Num de seus ensaios: De como julgar a morte, Montaigne nos adverte sobre nossa tolice, arrogância ou ilusão com que encaramos nossa morte, algo como se “tudo sofresse, de algum modo com o nosso desaparecimento.” De fato, não é possível encarar o fim, o nosso em particular, senão com perplexidade, mas isso não quer dizer que o que experimentamos possa ser alguma coisa diferente de ilusão. A mais pura e simples.
Rejeitamos a hipótese de Sísifo, e em tudo o que fazemos tratamos o mais convictamente possível de pôr ordem e significado. Se excetuarmos a natureza tudo o mais é o resultado desse esforço. A obra que construímos – família, sociedade, democracia, religião etc – é o que nos mantém centrados, estamos no caminho certo, diz o homem sisudo, para tudo há um propósito, repete para si mesmo o homem sério em sua oração matinal, e assim salmodiando convencemos a nós mesmos de que somos especiais, talvez até filhos de deus, quiçá feitos à sua imagem e semelhança.
Desse modo encontramos respostas para tudo, até para as desgraças nas quais nos flagramos vítimas; nossos infortúnios não são obra do acaso, são provações. Nesses momentos encontramos consolo no inconsolável Jó, somos seu irmão, desfrutamos o privilégio da preferência de deus. É como entendemos a vida se queremos emprestar-lhe sentido, e isso nos basta, mais que isso: nos fortalece, nos faz sentir especiais – alguns judeus desacreditaram de deus depois do holocausto, outros passaram a se sentir especiais, o mesmo ocorre com os argentinos depois que amargaram as ditaduras – o sofrimento nos eleva porque nele há um propósito divino.
Somos eternos. Cada ato ou pensamento dos quais somos ator e autor é aquilo que mais interessa ao responsável pelos buracos negros no espaço infinito.
Mas num dado momento, provocado por uma coisa ou outra, num sonho ou delírio, sentimos que cai a ficha e tudo ao nosso redor, tudo o que o homem construiu e se orgulha; a ordem a qual nos julgávamos pertencer, tudo não passa da obra de um sátiro e nossa verdadeira herança é o malogro. Foi essa a sensação que experimentei na última cena do filme: Um homem sério, dos irmãos Coen.
31 janeiro 2011
28 janeiro 2011
um olhar equivocado
Às vezes uma pessoa se relaciona com um objeto: cidade, povo, língua ou outro alguém, a partir de um viés. Um olhar que apesar de exíguo, pouco fundamentado ou carente de experiência, torna-se a base em torno da qual é formulada uma idéia, impressão ou coisa outra fugidia que na falta de um termo melhor chamamos preconceito. A pessoa não sabe que é preconceito, na sua ingenuidade ou burrice está convicta daquilo que chama: opinião.
A tal idéia ou impressão – preconceito – nasce do equívoco, da precipitação, da incapacidade de interpretar a realidade ao seu redor ou nasce do ódio, do despeito, da inveja. Uma pessoa presa de tal sentimento é normalmente alguém com forte propensão ao fanatismo. Nem precisaria dizer isso, já que me referi ao ódio. Mas o ódio tanto nasce de um grande conflito como entre Israel e a Palestina em que todos estão certos e errados ao mesmo tempo, um conflito que passa de geração para geração e encontra correspondência no mito da Torre de Babel e sua metáfora da complexidade que resulta em morte e sofrimento como pode ser um conflito entre torcidas diferentes por times de futebol.
Há entre brasileiros (não todos) e argentinos (idem) algo assim. Conheço pessoas que detestam a Argentina embora nunca tenham viajado até lá nem lido nada sobre o país tampouco conhece sua música ou literatura. Alguns nem sabem que na Argentina se fala espanhol, mas detestam a Argentina e os argentinos e tudo o que ali possa ser identificado com a natureza ou cultura e o fogo que alimenta tanto ódio e estupidez se chama futebol. Não gosto da Argentina, diz o imbecil, porque somos rivais no gramado. Uma pessoa assim devia comer de vez em quando o gramado.
Uma coisa bem parecida acontece com algumas pessoas e seu olhar sobre os judeus. Não falo necessariamente dos palestinos porque é uma questão complicada, mais do que muita gente pensa, mas de tipos como os nazistas que odiaram um povo com base em teorias disparatadas que apontavam para superioridade e inferioridade de raças ou alguns cristãos que vêem nos judeus os assassinos de Cristo ou pessoas outras que não gostam de judeus por considerá-los arrogantes quando se auto intitulam os legítimos filhos de deus. Motivos não faltam, todo mundo conhece a história dos protocolos dos sábios de Sião, o documento que apresenta os judeus como conspiradores para dominar o mundo. Os protocolos são uma farsa, sobre isso não pode restar dúvida nenhuma; é inconteste sua fraudulência, há provas e mais provas. Muita gente, judeu ou não, já vasculhou todos os cacos no porão. Entre outras evidências, é sabido que a farsa se inspirou nos romances de Eugène Sue e O diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu de Maurice Joly, um satirista francês do século XIX, mas apesar disso muita gente ainda acredita – Ahmadinejad acredita – na legitimidade dos protocolos.
A visão estreita é ditada pela ignorância. Eu confesso que não gosto do fundamentalista judeu como não gosto do fundamentalista de qualquer outra religião. Acho que a religião mais afasta do que aproxima e sem dúvida concordo com certo músico de Liverpool – assassinado por um fanático. Mas talvez ainda não estejamos – nem todos estão – preparados para um mundo sem religião. Um mundo assim ainda é uma utopia como é utópica uma sociedade anarquista. Já imaginou uma sociedade que não precisasse de polícia?, mas é inegável que o homem caminha e grandes passos foram dados. Na Europa do século XII seria impensável um Estado Laico.
