03 agosto 2010
curso de leitura
Tudo bem, esta é uma discussão, válida, sem dúvida, mas não é desse leitor – sem dúvida nenhuma aquele que mais carece de atenção – de quem desejo falar, mas de outro, um caso, talvez, menos complicado e que tem sua problemática – menos caótica –situada numa outra esfera. Falo do leitor médio. Ele sabe juntar as letras e formar as palavras, frases e orações e, diferente do outro, entende o que lê. Seu ecletismo lhe permite passear pela ficção e não raro a poesia. Comparece a lançamentos de livros de poesia, tem amigos poetas e sabe de cor pelo menos um soneto de Augusto dos Anjos. Gosta de romances, apesar de opiniões como a de um amigo advogado, formado num conceituado curso de direito da capital, que considera esse tipo de leitura uma perda de tempo. Ele – o tal amigo bacharel – não sabe, mas repete com suas palavras um axioma de Oscar Wilde. Pois bem, o leitor, esse sujeito que se senta para ler um livro sem futuro, como são os livros de literatura, normalmente perde tempo mesmo, mas não pelas razões sustentadas pelo senhor pragmático, e sim porque não tem critério, lê o que lhe cai às mãos e não distingue um autor do outro; pra ele livro é livro, as duas capas guardando o miolo de algum modo conferem legitimidade às palavras ali impressas.
Imagino esse leitor diante de enormes prateleiras de uma grande livraria. Ele vai à livraria e se sente o mais notável dos homens, um sujeito raro, pertencente à fina flor de uma sociedade sob a égide da cultura. Seus confrades são homens e mulheres – uma minoria, certamente – abnegados defensores de certo ideal dos antepassados, hoje vilipendiado pelas gerações mais novas. De fato, ele vai à livraria, cumpri um ritual, pois é um iniciado da tal sociedade, mas quando se vê diante das prateleiras de livros compreende como ninguém o significado da palavra Babel. As lombadas, com nomes de autores e obras não lhe dizem nada, ele se sente confuso, sente uma vertigem e é preciso ser levado às pressas ao banheiro onde vomita por dez ou vinte minutos. Quando se sente recobrado, atribui à indisposição os efeitos de uma intoxicação alimentar. Naquele dia desiste das prateleiras, vai ao mostruário e pega o primeiro livro escrito por bruxos ou espíritos desencarnados que encontra. Paga com o cartão de crédito e sai da livraria aliviado do vômito e da incursão no mundo de babel.
Não há exagero, é mais ou menos esse o perfil do leitor médio brasileiro. Ele não conhece a produção do passado – os clássicos – tampouco a da chamada pós-modernidade ou contemporaneidade. O sujeito afirma que leu uma edição resumida do Dom Quixote – dos tais famigerados paradidáticos – e nem se dá conta do sacrilégio cometido. Os eventos de literatura que se espalham pelo país, como a Flip, reúnem de um lado escritores consagrados que desenvolvem suas falas para aspirantes a escritores, jornalistas culturais, editores ou professores da área de letras que trazem seus alunos – alguns muito bem intencionados, outros nem tanto – como parte integrante de algum projeto pedagógico de incentivo à leitura blá, blá, blá. Nesses eventos, os escritores mais famosos não passam de ilustres desconhecidos. No país inteiro, segundo Marçal Aquino, existe uma média de 1000 leitores potenciais, isto é, aquele que não se enquadra em nenhuma das categorias mencionadas anteriormente, e mesmo assim cultiva o hábito de ir à livraria, onde escolhe um bom livro e o compra com a mais genuína intenção de ler porque isso lhe causa prazer. Ainda estamos naquela de nos comparar com a Argentina e nos espantar com o número de livrarias de Buenos Aires; uma para cada seis mil habitantes, contra uma para cada setenta mil brasileiros. É um saco, muita gente não gosta de tocar nesse assunto, fazer o quê?
