que apesar de todos os erros e frustrações que acumulou pelo caminho, continua preso à vida de tal modo a considerar a morte um equívoco, o maior dos absurdos, aquilo que atenta contra sua natureza.

06 junho 2009

Homem Comum

É muito triste quando a ilusão perde o poder sobre nós. Quando isso acontece, e um dia acontece, é inexorável, o suicídio passa a nos atrair como coisa razoável, e se não são proporcionais, é porque existe muita gente covarde no mundo. Covarde mesmo quando não há nada a perder. Há um ditado que diz que Deus dá o jeito. Será? Pra mim, que não acredito em Deus, ou pelo menos num Deus que tem para nós um projeto além túmulo, isso não serve de consolo. 

Existir é doloroso, diria Sileno. Existir não foi uma escolha. De repente nos descobrimos num mundo que nos acolheu como pôde e nos indicou as alternativas de sobrevivência. Sobrevivemos, ou assim nos parece. Deram-nos obrigações, concederam-nos alguns direitos e assumimos o nosso papel no mundo, bem ou mal. Na verdade nos deixamos arrastar pela onda. E tudo o que fizemos – dentro das alternativas viáveis – teve sobre nós um efeito anestésico. Entre os animais somos os únicos conscientes da morte, e para ter de lidar com isso, criamos estratagemas. Talvez a religião seja o mais famoso deles. Mas chega um momento crucial quando a ilusão perde o poder sobre nós, e nada mais que fazemos para nos “distrair” tem efeito alucinatório. O ópio perde suas propriedades e depois da comédia representada, o teatro está vazio, e restamos nós e o absurdo que encarnamos. 

O personagem de O homem Comum, última novela de Philip Roth, e de quem não sabemos o nome, divisa este momento. Além da morte, as coisas que ficaram para trás, aquilo em que gostaríamos de ter uma nova oportunidade – talvez ainda um pouco de ilusão? – para tentar de novo, mas é tarde, o passado é imutável. Só resta lamentar as coisas que poderiam ser e não foram. Todo o esforço que não foi suficiente. A morte – certamente a personagem central da novela – tem o poder de potencializar tais frustrações. No início do livro a personagem está sendo sepultada pelos familiares, quando ocorre o retrocesso no tempo, o autor já tem nos alertado sobre o desfecho: onde tudo vai acabar, e então fazemos a leitura incomodados com a idéia de que somos um projeto fadado ao mais completo fracasso. Os casamentos sucessivos, as mulheres enganadas por ele, o ódio de dois filhos e as internações em decorrência de uma saúde debilitada são os reflexos de uma trajetória para lugar nenhum.  

Seu pai ganhava a vida no ramo dos diamantes. Há entre o homem e o diamante uma grande diferença. O diamante não é perecível. O homem sim, nós não somos capazes de escapar da vicissitude da temporalidade. É sobre isso a novela de Roth, mas não apenas o perecer do corpo, mas do mundo ao nosso redor, nossos valores mais caros e nossa esperança.  

02 junho 2009

Simenon

Na última semana me deu vontade de ler um bom romance policial e aí me decidi pelo Simenon. Comecei com O Caso Saint-Fiacre, e acompanhei Maigret de volta à sua cidade natal. Nela o Comissário reencontra personagens antes inacessíveis, quando ele era garoto pobre, filho do administrador do castelo.

A condessa está morta, mas antes disso, ela e o castelo e a nobreza que um dia representou, entraram em franca decadência. Seu filho, o herdeiro de coisa nenhuma, vadio e por aqui de dívidas, é suspeito, bem como o secretário da condessa com quem ela mantinha relações inadequadas – causa de indignação e revolta dos mais pudicos habitantes do vilarejo.

O mundo que Maigret conheceu e do qual provavelmente ainda conservava alguma impressão desde quando deixou aqueles cafundós, desaba. Os últimos vestígios sobreviveram até sua vinda, quando deixou seus afazeres em Paris e fez aquela viagem que é também uma viagem sentimental, embora às avessas; desmistificadora.

É trazido ali motivado pelo trabalho de detetive. Precisa solucionar um crime que ainda não aconteceu. Um crime anunciado. Aliás, algo sem muito sentido, que não fica nem um pouco esclarecido já que o assassino não é um serial killer narcisista e tarado por ibope. Tal excentricidade será sua perdição. Não fosse ela teríamos o crime perfeito em que um assassino sequer suja as mãos, senão de tinta. A vítima cai fulminada por um ataque do coração depois de ler uma notícia prestidigitada, intencionalmente deixada ao seu alcance.

O assombro de Maigret diante de seu mundo de infância que desmoronou é a tônica maior do livro. O caso do assassinato fica em segundo plano – nem é solucionado por ele – Simenon não corrigiu as impropriedades nem ligou importância para um detalhe e outro inverossímil, e nele, assim como em Cervantes, tais “descuidos” não foram capazes de macular o romance que sai incólume, possibilitando-nos mais uma leitura da alma humana.

27 maio 2009

Conceito

Sempre que é publicado um novo livro de escritor brasileiro – conto ou romance – sentimos uma expectativa: Será um novo Guimarães Rosa?

