A bala dos desarmados
A primeira vez que ouvi o nome de Francisco de Morais
Mendes, e dito assim, por extenso, saiu da boca de um escritor admirável, o Fernando
Monteiro, isso aconteceu nos idos de 2006, no palco de uma livraria, no Recife,
onde se discutia literatura contemporânea e o mercado editorial. Fernando usava
o nome de Francisco justamente para alardear o quanto era mal tratada a
literatura nessas nossas terras tupiniquins, uma vez que o contista mineiro,
embora já detentor de alguma fama nos circuitos mais seletos, continuava
desconhecido do grande público. Hoje, vinte anos depois, a livraria não existe
mais, aquele evento de literatura desapareceu do calendário cultural do Recife,
Fernando Monteiro se jogou no mar de Boa Viagem e Francisco de Morais escreveu
mais alguns excelentes livros de contos, ao que tudo indica, só não mudou o
público leitor e o mercado editorial, objetos das críticas do Fernando Monteiro
naquele começo de século.
Naquela semana, depois dos elogios que o
Fernando dedicou aos contos de Francisco, comprei no sebo: A razão selvagem (2003)
e o li num fôlego. Fernando Monteiro não exagerou quando exaltou as qualidades
do contista mineiro. Ainda me lembro dos contos, em particular de um, na época
escrevi uma anotação da qual reproduzo o seguinte trecho:
“Em Apartamentos um
cara depois de atingir certa condição financeira se põe a considerar a
possibilidade de investir no ramo imobiliário. Antes disso, porém, resolve
viajar e em suas viagens fotografa cidades vazias. Quando retorna monta uma
exposição das fotografias e publica um álbum com uma seleção das melhores
fotos. Não obtém sucesso nem com a exposição nem com o livro. Arruinado, vende
o apartamento onde morava e passa a ocupar um pequeno quarto no apartamento da
irmã. Meses depois, parece que num táxi – na verdade não sabe precisar –, surge
a obsessão de fotografar apartamentos vazios. A imobiliária não desconfia de
seu verdadeiro propósito, fornece-lhe as chaves dos apartamentos e ele passa a
visitá-los levando consigo sua Pratika.
Mas os apartamentos, embora fechados, contêm os barulhos da rua e
em todas as incursões ele sempre se depara com alguém. Há um pai e uma filha,
cada um apresentando o outro como louco. No final resta ao leitor alguma dúvida
sobre a quem atribuir menos sanidade.
Em outro apartamento, uma mulher bate à porta, talvez alguém
interessado pelo imóvel. Eles não se conhecem e em poucos minutos estão
entregues aos prazeres do corpo numa situação muito próxima ao animalesco. Mais
tarde ele vai se lembrar dela e se masturbar para preencher sua falta.
A busca pelo apartamento vazio se revela mais uma identificação
pelos espaços vazios do que mera idiossincrasia de artista. No final, não há um
sentido, uma lógica, só há o vazio impossível de preencher.
Além deste, os contos de A razão selvagem, parecem ter sido
sugeridos por sonhos, e tanto isso quanto o animalesco e a loucura e certa dose
de violência continuam provocando a imaginação do autor do mais recente A
bala dos desarmados.
Malu, no conto Ar, conclui que a bala dos desarmados é a
palavra. Poeta, pensa em escrever uma carta que ainda não sabe direito a quem
destinar sobre a série de eventos que resultou no assassinato do pai pelo tio
por causa do modo como as coisas ficaram no mundo, provocadas pela polarização
política. Se buscássemos uma unidade para o livro, poderíamos começar com o
tema da ascensão da extrema Direita, presente em alguns dos contos, mas não se
iluda, embora o autor esteja atento aos problemas da contemporaneidade, não se
descuida da carpintaria do conto. Francisco sabe que um conto sem atmosfera
perde muito da sua força, neste A bala dos desarmados, o sonho também
está presente e seus elementos de imprecisão – importantes na criação da
atmosfera – encontram eco na própria realidade acordada nesses nossos tempos nebulosos.