Não consigo evitar minha admiração pelos judeus, não necessariamente pelo sionista ou judeu que apóia a política de Israel quando o assunto é a Palestina tampouco por aqueles que se julgam os escolhidos. Escolhidos para quê? Para o extermínio nos campos de concentração? Para o exílio? Se deus existe e é pai de alguém, certamente não é dos judeus; para os judeus ele tem sido um padrasto e um padrasto muito severo. Quando penso nos judeus não é para o religioso que devoto minha admiração, mas para o homem ou mulher capazes de transformar sofrimento em vitória senão em arte. Penso em Kafka (que nem sabia que era judeu), em Primo Levi (sobrevivente de Auschwitz), Singer que fazia questão de escrever em iídiche) ou Philip Roth (ateu convicto), além de John Updike e Isaac Bábel (assassinado por Stálin)e Art Spiegelman e seu gibi sobre o holocausto ganhador do Pulitzer e Will Eisner, por que não? e os irmãos Coen e Woody Allen e muitos outros que a lista é extensa.
Uma vez eu segurava um livro e esperava minha vez numa fila para o autógrafo do autor. O livro é O último cabalista de Lisboa, e o autor, o judeu Richard Zimler, um tipo engraçado, alto, magro e de nariz incrivelmente longo. Uma pessoa na fila olhou para mim e disse o que pensava dos judeus: um povo incrível, ele disse, você sabia que proporcionalmente ninguém ganhou mais Nobel do que os judeus? Não, eu não sabia, mas não fiquei surpreso. Juro que não fiquei.
A tal idéia ou impressão – preconceito – nasce do equívoco, da precipitação, da incapacidade de interpretar a realidade ao seu redor ou nasce do ódio, do despeito, da inveja. Uma pessoa presa de tal sentimento é normalmente alguém com forte propensão ao fanatismo. Nem precisaria dizer isso, já que me referi ao ódio. Mas o ódio tanto nasce de um grande conflito como entre Israel e a Palestina em que todos estão certos e errados ao mesmo tempo, um conflito que passa de geração para geração e encontra correspondência no mito da Torre de Babel e sua metáfora da complexidade que resulta em morte e sofrimento como pode ser um conflito entre torcidas diferentes por times de futebol.
Há entre brasileiros (não todos) e argentinos (idem) algo assim. Conheço pessoas que detestam a Argentina embora nunca tenham viajado até lá nem lido nada sobre o país tampouco conhece sua música ou literatura. Alguns nem sabem que na Argentina se fala espanhol, mas detestam a Argentina e os argentinos e tudo o que ali possa ser identificado com a natureza ou cultura e o fogo que alimenta tanto ódio e estupidez se chama futebol. Não gosto da Argentina, diz o imbecil, porque somos rivais no gramado. Uma pessoa assim devia comer de vez em quando o gramado.
Uma coisa bem parecida acontece com algumas pessoas e seu olhar sobre os judeus. Não falo necessariamente dos palestinos porque é uma questão complicada, mais do que muita gente pensa, mas de tipos como os nazistas que odiaram um povo com base em teorias disparatadas que apontavam para superioridade e inferioridade de raças ou alguns cristãos que vêem nos judeus os assassinos de Cristo ou pessoas outras que não gostam de judeus por considerá-los arrogantes quando se auto intitulam os legítimos filhos de deus. Motivos não faltam, todo mundo conhece a história dos protocolos dos sábios de Sião, o documento que apresenta os judeus como conspiradores para dominar o mundo. Os protocolos são uma farsa, sobre isso não pode restar dúvida nenhuma; é inconteste sua fraudulência, há provas e mais provas. Muita gente, judeu ou não, já vasculhou todos os cacos no porão. Entre outras evidências, é sabido que a farsa se inspirou nos romances de Eugène Sue e O diálogo no inferno entre Maquiavel e Montesquieu de Maurice Joly, um satirista francês do século XIX, mas apesar disso muita gente ainda acredita – Ahmadinejad acredita – na legitimidade dos protocolos.
A visão estreita é ditada pela ignorância. Eu confesso que não gosto do fundamentalista judeu como não gosto do fundamentalista de qualquer outra religião. Acho que a religião mais afasta do que aproxima e sem dúvida concordo com certo músico de Liverpool – assassinado por um fanático. Mas talvez ainda não estejamos – nem todos estão – preparados para um mundo sem religião. Um mundo assim ainda é uma utopia como é utópica uma sociedade anarquista. Já imaginou uma sociedade que não precisasse de polícia?, mas é inegável que o homem caminha e grandes passos foram dados. Na Europa do século XII seria impensável um Estado Laico.
Não consigo evitar minha admiração pelos judeus, não necessariamente pelo sionista ou judeu que apóia a política de Israel quando o assunto é a Palestina tampouco por aqueles que se julgam os escolhidos. Escolhidos para quê? Para o extermínio nos campos de concentração? Para o exílio? Se deus existe e é pai de alguém, certamente não é dos judeus; para os judeus ele tem sido um padrasto e um padrasto muito severo. Quando penso nos judeus não é para o religioso que devoto minha admiração, mas para o homem ou mulher capazes de transformar sofrimento em vitória senão em arte. Penso em Kafka (que nem sabia que era judeu), em Primo Levi (sobrevivente de Auschwitz), Singer que fazia questão de escrever em iídiche) ou Philip Roth (ateu convicto), além de John Updike e Isaac Bábel (assassinado por Stálin)e Art Spiegelman e seu gibi sobre o holocausto ganhador do Pulitzer e Will Eisner, por que não? e os irmãos Coen e Woody Allen e muitos outros que a lista é extensa.