O consenso mais aceito é que nas últimas décadas tivemos de nos contentar com produções razoáveis. Nada de excepcional. Há quem diga que os escritores de hoje chegaram tarde demais. Vieram depois de Shakespeare, Cervantes, Dostoievski, Machado de Assis etc. Ou talvez fomos nós que nos tornamos mais exigentes ou confusos por efeito dos novos tempos – plurais desde as Vanguardas – e que têm nos oferecido um número considerável de obras que não se encaixam num mesmo gênero nem estilo de época.

E o que é ser genial?

Quando o escritor segue os paradigmas é julgado pela sua incapacidade criativa, se envereda pelo experimentalismo corre o risco de parecer tradicional, superficial ou ridículo. A partir de quais critérios podemos julgar se uma obra é experimental? Ou mais ainda. O que é ser experimental depois de Joyce, Beckett, Marcel Duchamp ou Haroldo de Campos?

Há dois bons, justos e criteriosos julgamentos de livros. O primeiro é de Oscar Wilde: Um livro não é moral ou imoral. É bem ou mal escrito, diz ele. O outro julgamento é de Ernesto Sabato: O bom livro não foi feito para entreter, mas para causar perplexidade. Situo o meu ideal de livro levando em consideração esses dois conceitos, principalmente o último.

Recentemente li dois livros de autores brasileiros. Em Galiléia do Ronaldo Correia de Brito e O Filho Eterno de Cristóvão Tezza, pude reconhecer que os autores foram felizes em tratar do humano. Não são livros para entreter, mas para causar perplexidade, como queria Sabato e não fazem parte desse monte de porcaria que figura na lista dos dez mais. Não encontramos personagens estereotipadas, marcadas por uma idéia estúpida e romântica de dualismo. Nos personagens reconhecemos nossa banda podre. Não são livros morais ou imorais. Tratam do mais absurdo de todos os animais, o homem e sua viagem para lugar nenhum, tentando desesperadamente dar sentido à sua vida. O homem comum, efêmero, bem distante do Ulisses de Homero.

18 maio 2009

Paradigma

 

Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, recentemente descoberto pelas editoras e pela crítica especializada. Ele dizia que não acredita nessa coisa de “ser brasileiro”.  Não sei o que pensaria José de Alencar se um vidente lhe dissesse que cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declaração. Depois dele e do projeto de construção da identidade cultural do Brasil – projeto que Alencar, mais do que qualquer outro romântico ambicionou com seu romance que, não obstante o claro das impropriedades tenta traçar a geografia do Brasil. Acho que a mesma reação teria o Mário de Andrade, que ao modo dos artistas de sua geração e seu caráter anárquico, também ambicionou dar continuidade – de um modo diferente, claro, crítico e coisa e tal – ao projeto de identidade cultural. Macunaíma, o herói sem caráter, é o romance tese dessa empreitada. Mas o fato é que o tal escritor da entrevista talvez não esteja enganado.

No século XIX a França era o paradigma cultural do mundo ocidental e foram as vanguardas européias que influenciaram o Modernismo dos Mários. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de São Paulo, ainda estamos em formação e a única conclusão que chegamos é que não somos negros nem brancos nem índios.

As tecnologias nos aproximaram e a globalização – que não é coisa nova e começou com as navegações – tem contribuído para nos fazer sentir cada vez mais um só povo, não obstante os fundamentalistas de plantão. O povo do pequeno ponto perdido no espaço que alguns dizem ser azul e que se chama terra.

Teve um tempo que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da década de 20, ambientados na França e que falam de homens e mulheres – de quem uma escritora se referiu como geração perdida – vivendo o entre-guerras e a frustração de ser humano e o quanto isso representa de impotência e fragilidade. Eu achava que isso acontecia em decorrência de minha péssima formação em escolas públicas e minhas leituras mal orientadas. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha em meu caráter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que kind of blue me encanta mais do que Samarica Parteira?

Não estou dizendo que nossos escritores e músicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atrás e milhares de quilômetros longe de meu país me encanta e me causa felicidade. E isso tudo também por uma relação narcisista. Porque de algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil me encontro ali. Vislumbro meu reflexo.

Não me sinto mais constrangido. Leio e escuto o que me traz felicidade, mesmo que o Ariano me considere um mentecapto. 

12 maio 2009

Teimosia


Dizer que um escritor segue a tradição não é afirmar em outras palavras que ele seja cultor de formas anacrônicas ou temas idem; não confundir com neoclassicismo. Também não é acusá-lo de plágio, tampouco fazê-lo herdeiro de uma herança segundo a contingência da legitimidade do sangue; nada a ver com a ética aristocrática, mas com a ética segundo Hesíodo; estamos falando do esforço da labuta, do direito adquirido, por que conquistado.

O texto acima é o primeiro parágrafo de um artigo que escrevi faz uns dez anos. Na época eu achava que tudo se resumia numa equação elementar: dedicação e labuta. Hoje eu sei que não é tão simples, mas ainda não desisti e consigo extrair consolo de uma frase de Flaubert: “Não importa, terei algum valor por minha teimosia.”