O leitor médio devia aprender com aquele cara que gosta de futebol. Ele não joga nada, é perna de pau, mas tem seu time do coração, uma paixão que influenciou a esposa e os filhos _ às vezes a esposa é quem influencia o marido – pois bem, o cara não joga nada, não é jogador, treinador ou cartola, mas está por dentro de tudo, é capaz de fazer um diagnóstico da situação de seu time bem como dos adversários. Acompanha os campeonatos estaduais, nacionais e internacionais, sabe a escalação do time e se amarra nos programas de televisão especializados em comentar lances, além do caderno de esporte, o melhor caderno do jornal, o único lido do começo ao fim.
Coisa muito diversa acontece com o leitor médio. Ele não assiste a nenhum programa de televisão que entreviste o escritor, não lê o jornal que traz resenhas de livros, não compra nem lê revista especializada no assunto nem pertence ao clube do livro, por isso não conhece nenhum escritor. Muitas vezes acontece de estar lendo um livro e quando lhe perguntam o autor ele não sabe responder, diz que não se liga nessas coisas. Nunca compra livro; compartilha a opinião de que o livro é caro, não importa quanto sejam seus rendimentos, se de um salário mínimo ou cinqüenta. Desconhece as edições de bolso ou aquelas que contam com a participação de algum fundo de apóio à cultura, como foi o caso da belíssima coleção de Grandes Escritores da Atualidade, da Planeta DeAgostini; nomes como Saramago, Ian McEwan, Ernesto Sabato, Ítalo Calvino, Rubem Fonseca, entre outros, editados no melhor papel, capa dura e de excelentes traduções ao preço módico de dezesseis reais, adquiridos na banca de revista. Esse leitor lê o que lhe cai às mãos – já que não compra. Não estabelece um padrão, não distingue Stephen King de Philip Roth, seu nível de leitura não progride, de vez em quando – quando alguém lhe empresta – lê reportagens ou biografias de famosos, mas sua paixão mesmo são os livros de auto-ajuda.
É por isso que eu sugiro um curso. Um curso de iniciação à leitura, uma coisa que já acontece nas oficinas de criação literária, Carrero que o diga. Mas não falo de um curso para quem deseja escrever, mas para quem deseja lê, que a leitura é uma arte tão importante – decerto mais prazerosa – quanto a escrita. Uma vez eu li uma frase escrita numa dessas revistas de divulgação de literatura, a frase é curiosa e se aplica aqui: não devemos ler os bons livros, dizia a frase, mas os ótimos. É isso o que quero dizer com curso de leitura; os leitores precisam entender que há muita coisa boa a ser lida, mas a vida da gente não ajuda, é curta. E aí, paciência, não adianta culpar Adão, o tempo é finito, sejamos criteriosos em nossas escolhas.
04 julho 2010
José Saramago
Foram diferentes minhas reações diante de duas notícias acerca de José Saramago. A primeira quando o escritor ganhou o Nobel e a segunda quando o homem foi surpreendido – porque sempre somos surpreendidos, jovens ou velhos, saudáveis ou doentes – pela morte.
Foi em 1998, eu já conhecia o escritor fazia uns dois anos. Nesse período li pelo menos três livros dele: Levantado do chão, O Evangelho segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento. Recebi a notícia e desejei comemorar, mas naquele tempo – nem faz tanto tempo assim – não havia mais ninguém, dos meus conhecidos, que conhecesse Saramago, alguns já haviam ouvido falar, mas não tinham lido nada. Meu entusiasmo esbarrava sempre numa quase indiferença do outro. Mas eu estava animado, era um escritor que eu gostava e escrevia seus livros na minha língua.
Sexta feira, dia 18, entretanto, recebi a notícia da morte dele sem nenhuma reação. Eu queria sofrer, mas não sofria. Não tinha jeito, e durante o resto do dia e no dia seguinte também. De vez em quando me acontecia de encontrar pessoas– isso sem mencionar as ligações para meu celular – que me perguntavam sobre a morte, se eu já sabia... Eu sentia vontade de responder – talvez tenha respondido para alguns – que não sabia, e de novo tentava sofrer em vão. Nada de sofrimento. Nenhuma lágrima.