Uma vez eu segurava um livro e esperava minha vez numa fila para o autógrafo do autor. O livro é O último cabalista de Lisboa, e o autor, o judeu Richard Zimler, um tipo engraçado, alto, magro e de nariz incrivelmente longo. Uma pessoa na fila olhou para mim e disse o que pensava dos judeus: um povo incrível, ele disse, você sabia que proporcionalmente ninguém ganhou mais Nobel do que os judeus? Não, eu não sabia, mas não fiquei surpreso. Juro que não fiquei.
12 dezembro 2010
A Confraria
Eu vi na televisão – só podia ser – que cresce no Brasil o número de leitores. Será?
Vejamos: você é um escritor, e do tipo pretensioso; quer escrever boa literatura mesmo que isso represente fracasso financeiro e na melhor das hipóteses, depois de uma labuta tremenda – porque o esforço recompensa o gênio –, depois de anos e uma pilha enorme de páginas produzidas – algumas ganhadoras de prêmios importantes que não serão notícias no Jornal Nacional –, depois de tudo isso, talvez dois ou três casamentos e uma úlcera, você vai ser um ilustre desconhecido e vai ter de fazer vista grossa quando seu editor não conseguir disfarçar desagrado porque nem se passou dois anos e você já está com um livro novo.
De fato não é muito diferente o universo de um escritor que conquistou boa editora e é distribuído nacionalmente e um escritor ainda não reconhecido, inédito (admitindo o fato que também seja um bom escritor). O primeiro não precisa pagar pela edição do livro, embora não receba um tostão por ela. O segundo paga do próprio bolso, às vezes consegue incentivo do governo ou é promovido pelos amigos. Tanto um como o outro terão tiragens muito próximas e insignificantes: o primeiro três mil exemplares, o segundo mil. Nenhum dos dois espera uma segunda edição. (no campo das improbabilidades, a segunda edição de um livro vem logo após a segunda vinda de Cristo)
O primeiro terá seu livro exposto na vitrine das principais livrarias durante uma semana inteira, depois os livros serão recolhidos para as estantes secundárias e passado um mês são despachados para o depósito e em seguida devolvidos à editora que vai tentar uma parceria com o governo num desses projetos de incentivo à leitura e se tudo der certo aquele livro de contos que dialoga com Cortázar e Osman Lins, leitura densa e difícil, vai ser adquirido pela metade do preço e depois de vencer toda a burocracia vai parar numa prateleira bonitinha, pintada de verde e recostada numa parede cheia de desenhos de uma escolinha de primeira a quarta série.
O segundo vai fazer um lançamento para o qual serão convidados os amigos que vão comprar o livro para ajudar (não confundir com ler) estamos falando de filantropia, as pessoas estão imbuídas de um propósito mais nobre e sem falar que não lendo o livro a gente conserva o mito de que o autor fez por onde merecer seu nome indelével, com letras garrafais, na capa.
O que acontece hoje em dia é uma troca de figurinhas, foi o Marçal Aquino quem disse, e ele tem toda a razão. Quem ler literatura, boa literatura, é escritor. O aumento de leitores de que falam – o governo, que não é besta, e precisa vender seu peixe sobre os projetos nas áreas de educação e cultura – é mentira, conversa pra boi dormir. A tiragem de um escritor importante no Brasil não passa de três mil exemplares. Que história é essa de leitores? Que leitores? Do Paulo Coelho? Da Zibia Gasparetto? De auto-ajuda? Do livro que virou superprodução hollywoodiana? Não vale. É lixo.
Autofagia é o que existe de fato. Quer um exemplo? Pois bem, vou dar o exemplo: um grupo de escritores locais criaram um jornal literário que só teve cinco edições porque ninguém agüentava mais correr atrás de patrocínio. O jornal é bonito – alguns o consideram pretensioso. Um dos editores do jornal conheceu um escritor importante de São Paulo por ocasião de uma dessas festas literárias. Como esse tal escritor fosse muito simpático, o tal editor do jornal perguntou se ele não estaria interessado em colaborar com seu jornal. De fato é muito simpático o escritor, pois não apenas aceita como se sente (ou ao editor pareceu) lisonjeado. O conto foi mandado via e-mail e quando os editores – são três – venceram as dificuldades de praxe e pagaram à gráfica, o conto do escritor importante foi publicado numa das páginas principais. Todo mundo ficou orgulhoso. Como era de se esperar, alguns exemplares foram mandados para São Paulo, no endereço da residência do escritor importante que de fato é muito simpático.
Perceberam?
O texto do escritor de renome foi lido pelos escritores locais que tiveram seus textos lidos pelo escritor de renome. Escritor ler escritor que ler escritor. Está formada a Confraria, o resto é conversa, enganação do governo, manipulação de dados.
Vejamos: você é um escritor, e do tipo pretensioso; quer escrever boa literatura mesmo que isso represente fracasso financeiro e na melhor das hipóteses, depois de uma labuta tremenda – porque o esforço recompensa o gênio –, depois de anos e uma pilha enorme de páginas produzidas – algumas ganhadoras de prêmios importantes que não serão notícias no Jornal Nacional –, depois de tudo isso, talvez dois ou três casamentos e uma úlcera, você vai ser um ilustre desconhecido e vai ter de fazer vista grossa quando seu editor não conseguir disfarçar desagrado porque nem se passou dois anos e você já está com um livro novo.
De fato não é muito diferente o universo de um escritor que conquistou boa editora e é distribuído nacionalmente e um escritor ainda não reconhecido, inédito (admitindo o fato que também seja um bom escritor). O primeiro não precisa pagar pela edição do livro, embora não receba um tostão por ela. O segundo paga do próprio bolso, às vezes consegue incentivo do governo ou é promovido pelos amigos. Tanto um como o outro terão tiragens muito próximas e insignificantes: o primeiro três mil exemplares, o segundo mil. Nenhum dos dois espera uma segunda edição. (no campo das improbabilidades, a segunda edição de um livro vem logo após a segunda vinda de Cristo)
O primeiro terá seu livro exposto na vitrine das principais livrarias durante uma semana inteira, depois os livros serão recolhidos para as estantes secundárias e passado um mês são despachados para o depósito e em seguida devolvidos à editora que vai tentar uma parceria com o governo num desses projetos de incentivo à leitura e se tudo der certo aquele livro de contos que dialoga com Cortázar e Osman Lins, leitura densa e difícil, vai ser adquirido pela metade do preço e depois de vencer toda a burocracia vai parar numa prateleira bonitinha, pintada de verde e recostada numa parede cheia de desenhos de uma escolinha de primeira a quarta série.