Blecautes, estado de sítio, pandemias
são ameaças sempre à vista num mundo já fraturado. Às vezes valendo-se de material extraído da realidade que o jornal da tevê vem noticiando
nos últimos anos, Francisco tenta desvendar essa Babel que se tornou a
sociedade brasileira, reflexo do mundo afora. Uma Babel da qual é difícil
apreender a realidade difusa onde uma maioria parece ter perdido o interesse
pela verdade do fato, seduzida pela verdade da fé. Se em livros anteriores o
sonho fornecia a imprecisão da qual Francisco lançava mão para construir
atmosferas, agora ele encontra tais imprecisões na própria teia da realidade,
pulverizada pela usina de mentiras a serviço da extrema direita e nos alerta, como
no excelente Um olhar, uma foto que a loucura, a tragédia podem voltar. Tal
tema e suas variáveis não são consenso em todos os contos, mas nos ajuda a
buscar uma possível unidade.
Mas não é só o tema que nos ajuda a entender o livro enquanto
conjunto, mas o tratamento que é dispensado ao tema. Em Rastros, um dos
contos de que mais gostei, Glauco se vê enredado numa situação difícil: depois
de socorrer uma moça que parecia estar sendo vítima de um assalto, vê-se envolvido
numa série de eventos que o transforma num assassino. Pelo menos foi o que pensou
até ouvir o barulho na mala do carro. Glauco é exemplo de personagem levado
pela sucessão de acontecimentos sobre os quais descobre não ter tido nenhum
controle. Se sua intenção era de apenas ajudar uma moça que parecia ser vítima
de uma tentativa de assalto, descobre que sua interferência teria várias
consequências entre as quais a de tê-lo transformado num assassino. A noite não
será fácil e não será apenas aquele ferimento na cabeça aquilo que o fará
lembrar-se do inferno que viveu, sua angústia enquanto dirigia sem rumo,
supondo que seu porta malas de fato abrigava o corpo de alguém morto por suas
mãos. Nesse conto, assim como em outros, não é o extraordinário que move o
autor, na maioria dos casos os eventos nascem mesmo das situações mais
comezinhas. São suas implicações, a força de impacto que sofrem as personagens
na sua experiência aquilo que importa ao autor.
Cortazar é citado num dos contos. Acredito mesmo
que seja um dos autores que compõe a biblioteca pessoal de Francisco, e dizendo
isso, recordo-me de um ensaio ou entrevista na qual o escritor argentino se
referia a seus contos como descrições perfeitas de sonhos. Eu não diria que os
contos de A bala dos desarmados sejam descrições perfeitas de sonhos,
mas poderiam ter sido sugeridos por eles, A visita, A caminho do
grande espetáculo, Chuva, Névoa e Fora de época são
bons exemplos dos quais comentarei dois.
Em A visita, uma mulher resolve
vistoriar seu apartamento que sofreu uma reforma. Passeando pelos cômodos e
testando como ficou o novo funcionamento dos interruptores digitais, o trabalho
dos carpinteiros e encanamentos refeitos etc, reflete sobre a história de como
evoluímos da caverna para as moradias modernas com água encanada e luz
elétrica. A história parte de um acontecimento banal da mulher que prende a mão
com supercola na tampa do vaso sanitário. O embaraço, que não parecia nada,
escala para uma situação desesperadora. Nele, como no já citado Rastros,
a personagem fica perplexa quando se dá conta de que não tem o controle das
coisas ao seu redor. Permanece na gente sua imagem presa no vaso sanitário como
um recorte da realidade, uma fotografia capaz de captar aquele momento com
todas as suas nuances. Acho esse conto um perfeito exemplo do conto esférico,
postulado por Cortazar, uma narrativa que se fecha em si mesma, e não
precisa de um final aberto ou de esconder uma história secreta para continuar
repercutindo dentro da gente. Seu mérito está na tensão provocada pelas
implicações daquela mão presa com cola no vaso devido ao descuido vulgar de não
ter lido as instruções do fabricante da cola, fato que leva aquela mulher de um
estado de espírito para outro, do paraíso ao inferno.