José Saramago se fez escritor – é pelo menos essa a idéia que faço dele – para ser útil. Parece uma contradição. Numa certa medida não deixa de ser, principalmente quando voltamos nossa atenção para o esteta. Não é por acaso que tenha publicado tão tarde, nele havia uma preocupação com o como escrever. É claro que para ele havia muito a dizer, berrar, gritar e denunciar as injustiças do mundo, o sofrimento do homem explorado pelo homem e a miséria do fanatismo, mas não é panfleto o que o escritor deseja produzir, não é um mero discurso, é arte, é literatura e aí reside a questão. De fato. Poucos escritores conseguiram a proeza de escrever uma obra engajada, pragmática, um romance, conto ou poema que fosse também, além do que sua natureza exigisse, um veículo de propagação de uma idéia. Essa subordinação da arte é perigosa e José Saramago sabia disso. Além do mais, as idéias ou verdades – mesmo as verdades ou aquilo que entendemos como tal – correm o risco de envelhecer.
Foram dois livros, lidos um depois do outro, que me apresentaram o universo romanesco de Saramago. Depois, claro, vieram outros que li com o mesmo deleite, alguns mais do que outros como O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas os dois livros, apresentados nesta ordem, me chamaram a atenção para dois aspectos fundamentais: o escritor e sua preocupação com o tratamento dado à linguagem e o escritor e aquilo que desejava comunicar ao mundo.
Em Levantado do chão, a história da família mau-tempo, lavradores do Alentejo, desde tempos muito remotos até a Revolução de 1974, eu me encantei com a oralidade inventada de José Saramago. Era o tipo de texto que nos prende porque exige toda a nossa capacidade de leitor, do outro que também é autor, numa certa medida, e participa efetivamente do processo de criação. Depois foi a vez do Evangelho Segundo Jesus Cristo. Também a prosa – aquela oralidade – e agora a história, uma de minhas preferidas. Mas não como é apresentada no livro sagrado que não suporta refutação, mas a história recontada – como antes já fora por Kazantzákis – do Crucificado que incorpora os elementos do humano e se faz humano. Nesse livro, profanar o sagrado não é desrespeitar, mas inquirir até onde nos bastam as verdades, até onde vai o mito e nos arrasta juntos e se ainda nos serve de modelo. José Saramago foi nosso Voltaire contemporâneo, talvez menos galhofeiro, mais sisudo, e quase sempre melancólico porque pessimista. Não o tipo de pessimismo que não acredita em nada, negativo, mas aquele que desconfia da normalidade, que conserva sua capacidade de se indignar.
Não gosto da morte. Aliás, na minha família, é uma tradição ninguém gostar da morte. Meu avô sofria de melancolia sempre que alguém o lembrava da morte. Ele já morreu, deixou de sofrer. Papai ainda sofre, e eu espero que continue sofrendo durante muitos anos. Eu idem. Mas não tem jeito, um dia, mais cedo ou mais cedo – porque é sempre cedo – eu e todo mundo vai se encontrar com a indesejada das gentes. Fazer o quê? Saramago parece que não gostava também. Para nós que nos pusemos em contato com o eterno – a literatura é uma das responsáveis por isso – fica difícil engolir a morte. Diante dela só a revolta. Mas não há o que fazer, além de se revoltar. No caso de Saramago, pelo menos, a morte adiou sua vinda e deixou que o homem completasse alguns de seus projetos – quase todos livros. É verdade que faltaram outros, sempre falta, mas acho que ele morreu consciente de que fez o melhor que podia fazer. E sua dignidade para com o fim sem nunca se sujeitar às idéias consoladoras da religião é a impressão mais forte que guardo dele e, talvez por isso, não sofri, o homem voltou ao nada, sua obra, entretanto, continuará conosco ainda por algum tempo.