O segundo vai fazer um lançamento para o qual serão convidados os amigos que vão comprar o livro para ajudar (não confundir com ler) estamos falando de filantropia, as pessoas estão imbuídas de um propósito mais nobre e sem falar que não lendo o livro a gente conserva o mito de que o autor fez por onde merecer seu nome indelével, com letras garrafais, na capa.
O que acontece hoje em dia é uma troca de figurinhas, foi o Marçal Aquino quem disse, e ele tem toda a razão. Quem ler literatura, boa literatura, é escritor. O aumento de leitores de que falam – o governo, que não é besta, e precisa vender seu peixe sobre os projetos nas áreas de educação e cultura – é mentira, conversa pra boi dormir. A tiragem de um escritor importante no Brasil não passa de três mil exemplares. Que história é essa de leitores? Que leitores? Do Paulo Coelho? Da Zibia Gasparetto? De auto-ajuda? Do livro que virou superprodução hollywoodiana? Não vale. É lixo.
Autofagia é o que existe de fato. Quer um exemplo? Pois bem, vou dar o exemplo: um grupo de escritores locais criaram um jornal literário que só teve cinco edições porque ninguém agüentava mais correr atrás de patrocínio. O jornal é bonito – alguns o consideram pretensioso. Um dos editores do jornal conheceu um escritor importante de São Paulo por ocasião de uma dessas festas literárias. Como esse tal escritor fosse muito simpático, o tal editor do jornal perguntou se ele não estaria interessado em colaborar com seu jornal. De fato é muito simpático o escritor, pois não apenas aceita como se sente (ou ao editor pareceu) lisonjeado. O conto foi mandado via e-mail e quando os editores – são três – venceram as dificuldades de praxe e pagaram à gráfica, o conto do escritor importante foi publicado numa das páginas principais. Todo mundo ficou orgulhoso. Como era de se esperar, alguns exemplares foram mandados para São Paulo, no endereço da residência do escritor importante que de fato é muito simpático.
Perceberam?
O texto do escritor de renome foi lido pelos escritores locais que tiveram seus textos lidos pelo escritor de renome. Escritor ler escritor que ler escritor. Está formada a Confraria, o resto é conversa, enganação do governo, manipulação de dados.
25 outubro 2010
medo
Medo. Todo mundo tem medo de alguma coisa. Às vezes o medo não é justificado como no caso daquela menina e seu horror pelas borboletas. As asas da borboleta, o pó que se desprende das asas.
Há quem tenha medo de lagartixas, a pele fria do pequeno réptil na pele da gente causa alguma coisa. Gastura.
Há pessoa que é razoável até no medo que cultiva. De escuro não nem assombração que isso é medo que tem as crianças depois de assistirem a filmes de horror.
Um medo razoável é o medo que padecem as pessoas pragmáticas que no seu pragmatismo consideram a maioria dos medos pura frescura e invenção de analistas. Para elas o medo não é mistério e se explica (justifica) nos efeitos da desvalorização da moeda ou inflação, que é a mesma coisa ou na perda do emprego ou descoberta que o filho é gay.
Mas o fato é que o medo nem sempre é lógico. Por exemplo, quem tem medo do inferno é gente de bem, que vai à igreja e paga os impostos. Há o medo das alturas vertiginosas. E o medo é maior – das alturas – naquelas pessoas presas de uma vontade louca de pular. Os suicidas que encontraram a morte no beijo com o asfalto decerto morriam de medo de lugares altos; consumaram o projeto quando se tornou irresistível pular.
Para os medos se inventaram nomes. Estrambóticos, alguns. E ficam lá, no dicionário. Acrofobia é o nome da doença daqueles que se sentem atraídos pelo precipício. De claustrofobia sofrem aqueles que temem acordar na sepultura, ludibriados pela morte que os fazem morrer duas vezes. Uma doença também chamada de Lázaro.
Eu, por exemplo, morro de medo que meus sentidos não estejam funcionando direito, e fique comprometida minha apreensão da realidade. Foi assim que me senti esta semana, depois de assistir Tropa de Elite. Há filmes que nos deixam atônitos enquanto outros só servem para nos distrair enquanto comemos pipocas. Tropa de Elite além de ser um bom filme enquanto realização cinematográfica, é também do tipo que nos pega pela beca e nos sacode. Por isso, quando saí do cinema, fiquei meio aéreo e seriamente desconfiado de meu senso crítico, talvez embaçado e satisfeito demais com a normalidade.
Há quem tenha medo de lagartixas, a pele fria do pequeno réptil na pele da gente causa alguma coisa. Gastura.
Há pessoa que é razoável até no medo que cultiva. De escuro não nem assombração que isso é medo que tem as crianças depois de assistirem a filmes de horror.
Um medo razoável é o medo que padecem as pessoas pragmáticas que no seu pragmatismo consideram a maioria dos medos pura frescura e invenção de analistas. Para elas o medo não é mistério e se explica (justifica) nos efeitos da desvalorização da moeda ou inflação, que é a mesma coisa ou na perda do emprego ou descoberta que o filho é gay.