No A caminho do grande espetáculo,
somente uma coisa não gostei por julgá-la desnecessária, pior, comprometeu um
pouco da força do conto que é a informação ao leitor de que é a narrativa de um
pesadelo. Muitos dirão que ele encerra a metáfora da própria vida, nossa
caminhada ao longo de uma estrada sem muito sentido. As interpretações cabem
aos leitores. O pai, sua esposa e filho estão no meio de uma multidão que
se desloca na direção de um grande teatro ou arena onde buscarão seus assentos
a fim de assistirem a um espetáculo. Não sabemos que espetáculo é esse e isso pouco
importa. A multidão se desloca com dificuldade, há muita gente, jovens ruidosos
com suas latas de refrigerante incomodam muito. Num dado momento sua mulher
fica para trás, perde-se na multidão e isso provoca no marido apenas uma
reação, ele teme pelo filho, não quer preocupá-lo e por isso tenta esconder da
criança o desaparecimento da mãe. Já perto do fim ficamos sabendo que esse pai
encolheu de velhice e o garoto já é um homem de cabelos grisalhos, e continuam
na mesma marcha, premidos pela multidão. Finalmente passam por catracas e
sabemos que pai e filho têm noções diferentes da passagem do tempo. O lugar
está próximo, o velho não vê a hora de se sentar. O que mais gosto nesse conto
não é a metáfora da vida. A jornada absurda que empreendemos ao longo da vida
etc. Aquilo de que mais gosto e confere tensão ao conto, sua força maior, está
na sensação que provoca. Francisco sempre explorou elementos do Impressionismo
na sua obra, nunca esteve interessado em reproduzir o realismo das manchetes de
jornal, não é essa a função da literatura, afinal nada pode ser explicado.
Embora seja dito o tempo todo no conto que se trata do movimento de uma
multidão para assistir a um espetáculo, permanece na gente – leitor – em mim,
pelo menos, a sensação de que estamos lendo o relato do deslocamento de uma
multidão de refugiados, de imigrantes ilegais presos por uma polícia à serviço
de um déspota. Não pude deixar de pensar na leva de judeus conduzida por
soldados nazistas para o abatedouro dos campos de concentração.
Alguns contos vêm misturados com
memória ou delírio, como o ótimo Fora de época, mas o elemento onírico
está ali preservado. O autor não faz uso de experimentalismos estéreis. Sua
escrita nos conduz sem dificuldade, caberá a cada um desempenhar seu nível de leitura.
Lendo seus contos penso na escrita de certos autores ingleses, impecável e
elegante. Se tivesse de resumir, diria que seu estilo é redondo, como às vezes
nos referimos a uma caligrafia bonita. Não saímos de seus contos com o mesmo
tipo de incômodo que saímos dos contos de uma Flannery O’Connor, não há
salas secretas, tudo se encontra na superfície.
A epígrafe do livro, um trecho retirado
do Avalovara, de Osman Lins, reforça a intenção de Francisco em
dizer que ainda acredita no poder da palavra, ela é a bala dos desarmados, a
arma de gente pacífica nesse mundo fraturado. Sim, como eu já disse, os contos
promovem uma crítica do crescimento da violência oriunda do estado das coisas a
que chegamos com o aumento do extremismo no mundo. Em livros anteriores como A
razão selvagem e Escreva, querida, sempre notei um autor maduro, a
quem importava a busca da palavra e a consciência de que o conto como mecanismo
de pura sofisticação não pode estar desinteressado da sondagem do humano e digo
o mesmo deste A bala dos desarmados, ao qual acrescento o que está
resumido no próprio título: A palavra empregada à serviço da resistência.