23 junho 2010
Paris é uma festa
Tenho saudade de meu tempo de jovem adolescente quando lia sem entender nada os teóricos do Comunismo. Tenho saudade de Sandra, uma menina por quem estive apaixonado ali pelos meus 13 anos. Ela era linda, já tinha peitos – o que me rendia certa catarse solitária – e nutria por mim o desprezo característico que as meninas de 13 anos sentem pelos meninos da mesma idade. Sinto saudades de outras coisas que vivenciei e de pessoas que já não são as mesmas ou deixaram de existir. Mas também sinto saudades de lugares por onde nunca andei e de épocas que nunca vivi.
Uma dessas épocas é a década de 20 e um dos lugares – alguns já adivinharam – é a França. Paris, para ser exato. Tal experiência se repete todas as vezes que leio Paris é uma festa, do Ernest Hemingway. O testemunho que dá o autor é autobiográfico. O livro não é ficção, é memória e sem dúvida nenhuma se constitui na gênese de outro livro – este sim, de ficção – que eu leio com o mesmo deleite do primeiro. Todos já sabem: O Sol também se levanta. A atmosfera – ou a sensação que em mim provoca – que provém de Paris daqueles primeiros vinte anos do século passado povoada de artistas, músicos, poetas e escritores, a maioria pobre, muito antes da fama, vivendo um período de formação, mas sem a rigidez que lhes proibisse o prazer de tomar vinho, uísque e o que mais lhes ajudasse a combater o frio das casas sem calefação. Um período de formação que também incluía frequentar – porque faziam parte do meio – o ateliê de pintores excêntricos que mais tarde se suicidariam de tão excêntricos, acompanhados quase sempre – antes de cortar os pulsos ou morrer de overdose – de mulheres, algumas de vida fácil, mas todas lindas e seduzidas por eles – os artistas – e suas visões de mundo encantadoras, muito embora pessimistas ou niilistas ao ponto de Gertrude Stein taxar aquela geração de perdida. Tal atmosfera, como eu dizia, tem o efeito de me embriagar como o vinho.
Ter vivido naquela época – a mim parece – é pertencer a um dos mais interessantes períodos da história, e é claro que quando digo isto estou ajudando a construir o mito. Mas quem começou foi Hemingway. Foi ele quem disse que era pobre e feliz. Os poetas neoclássicos nos falam da vida campestre e de homens simples e rudes e, por isso mesmo, felizes. Hemingway nos dá conta de homens urbanos, sofisticados, excêntricos e exigentes, porém felizes. Parece uma contradição de termos. Mas, mais do que isso, é a sua experiência. Ele era jovem, estava apaixonado e entusiasmado com sua carreira de escritor. A gente não pode esquecer que o livro foi escrito muitos anos depois, um ano antes de sua morte. Hemingway estava saudosista daquele tempo e por certo idealizou muito, assim como eu faço – muitos fazem – quando lêem o livro e se deixam seduzir por ele.
Andar nas ruas de Paris. Nas ruas não, nas calçadas. Frequentar os cafés e quando não encontrar ninguém para conversar sobre o nosso mais novo projeto literário, sentar a uma mesa, e beber uma taça de vinho olhando para quem passa. Caminhar com eles, homens e mulheres – muitos dos quais morrerão na guerra – e despercebido do perigo que nos ronda, sentindo-se mesmo pleno de felicidade e desfrutando de uma inocência da qual sentiremos saudade mais tarde, imaginar personagens e poder traçar – um minuto antes do clímax alcoólico – alguns perfis de personagens.
Alguém sensato dirá que esta Paris não existe. Jamais existiu senão para Hemingway. Talvez. Não me interessa pensar assim. Só sei que todas as vezes que abro as páginas de Paris é uma festa sinto-me como se tivesse sido minha a experiência – e não a de Hemingway – de viver em Paris nos anos vinte, ao lado de minha esposa que me ama e me admira. Antes do fim da inocência. Mas não é apenas uma lembrança – e aqui me mostro mais poderoso do que o autor. Eu, o simples leitor – parece que ainda estou lá, sou o usurpador da experiência do outro, vivendo todos os dias aqueles dias felizes. Só preciso abrir as páginas. Durante o tempo da leitura dura em mim a sensação de eternidade.