Mas o fato é que o medo nem sempre é lógico. Por exemplo, quem tem medo do inferno é gente de bem, que vai à igreja e paga os impostos. Há o medo das alturas vertiginosas. E o medo é maior – das alturas – naquelas pessoas presas de uma vontade louca de pular. Os suicidas que encontraram a morte no beijo com o asfalto decerto morriam de medo de lugares altos; consumaram o projeto quando se tornou irresistível pular.
Para os medos se inventaram nomes. Estrambóticos, alguns. E ficam lá, no dicionário. Acrofobia é o nome da doença daqueles que se sentem atraídos pelo precipício. De claustrofobia sofrem aqueles que temem acordar na sepultura, ludibriados pela morte que os fazem morrer duas vezes. Uma doença também chamada de Lázaro.
Eu, por exemplo, morro de medo que meus sentidos não estejam funcionando direito, e fique comprometida minha apreensão da realidade. Foi assim que me senti esta semana, depois de assistir Tropa de Elite. Há filmes que nos deixam atônitos enquanto outros só servem para nos distrair enquanto comemos pipocas. Tropa de Elite além de ser um bom filme enquanto realização cinematográfica, é também do tipo que nos pega pela beca e nos sacode. Por isso, quando saí do cinema, fiquei meio aéreo e seriamente desconfiado de meu senso crítico, talvez embaçado e satisfeito demais com a normalidade.
20 outubro 2010
Carrero está bem
Entre os escritores do Brasil, e eu estou falando daqueles que são bem editados e já podem contar entre suas conquistas com prêmios literários etc, noto que há muito diletantismo. Talvez porque aqui literatura nunca foi encarada com seriedade, porque só é encarado com seriedade aquilo que gera lucro. Literatura não é pragmatismo, é coisa do espírito, e num mundo onde mesmo as coisas do espírito precisam gerar lucro – a doutrina da prosperidade que o diga – a literatura passa por excentricidade.
Talvez por isso e o fato de que a classe média brasileira não lê; os professore não lêem, nem os advogados que às vezes passam dez, vinte anos tentando passar no exame da ordem, tampouco os médicos, coitados, sem tempo para as coisas do espírito, ocupados que ficam a vida inteira com o ambicioso projeto de trabalhar muito para ficarem ricos, e a elite burra. Aliás, não se diz que o Brasil tem uma elite burra, pode-se incorrer em redundância. Já o povo, de todas as classes – o povo é uma classe? – faz um juízo diferente da literatura; pra ele literatura não é excentricidade ou perda de tempo, não é o mesmo juízo que faz a classe média ou elite. O povo não despreza a literatura, pelo contrário, sente por ela o mesmo que sentiam os católicos pela missa rezada em latim: não entendiam nada, mas por isso mesmo adivinhavam ali algo misterioso. O povo não lê não é porque o livro é caro. O livro é caro, decerto, mas existem espalhadas pelo país milhares de bibliotecas e salas de leitura que o presidente analfabeto criou. O povo não lê, na verdade, por duas razões: primeiro porque considera o livro algo misterioso e, como todos sabem, o povo é supersticioso, e segundo porque perdeu a inocência de tanto assistir televisão. A televisão é o veículo pelo qual o povo acompanha as modas inventadas pela classe média e a elite (em quem o povo se espelha), e entre tantas modas – algumas bem ousadas – não há nenhuma sobre o livro e seus mistérios.
Mas eu dizia que entre os escritores do Brasil há muito diletantismo, talvez pelas razões demonstradas, e outras, sem dúvida. Ser escritor no Brasil não é fácil. De todas as profissões, é, sem dúvida nenhuma, aquela que melhor representa o Mito de Sísifo. Por isso os escritores – desmotivados – não levam muito a sério o que fazem. Mas há exceções – sempre há exceções – no caso da literatura eu citaria Raimundo Carrero que neste momento, enquanto escrevo essas linhas, está na UTI, se recuperando de um AVC. Carrero é incansável, é um monstro e vem demonstrando nos últimos anos um ritmo de trabalho atípico, tão diferente da produção da maioria de seus colegas diletantes. Num país em que as editoras não estão nem aí se o escritor está ou não com um livro novo, num país que não existe a figura do agente literário, num país em que as editoras abandonam o escritor pelo caminho e mesmo o escritor importante, ganhador de prêmios e reconhecimento da crítica precisa implorar para seu livro ser editado e esperar um ano inteiro, às vezes mais, que o editor se resolva. Num país como este Carrero faz a diferença.
Ele começou no Movimento Armorial, mas abandonou aquele universo, sua inquietação é a daquele escritor em permanente busca por outras possibilidades. Ele costuma dizer que ainda não escreveu a obra pela qual deseja ser lembrado, talvez não, mas sua produção já conta com algumas obras primas. Mas não é o suficiente, não está satisfeito e quem ganha somos nós, seus leitores, vivendo todos os anos a felicidade antecipada de encontrar nas livrarias o livro que deixará satisfeito seu criador. Deus não está satisfeito com sua obra, Carrero compartilha dessa opinião. É preciso melhorar, é possível melhorar um parágrafo, uma página. Sempre. Ele sabe o que diz, disse a mim mais de uma vez sobre meus contos. Precisam melhorar! Sem dúvida. Carrero é obcecado pelo que faz, e dizer isso é dizer pouco, ele é o nosso Flaubert lá de Salgueiro para o Brasil, um dos pioneiros das oficinas de criação literária desmistificando o mito besta e romântico da inspiração como única prerrogativa do fazer literário. Viva o trabalho, diria Carrero, a labuta, o esforço que possibilita a transformação. Sem fanatismo não há boa literatura. Carrero é um fanático e é também um dos caras mais gentis que conheço, é daquele tipo de gente capaz de ligar pra você no meio da noite só pra perguntar se está tudo bem.
Está tudo bem sim. Estamos rezando por você, meu amigo, pedindo a Kafka que o proteja, a Henry Miller que não o desampare, a Zé Lins que não o deixe sozinho, pensando besteiras. Tudo vai correr bem, amanha vamos tomar aquela cerveja e dizer muita pilhéria.
Talvez por isso e o fato de que a classe média brasileira não lê; os professore não lêem, nem os advogados que às vezes passam dez, vinte anos tentando passar no exame da ordem, tampouco os médicos, coitados, sem tempo para as coisas do espírito, ocupados que ficam a vida inteira com o ambicioso projeto de trabalhar muito para ficarem ricos, e a elite burra. Aliás, não se diz que o Brasil tem uma elite burra, pode-se incorrer em redundância. Já o povo, de todas as classes – o povo é uma classe? – faz um juízo diferente da literatura; pra ele literatura não é excentricidade ou perda de tempo, não é o mesmo juízo que faz a classe média ou elite. O povo não despreza a literatura, pelo contrário, sente por ela o mesmo que sentiam os católicos pela missa rezada em latim: não entendiam nada, mas por isso mesmo adivinhavam ali algo misterioso. O povo não lê não é porque o livro é caro. O livro é caro, decerto, mas existem espalhadas pelo país milhares de bibliotecas e salas de leitura que o presidente analfabeto criou. O povo não lê, na verdade, por duas razões: primeiro porque considera o livro algo misterioso e, como todos sabem, o povo é supersticioso, e segundo porque perdeu a inocência de tanto assistir televisão. A televisão é o veículo pelo qual o povo acompanha as modas inventadas pela classe média e a elite (em quem o povo se espelha), e entre tantas modas – algumas bem ousadas – não há nenhuma sobre o livro e seus mistérios.
Mas eu dizia que entre os escritores do Brasil há muito diletantismo, talvez pelas razões demonstradas, e outras, sem dúvida. Ser escritor no Brasil não é fácil. De todas as profissões, é, sem dúvida nenhuma, aquela que melhor representa o Mito de Sísifo. Por isso os escritores – desmotivados – não levam muito a sério o que fazem. Mas há exceções – sempre há exceções – no caso da literatura eu citaria Raimundo Carrero que neste momento, enquanto escrevo essas linhas, está na UTI, se recuperando de um AVC. Carrero é incansável, é um monstro e vem demonstrando nos últimos anos um ritmo de trabalho atípico, tão diferente da produção da maioria de seus colegas diletantes. Num país em que as editoras não estão nem aí se o escritor está ou não com um livro novo, num país que não existe a figura do agente literário, num país em que as editoras abandonam o escritor pelo caminho e mesmo o escritor importante, ganhador de prêmios e reconhecimento da crítica precisa implorar para seu livro ser editado e esperar um ano inteiro, às vezes mais, que o editor se resolva. Num país como este Carrero faz a diferença.
Ele começou no Movimento Armorial, mas abandonou aquele universo, sua inquietação é a daquele escritor em permanente busca por outras possibilidades. Ele costuma dizer que ainda não escreveu a obra pela qual deseja ser lembrado, talvez não, mas sua produção já conta com algumas obras primas. Mas não é o suficiente, não está satisfeito e quem ganha somos nós, seus leitores, vivendo todos os anos a felicidade antecipada de encontrar nas livrarias o livro que deixará satisfeito seu criador. Deus não está satisfeito com sua obra, Carrero compartilha dessa opinião. É preciso melhorar, é possível melhorar um parágrafo, uma página. Sempre. Ele sabe o que diz, disse a mim mais de uma vez sobre meus contos. Precisam melhorar! Sem dúvida. Carrero é obcecado pelo que faz, e dizer isso é dizer pouco, ele é o nosso Flaubert lá de Salgueiro para o Brasil, um dos pioneiros das oficinas de criação literária desmistificando o mito besta e romântico da inspiração como única prerrogativa do fazer literário. Viva o trabalho, diria Carrero, a labuta, o esforço que possibilita a transformação. Sem fanatismo não há boa literatura. Carrero é um fanático e é também um dos caras mais gentis que conheço, é daquele tipo de gente capaz de ligar pra você no meio da noite só pra perguntar se está tudo bem.
Está tudo bem sim. Estamos rezando por você, meu amigo, pedindo a Kafka que o proteja, a Henry Miller que não o desampare, a Zé Lins que não o deixe sozinho, pensando besteiras. Tudo vai correr bem, amanha vamos tomar aquela cerveja e dizer muita pilhéria.
13 outubro 2010
queixumes do carrasco
Louise Brouwn nasceu em 1978, foi o primeiro bebê proveta, depois nasceram muitos, fala-se em milhares. Este ano o Nobel de Medicina foi entregue a um dos responsáveis pela fertilização in vitro, o britânico Robert Edwards, de 85 anos. O Vaticano não gostou e quem nos deu a notícia de desagrado foi Ignácio Carrasco de Paula, presidente da Pontifícia Academia para a vida do Vaticano. Monsenhor Carrasco é porta-voz do Papa para assuntos relacionados à bioética, e disse que ficou perplexo com a escolha – que ele julgou fora de tempo – do novo laureado, lamentando o fato do prêmio ignorar as questões éticas levantadas pelo tratamento de fertilidade.
Monsenhor Carrasco diz que ficou perplexo.