09 junho 2010
Indignação
Tenho lido tudo o que vem sendo publicado do Philip Roth aqui no Brasil, nos últimos anos, e venho fazendo isso desde quando descobri o autor, a coisa de uns dez anos e por puro acaso. O livro que veio parar nas minhas mãos, por força do destino, foi O Teatro de Sabath. Encontrei-o na prateleira da livraria – pequena livraria que, me parece, ainda funciona num quartinho – minúsculo quartinho – na faculdade onde cursei letras no final dos anos 90. Carlos, o dono da bodega de livros, disse que o romance veio parar ali por engano – nas prateleiras só havia livros técnicos, muita coisa de biologia e história e também pedagogia e outros livros que propunham conhecimento e pragmatismo – os clientes do Carlos não perderiam tempo com livros inúteis – e por isso o Teatro estava sendo vendido por um preço realmente ridículo, só pra desocupar espaço na prateleira, disse-me o Carlos. Li o comentário na orelha do livro e o comprei. Mas não foi o enredo ou a informação de que o autor havia conquistado o pulitzer aquilo que me fizeram comprar. Minha maior motivação, devo dizer, foi mesmo o preço, uma ninharia.
Li o livro alguns dias depois e aí não parei mais, vieram depois dele Pastoral Americana, A Marca Humana, Homem Comum e muitos outros como o impagável Complexo de Portnoy. Todos publicados no Brasil. Gostei de cada um deles, uns mais que outros, mas gostei de todos e hoje, dez anos depois do Teatro de Sabath, posso dizer que sou um fã. Sem carteirinha nem gritinho. Apenas fã. O que o Philip Roth escreve eu compro e leio imediatamente, mesmo quando estou interrado até o pescoço noutros projetos de leitura.
Por esses dias li Indignação, seu penúltimo romance – o último já saiu, chama-se A humilhação – nele Roth conta a história de Marcus. Ao contrário de outros personagens que sofrem as pressões da velhice, este é jovem, e nem por isso menos trágico.
Vamos começar do começo, bem simples, não vou dizer tudo, imagino que muita gente ainda não leu e prefere ficar sabendo do desenvolvimento da narrativa pelo próprio Philip Roth, mas é preciso dizer que Marcus, o narrador, conta sua história do mundo dos mortos como o nosso Brás Cubas – isso fica patente na orelha do livro – logo não estou adiantando nada. Pois bem, Marcus, o autor defunto é um menino de 18 anos e estava na faculdade quando tudo começou, o contexto é do início da década de 50 quando seu pai é açougueiro kosher, isto é, vende carne sem sangue para judeus. Os EUA estão em guerra contra a Coréia e Marcus, que perdeu dois primos na Segunda Guerra, morre de medo de ser convocado para ser recruta zero e morrer. E se morrer é uma coisa estúpida e nos desafia os sentidos, morrer na guerra é ainda mais estúpido e sem sentido. Ele é um bom garoto, e de tão bom chega a ser perfeito, sua mãe acha isso, seu pai e todos os vizinhos judeus compradores de carne kosher também concordam. Dedicar-se aos estudos, portanto, que ele já fazia por vocação, pois é menino prodígio, autodidata e leitor dos bons, agora com a guerra e a possibilidade de virar estrume na Coréia, passa a ser, além da única via possível de interromper a tradição de açougueiros da família, a estratégia de que precisa para driblar o Tio Sam e não ser convocado ou pelo menos não ser convocado como soldado raso com todas as chances possíveis de efetiva participação no front.