Perplexo é como fica alguém quando sente uma forte indignação. Perplexos deveriam ficar todos os católicos – principalmente eles – com o anacronismo de uma Igreja que não se deu conta que a Idade Média ficou pra trás, quando seus representantes mais ilustres preconizavam que questionar a vontade de um soberano era o mesmo que questionar a Deus. Perplexos com uma Igreja e sua insistência em ser sempre o lado na discussão que não tem razão. A história mais clássica é a querela com Galileu, mas houve outras, antes e depois e em todas elas, a representante de Deus perdeu feio. É claro que naquela época o que ela não possuía em argumentos, esbanjava em poder, tanto é que outros opositores, também famosos, como Giordano Bruno, viraram churrasquinho. Mas esse tempo passou. Ninguém agora é queimado e a Igreja, com sua postura anacrônica apenas contribui para deixar ainda mais constrangido o próprio católico, coitado, que já tem de fazer verdadeiros malabarismos mentais – que Nietzsche chamava improbidade intelectual – e buscar na vida dos santos exemplos de cristandade já que muitos sacerdotes não servem de modelo (acho que nunca serviram) e estão envolvidos até o pescoço com a Justiça e o pagamento de indenizações a vítimas de abuso sexual. Mas o Estado é laico, Monsenhor Carrasco pode dizer o que quiser.
Estamos todos tranquilos, o carrasco não vai levar ninguém ao patíbulo, no máximo vai encontrar alguns simpáticos à sua causa, mas a maioria vai rir, achar engraçado e no final ninguém vai dar a menor atenção ao que o porta voz do vaticano tem a dizer sobre fertilização, manipulação genética, células-tronco embrionárias, clonagem ou uso contraceptivo da camisinha.
E tudo isso porque no Estado Laico – uma de nossas maiores conquistas – o carrasco não tem vez. Há severas sanções proibitivas sobre o uso indevido de abrir alçapões ou lidar com mecanismos de guilhotina. Também caçaram o porte do machado e lhe arrancaram o capuz da cabeça, é por isso que o encontramos nesse estado: fazendo muchocho e beicinho.
Monsenhor Carrasco diz que ficou perplexo.
Perplexo é como fica alguém quando sente uma forte indignação. Perplexos deveriam ficar todos os católicos – principalmente eles – com o anacronismo de uma Igreja que não se deu conta que a Idade Média ficou pra trás, quando seus representantes mais ilustres preconizavam que questionar a vontade de um soberano era o mesmo que questionar a Deus. Perplexos com uma Igreja e sua insistência em ser sempre o lado na discussão que não tem razão. A história mais clássica é a querela com Galileu, mas houve outras, antes e depois e em todas elas, a representante de Deus perdeu feio. É claro que naquela época o que ela não possuía em argumentos, esbanjava em poder, tanto é que outros opositores, também famosos, como Giordano Bruno, viraram churrasquinho. Mas esse tempo passou. Ninguém agora é queimado e a Igreja, com sua postura anacrônica apenas contribui para deixar ainda mais constrangido o próprio católico, coitado, que já tem de fazer verdadeiros malabarismos mentais – que Nietzsche chamava improbidade intelectual – e buscar na vida dos santos exemplos de cristandade já que muitos sacerdotes não servem de modelo (acho que nunca serviram) e estão envolvidos até o pescoço com a Justiça e o pagamento de indenizações a vítimas de abuso sexual. Mas o Estado é laico, Monsenhor Carrasco pode dizer o que quiser.
Estamos todos tranquilos, o carrasco não vai levar ninguém ao patíbulo, no máximo vai encontrar alguns simpáticos à sua causa, mas a maioria vai rir, achar engraçado e no final ninguém vai dar a menor atenção ao que o porta voz do vaticano tem a dizer sobre fertilização, manipulação genética, células-tronco embrionárias, clonagem ou uso contraceptivo da camisinha.
E tudo isso porque no Estado Laico – uma de nossas maiores conquistas – o carrasco não tem vez. Há severas sanções proibitivas sobre o uso indevido de abrir alçapões ou lidar com mecanismos de guilhotina. Também caçaram o porte do machado e lhe arrancaram o capuz da cabeça, é por isso que o encontramos nesse estado: fazendo muchocho e beicinho.
03 outubro 2010
narciso
O livro mais importante na vida de um leitor é aquele em que ele se reconhece. Falo de mim, de você. Muito tempo depois lendo e relendo aquele livro somos capazes de afirmar: ora, mas não havia nada ali que eu já não soubesse! De fato, há nessa afirmação uma confissão narcisista.
É claro que admiramos alguns livros por aquilo que eles foram capazes de fazer pela literatura, por exemplo, renovando a forma quando ela parecia impossível de comunicar nossas novas experiências. A esses livros devemos o renovado sentido do novo. Para os responsáveis, tiramos o chapéu. Kafka, Joyce ou Guimarães Rosa são ótimos exemplos. Também há os livros que nos despertam das letargias, os livros que causam perplexidades, aqueles que nos fazem desacreditar do gênero humano ou amá-lo incondicionalmente. Acho que todo mundo já se perguntou um dia: estou mais feliz depois da leitura deste livro? Provavelmente não, mas entendemos que foi necessário.
Mas não é desses livros – muito embora a química não os exclua – que eu me refiro. Não necessariamente dos renovadores da forma ou revolucionários ou aqueles que nos comunicam uma tristeza iniludível, mas daqueles livros que de cara nos pegam de jeito porque as metafísicas cruciais ali desenvolvidas são as mesmas que nos inquietaram a vida inteira, sutilezas que pensávamos só a nós pertencer, reflexos de nossas idiossincrasias. Refiro-me aos saudosistas – de uma saudade que também é nossa, é minha – que utilizando o recurso insipiente da linguagem e não uma sofisticada máquina do tempo, são capazes de recriar aquela época que foi nossa embora a idade nos desminta (essa contingência tirânica que nos limita e angustia e no final nos livra de todo sofrimento), falo dos bruxos, químicos e sinestésicos livros criadores de atmosferas. Uma atmosfera que eu – leitor – idealizo, mas não tenho consciência disso.
Eu conheci um senhor, alguns anos atrás, dono de uma clínica, em Recife. Naquela altura da vida ele apenas supervisionava o trabalho dos filhos, estava aposentado ou algo assim, dispunha de tempo, portanto, me disse ele, para ler e reler um livro. Fiquei surpreso quando ele me disse o nome, eu julgava aquele livro um dos exemplos de livros lidos apenas por escritores. Em Busca do Tempo Perdido é feito da matéria da minha vida – ele disse. Nenhuma biografia da minha vida poderia ser mais fiel aos meus sentimentos, nenhuma recomporia melhor a atmosfera da minha infância.
Claro estar que o mesmo livro, o livro de quem sou devoto leitor, pode não ser o seu, provavelmente não é, mas isso não importa, não estamos julgando méritos, não é tanto o livro, mas o quanto de alma gêmea ele é pra você. Pra mim. Não estamos falando de regras – que sirvam para todos – não é o caso de leis ou subordinações nem verdades absolutas. Provavelmente não há verdades absolutas, não nas coisas grandes, talvez nas pequenas. Na verdade eu estou falando de flerte, namoro.
Dizem os psicólogos de plantão que quando nos apaixonamos, é por nós que o fazemos, o outro é só uma projeção de nós mesmos, um ente que só existe a medida que alimentamos sua natureza feita da essência do ser por trás de nosso olhar. Algo parecido acontece com os livros de que estou falando, aqueles que foram feitos – intencionalmente ou não – da matéria de nosso ser, de meu ser. (É essa minha impressão mais viva) São livros e mais livros adquiridos ao longo de muitos anos e que traduzem o mais ousado projeto de compor uma biblioteca pessoal. Os livros ali distribuídos são iguais num aspecto: parecem tentativas de compreensão da minha alma – a alma do leitor que sou; que é você quando a experiência é sua, são formulações – muitas delas disparatadas – de hipóteses sobre a minha existência, meu lugar no mundo, meu lugar na vida do outro, sobre de que é feito meu sangue ou qual o tamanho do meu coração. Enamoramos-nos desses livros, e eu não sei se eles nos ajudam a enxergar além do nevoeiro ou se contribuem ainda mais com a cerração. Desconfio até que esta questão não tem a menor relevância.
É claro que admiramos alguns livros por aquilo que eles foram capazes de fazer pela literatura, por exemplo, renovando a forma quando ela parecia impossível de comunicar nossas novas experiências. A esses livros devemos o renovado sentido do novo. Para os responsáveis, tiramos o chapéu. Kafka, Joyce ou Guimarães Rosa são ótimos exemplos. Também há os livros que nos despertam das letargias, os livros que causam perplexidades, aqueles que nos fazem desacreditar do gênero humano ou amá-lo incondicionalmente. Acho que todo mundo já se perguntou um dia: estou mais feliz depois da leitura deste livro? Provavelmente não, mas entendemos que foi necessário.
Mas não é desses livros – muito embora a química não os exclua – que eu me refiro. Não necessariamente dos renovadores da forma ou revolucionários ou aqueles que nos comunicam uma tristeza iniludível, mas daqueles livros que de cara nos pegam de jeito porque as metafísicas cruciais ali desenvolvidas são as mesmas que nos inquietaram a vida inteira, sutilezas que pensávamos só a nós pertencer, reflexos de nossas idiossincrasias. Refiro-me aos saudosistas – de uma saudade que também é nossa, é minha – que utilizando o recurso insipiente da linguagem e não uma sofisticada máquina do tempo, são capazes de recriar aquela época que foi nossa embora a idade nos desminta (essa contingência tirânica que nos limita e angustia e no final nos livra de todo sofrimento), falo dos bruxos, químicos e sinestésicos livros criadores de atmosferas. Uma atmosfera que eu – leitor – idealizo, mas não tenho consciência disso.
Eu conheci um senhor, alguns anos atrás, dono de uma clínica, em Recife. Naquela altura da vida ele apenas supervisionava o trabalho dos filhos, estava aposentado ou algo assim, dispunha de tempo, portanto, me disse ele, para ler e reler um livro. Fiquei surpreso quando ele me disse o nome, eu julgava aquele livro um dos exemplos de livros lidos apenas por escritores. Em Busca do Tempo Perdido é feito da matéria da minha vida – ele disse. Nenhuma biografia da minha vida poderia ser mais fiel aos meus sentimentos, nenhuma recomporia melhor a atmosfera da minha infância.
Claro estar que o mesmo livro, o livro de quem sou devoto leitor, pode não ser o seu, provavelmente não é, mas isso não importa, não estamos julgando méritos, não é tanto o livro, mas o quanto de alma gêmea ele é pra você. Pra mim. Não estamos falando de regras – que sirvam para todos – não é o caso de leis ou subordinações nem verdades absolutas. Provavelmente não há verdades absolutas, não nas coisas grandes, talvez nas pequenas. Na verdade eu estou falando de flerte, namoro.
Dizem os psicólogos de plantão que quando nos apaixonamos, é por nós que o fazemos, o outro é só uma projeção de nós mesmos, um ente que só existe a medida que alimentamos sua natureza feita da essência do ser por trás de nosso olhar. Algo parecido acontece com os livros de que estou falando, aqueles que foram feitos – intencionalmente ou não – da matéria de nosso ser, de meu ser. (É essa minha impressão mais viva) São livros e mais livros adquiridos ao longo de muitos anos e que traduzem o mais ousado projeto de compor uma biblioteca pessoal. Os livros ali distribuídos são iguais num aspecto: parecem tentativas de compreensão da minha alma – a alma do leitor que sou; que é você quando a experiência é sua, são formulações – muitas delas disparatadas – de hipóteses sobre a minha existência, meu lugar no mundo, meu lugar na vida do outro, sobre de que é feito meu sangue ou qual o tamanho do meu coração. Enamoramos-nos desses livros, e eu não sei se eles nos ajudam a enxergar além do nevoeiro ou se contribuem ainda mais com a cerração. Desconfio até que esta questão não tem a menor relevância.
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