Vamos lá. Ele sai de casa para fugir do pai porque o senhor açougueiro teve uma coisa, pirou, teve um surto, foi acometido pela síndrome do pânico. De repente ficou desesperado com a idéia – fixa – de que algo de ruim pudesse acontecer com o filho. Único filho. E esse desespero não tinha motivos. Tudo bem que havia a guerra, mas a guerra não convocaria o Marcus, e sobravam motivos pra isso, ele não se enquadrava no perfil de bucha de canhão, estava se graduando, era o melhor da classe. Aluno nota dez. Graduar-se ou se casar valia uma dispensa da guerra. A fixação do pai, portanto, era doença. É a mãe de Marcus quem reconhece isso. Fica claro na conversa entabulada com o filho quando vai visitá-lo no hospital. É ela quem fala do marido, hoje um desconhecido, tão diferente do açougueiro kosher com quem se mantivera casada todos esses anos, alguém que sempre conseguiu se manter na linha, justo, coerente e honesto, um homem de quem ela sempre se orgulhou e agora sentia medo. Tanta é sua convicção de que o marido não é mais o dr. Jekyll, que está disposta a se divorciar dele. Mas não se divorcia, e a isso se deve o acordo que faz com o filho. Ele não devia se encontrar mais com a namorada que cortou os próprios pulsos. Em troca disso desiste do divorcio e volta para Mr. Hide.
Pois é, há a namorada. A garota que faz sexo oral no primeiro encontro e deixa o Marcus meio desorientado. Mas nós estamos na década de 50, estamos nos EUS de maioria cristã e o Marcus, mesmo sendo ateu e dono de bom discernimento, ainda é um homem do seu tempo. Está preso a valores, mesmo àqueles que ele despreza e que, não fosse a precoce interrupção da vida, provavelmente superaria. Nós estamos – insisto – no início dos anos 50, ele só tem 18 anos e há a guerra. A famigerada guerra é a grande causadora do stress.
Pois é, o stress. Marcus não é inconseqüente juvenil como Ícaro, ele não é frágil, impetuoso ou cheio de ódio – talvez um pouco de ódio – mas um ódio por ser incompreendido, por tipos como o diretor e os dois alunos com quem ele divide os dois primeiros quartos. Um deles, o Betram Flusser, que faz barulho e não deixa o colega estudar. Pronto, se muda e quando se muda uma segunda vez o faz por razão diversa, mas ainda assim razão: o Ewleyn Jr. ofende a menina por quem Marcus se julgava apaixonado. Deixa o quarto, procura outro, qual o problema?
O problema é que desta vez tem que se explicar com o diretor da faculdade que o convoca a seu gabinete. Tem de explicar por que em tão pouco tempo mudou-se duas vezes. Marcus explica ou pelo menos tenta. E por mais que se explica não se faz entender. Não adianta dizer que o Betram é um vagabundo, esse sim um inconseqüente, que não deseja estudar nem deixar ninguém estudar. O diretor, que é religioso, e obriga a todos os alunos, cristãos e judeus, além dos ateus, a assistirem ao culto, ministrado por ele próprio, está disposto a não levar em consideração os argumentos de Marcus. Sobre o aluno já formulou seu conceito. E o conceito formulado por ele é de que Marcus está fugindo, do pai, do açougue, dos colegas de quarto, da guerra etc.
Então é a vez de Marcus pirar. É muita pressão, do pai, da guerra, dos colegas de quarto, da mãe e sua chantagem, da namorada que se decepcionou com ele, com sua reação de homem da década de 50 que não consegue encarar numa boa o fato de ser chupado no primeiro encontro e por fim aquele diretor Caudell e seu interrogatório despropositado, um tipo detestável de dono da verdade a quem Marcus considera supersticioso e limitado. É interessante o diálogo dos dois, quando Marcus, cansado de não conseguir se fazer entender na sua enésima tentativa de explicar as razões que o levaram a mudar-se duas vezes, explode e acaba dizendo tudo o que pensa do diretor e da maneira como ele conduz a faculdade obrigando os alunos, independentemente de suas convicções, a freqüentar o culto religioso. Philip Roth, no discurso da personagem, reproduz trechos inteiros de "No que acredito" de Bertrand Russell, livro considerado blasfemo pelos religiosos.
Então Marcus perde o controle das coisas e suas ações mais banais resultam no desfecho trágico. Mais do que Ícaro e sua queda provocada pela inconsequencia juvenil, a queda de Marcus não é tão simples, pois carrega consigo uma boa dose das pressões provocadas por quem não quis ou não pôde entender suas razões mais simples de encarar o mundo e levar a vida.
31 maio 2010
DEUS um delírio
É interessante quando percebemos que a história não revela muitos casos – para não dizer nenhum – de ataques de ateus ou agnósticos contra religiosos. Os exemplos de violência partem quase sempre dos religiosos em direção àqueles que se arrogam o direito de não professar religião nenhuma ou o de admitir simplesmente seu sentimento de negação para com Deus. Eu conheci um professor de inglês que passou uns dias vivendo em nossa cidade, onde se empregou em algumas escolas. Ele apresenta duas peculiaridades que o distingui do tipo mais comum e normalmente aceito de heterossexual e cristão, é assumidamente gay e ateu. Numa conversa me disse que não enfrentou problemas por causa da opção sexual, pelo menos não o tipo de problema incontornável. Mas, quando em uma escola ficaram sabendo de seu ateísmo, as coisas tomaram outro rumo que resultou na sua demissão. Disse que não apresentaram nenhuma justificativa. Não houve sequer a tentativa em explicar o porquê de estar sendo demitido, apesar do bom trabalho desenvolvido na escola. Apenas apresentaram a demissão e pronto.
Há um capítulo inteiro em DEUS um delírio em que Dawkins trata dessa questão. Ser ateu não implica dizer herege, assassino ou bruxo, termos esses que em épocas bem remotas foram usados como “sinônimos” para ateu. Dawkins vai mais longe quando diz que o Velho Testamento não pode servir de modelo de moralidade, não para os nossos dias, não para o tipo de civilização que construímos. Nosso zeitgeist moral não nos permite mais considerar a mulher como mera propriedade. Hoje em dia ninguém concordaria com a atitude do hospitaleiro em Juízes 19, 25-26. Sentimos alguma dificuldade em entender as razões que levaram Jave a exigir de Abraão o sacrifício de Isaac, tampouco é justificado o genocídio contra os midianitas e a fúria de Moisés contra os soldados que pouparam as crianças e mulheres. Acho que muito provavelmente poucos entre nós concordariam com o procedimento de Josué em Jericó e ninguém que eu conheça está disposto a atender o Levítico que nos recomenda matar qualquer um que trabalhe no sábado ou mantenha relações sexuais com o mesmo sexo. Em outras palavras, o Velho Testamento pode ser uma boa obra de ficção, pode haver valor poético como há na Ilíada ou Odisséia, mas seguramente não há um valor moral que nos possa servir de modelo. Muitos que o consideram assim costumam seqüestrar aviões para bater contra prédios. Só há duas maneiras de entender tal livro como modelo de moral: Ou você é um fanático religioso, pertencente a alguma sociedade teocrática ou simplesmente nunca o leu.
André Comte-Sponville em O Espírito do Ateísmo, aborda, entre outras questões, a de que é possível viver sem religião e que há de fato espiritualidade no ateísmo. O livro é um convite ao prazer da leitura e seu autor, o filósofo, discorre sobre questões polêmicas com delicadeza e diplomacia. Aponta a ética como a luz do farol que deve guiar a todos nós, ateus ou religiosos, em nossa passagem pela vida. Para ele, esta vida, a vida que temos, é a única possível e diante disso a alternativa viável é viver do melhor modo possível. O ateu, mais do que aquele que espera os préstimos de uma vida pós-tumulo, tem as melhores razões para ser ético e isso faz toda a diferença e nos assegura que ele, muito diferentemente do que pensava certa personagem dostoievskiana, é nossa melhor aposta na construção de uma sociedade que tem na vida, seu mais precioso bem.
15 maio 2010
a visita dos mórmons
Cada um deles se sentou numa poltrona, gesto esse que foi imitado por mim, que fiquei com a terceira, a do meio. Os dois rapazes, de pele branca e sardas no rosto, ainda não tinham dito nada e eu já brigava com minha compulsão de olhar o relógio, afinal era sábado e aos sábados a gente só deve fazer o que gosta.
Um deles, como que adivinhando minhas considerações mentais a respeito de desperdício do tempo, perguntou-me se poderia contar uma história. Eu disse que foi pra isso que eu os deixei entrar, ele não entendeu minha ironia e prosseguiu retirando de uma pasta o que pareciam três cartas gigantes de baralho. Na primeira um homem de tez confiável entrava num bosque, na outra tinha sua atenção voltada para uma direção de onde emanava forte luminosidade e na terceira, com o semblante que era pura contrição, aparecia ajoelhado diante de um Jesus ariano de quatro metros de altura.
Durante a exposição das ilustrações, feita por um dos rapazes de sardas no rosto, o outro me narrava em seu português, carregado de sotaque, a história de como foi dada a Joseph Smith a revelação de um novo evangelho, apesar de Paulo, o inventor do Cristianismo, nos advertir que é anátema todo evangelho que não trouxer a assinatura de João, Marcos, Lucas e Mateus.
Quando ele terminou sua história, fitou-me por um momento e perguntou o que eu estava sentindo. Ele não me perguntou o que eu achava; o que pra mim devia ser a pergunta mais cabível, mas talvez sua pergunta mais do que uma intenção, refletia sua dificuldade com a língua. No momento não sei se encarei assim, lembro-me apenas que em cima da dele fiz minha própria pergunta, esta sim, cheia de intenção.
Posso ser honesto?, eu perguntei. Eles se entreolharam e não sei se entenderam. Houve qualquer coisa como uma confusão nos olhos deles. Talvez aquela palavra – honestidade –, ainda mais em português, fosse-lhes completamente estranha. Os mórmons ainda esperavam que eu dissesse o que sentia quando usei outra palavra, esta sim, mais do que a outra; completamente estranha no vocabulário mórmon. Eu disse que sentia incredulidade. Disse que não podia acreditar num Jesus de estatura normal, muito menos num de quatro metros, e disse que mais estranho do que aquela altura toda era o fato dele estar na América. Eles continuavam sem entender quando eu completei: Jesus era comunista, o que é que diabo fazia na América do Norte?
Quando foram embora, me restituíram o sábado e me deixaram de presente o Livro dos Mórmons, que eu conservo até hoje, só pra contrariar o Paulo.
05 maio 2010
Wilmot e Meslier
Clarence Wilmot, ministro presbiteriano, é um personagem interessante do John Updike. No romance, Na Beleza dos Lírios, ele é um religioso que resolve – para poder argumentar a favor de sua fé – ler autores como Nietzsche e Darwin a fim de refutá-los. Acontece, porém, que o tiro sai pela culatra e o ministro, ao invés de refutar os argumentos dos materialistas, descobre-se convencido deles. A implicação é perder a fé e se deparar com o absurdo. Durante algumas páginas acompanhamos o drama da personagem que tem sua vida transformada a partir daquele evento – o da perda da fé – de organizada e coerente em caótica. É interessante o conselho que lhe dá um de seus superiores, de que ele continuasse assim mesmo, sem fé, com a prática religiosa. Wilmot, sem temperamento para tanto, e cativo de uma honestidade latente para consigo mesmo, não empreende a farsa e abandona o ministério. É claro que ele sofre todo tipo de recriminação por parte da família que não consegue entender como alguém pode levar tão a sério uma crise de fé. Desistir do ministério significa perder o emprego e a casa paga pela congregação. O resto de sua vida será consumido vendendo enciclopédias para sustentar os filhos.