20 janeiro 2010
história do pranto
O livro não exige o uso de dicionários e, portanto não está desqualificado para ser lido na praia, mas exige alguma atenção do leitor que às vezes percorre uma página inteira e não sai de dentro da mesma frase. São as frases-droga, como chama o autor, que tem a função de arrastar o leitor e narcotizá-lo.
14 janeiro 2010
na praia
Em janeiro o negócio é sair de férias e de preferência se mandar para o litoral. Seria uma ótima opção não fosse um inconveniente. É que com você também se mandam os imbecis. Minha idéia de praia é o seguinte: uma cadeira confortável onde a gente pode se sentar e se deitar quando uma onda de preguiça tomar conta do corpo, principalmente depois de alguns goles a mais de cerveja. Pois bem, antes da preguiça e do exagero alcoólico, nosso corpo ainda se mantém sentado e nós seguramos na mão um bom livro. Não precisa ser nada difícil, Euclides da Cunha não é uma boa idéia nem o autor de Balmaceda tampouco; a preocupação com dicionários e lápis com a ponta que precisa ser refeita de vez em quando não combina muito com a tal cadeira e os pés – descalços – metidos na areia. Eu recomendo um livro que dispense a consulta ao dicionário ou anotações no rodapé, um livro que não subestime nossa inteligência, mas que não superestime tampouco. Um livro que o marulho das ondas não atrapalhe sua leitura, no máximo possa servir de música ao fundo que logo esquecemos tão vidrados ficamos. Eu penso num clássico da literatura noir como O Falcão Maltês de Hammett, por exemplo. É, o Falcão é uma ótima idéia. Um desses livros que provoca prazer e que, talvez por isso e por dispensar dicionários, o Fernando Sabino tão injustamente taxou de descartáveis. Você, sua cadeira dobrável e o Falcão. No mais a areia e o mar rugindo.
Quem sonha poder nas férias ler o seu Hammett sentado na sua cadeira dobrável tem que fazer como eu: evite as aglomerações, corra de São José e Tamandaré, procure as praias desertas, mesmo que o consumo de gasolina ultrapasse o orçamento. Amanhã eu vou pra Tambaba. É verdade que todos tiram a roupa por lá, e isso pode distrair meu Falcão, mas a moça do centro turístico me garantiu uma coisa, disse que o som – o senhor pode confiar – é proibido nas barracas.
11 janeiro 2010
Viagem Vertical
Os romances de Vila-Matas são oportunidades para conversar sobre livros e escritores: O Mal de Montano é assim e Batlerby e companhia também. Ele me lembra Borges, não o escritor – se é que podemos separar as duas figuras –, mas o leitor. Borges disse certa vez que se sentia capaz de passar 24 horas falando sobre literatura. Seus livros atestam isso. Neles o tema mais recorrente é o do mundo representado pela biblioteca. Os contos são ensaios sobre livros. São famosos seus prólogos. Vila-Matas se identifica com Borges, certamente é seu leitor da vida inteira e assim como o escritor argentino ele também se sente atraído pelos livros.
De fato. Até a página 179 – de um total de 252 – o leitor deduz que Viagem Vertical é uma história contada em terceira pessoa que tem como protagonista Mayol – um velho aposentado, dono de uma empresa de seguros que vê a vida vir abaixo no dia em que a mulher lhe faz um estranho pedido. Ele vai desembarcar na Madeira, em Portugal, sem rumo e sem tino, onde encontra por acaso o sobrinho a quem não via fazia anos e que como o tio, também passa por uma crise. Dono de uma solidão que não consegue conter no peito, a personagem ver-se na sua viagem vertical.
Ao que tudo indica Mayol levava uma vida normal, estava aposentado, havia passado a empresa para o comando do primogênito – de quem se orgulhava – e se distraia do fim apostando na convicção de que deixava as coisas em ordem e se sua vida chegava nos últimos momentos, ao menos fez sentido, afinal construiu algo de sólido como a família e a empresa milionária. Em outras palavras, o fim não era encarado com perplexidade, mas com conformismo e parcimônia.
Algo, entretanto, acontece que vai tirar o ancião de tempo. O pedido absurdo da mulher é que ele desapareça da vida dela. A esse choque vem juntar-se a decepção com o filho mais velho que se diz cansado da empresa e do casamento e pior que isso; o ressentimento que nutre pelo filho Julián, um pintor excêntrico que se julga o próprio Toulouse-Lautrec vivendo na Paris boêmia dos anos vinte. Esse filho caçula e solteiro de 42 anos é um imbecil da cabeça aos pés apesar de ser homem culto e instruído. Num episódio recente, recordado por Mayol enquanto caminha pelas tumbas de um cemitério, chama o pai de inculto. Ora, o complexo de inferioridade por ter freqüentado a escola só até os catorze anos é uma frustração que Mayol carrega. Recordar-se da declaração do filho no momento de crise desencadeada pela expulsão da mulher só piora as coisas e o faz se sentir como a última das criaturas.
Na página 179 nos surpreendemos com o narrador. Não é onisciente, não é Vila-Matas, mas o gerente do hotel onde está hospedado Mayol na Madeira. Esse gerente se interessa pela história do velho e vê nela a oportunidade de escrever seu primeiro romance, apresenta o hospede a uma espécie de clube literário e a história do homem em crise acaba incluindo conversas sobre o livro – mesmo os que Mayol disse que leu sem ter lido – e nós, leitores de Vila-Matas, reencontramos o autor que não consegue separar a vida da literatura.
08 janeiro 2010
Cine Privê
Mário, acabei de ler Cine Privê e concordo que se trata de um bom livro, aquilo que me preocupa é quando o Antônio Carlos Viana é apresentado como a melhor expressão do conto no Brasil. Não é bem assim. Os contos são bons, aquilo que ele toma de empréstimo de João Cabral e Graciliano – a prosa enxuta e direta –, conservando ambigüidade e o lance da história que não termina no ponto final são excelentes, mas são recursos utilizados por todo mundo. Todo mundo evita verborragia e quem leu as teses do conto de Piglia sabe que ambigüidade e história secreta são elementos básicos. Tudo bem, imagino que você esteja pensando – como todo mundo, aliás – que a questão não é essa, mas a habilidade do escritor em saber lidar com tais elementos. Concordo, sem dúvida, mas eu posso citar uns dez contistas que fazem isso tão bem e até melhor do que o Viana, quer um exemplo?, o Ronaldo Correia de Brito. Em Viana a prosa enxuta e seca serve para conferir mais efeito nos flagrantes de personagens em situação limite, normalmente advinda da miséria e loucura. Aliás, de miséria e loucura padecem as personagens do Antônio Carlos Viana. Não é uma crítica, todo escritor tem suas obsessões. Não acredito em escritor que não tenha obsessão. A vontade de matar o irmão ou fornicar com a mãe, sofrer na pele e alimentar o despotismo do pai, além da possibilidade de poder recorrer ao suicídio e por isso encontrar lenitivo para continuar vivendo já nos rendeu excelentes obras primas. Mas a força dos contos de Viana parece residir muito mais no choque que nos causa o quanto na merda seus personagens estão afundados do que na realização material da escrita. Ele se orgulha de colocar na fala da personagem o discurso possível daquele personagem, condicionado pelo meio cultural como se isso fosse uma novidade e não uma característica já fartamente utilizada por naturalistas e regionalistas etc. Mas, retomando o que eu falei no início, o cara é bom e tudo mais, apenas não é a melhor expressão da literatura contemporânea. Não pode ser e se for, preocupa-me as veredas estreitas dessas nossas letras nacionais.
06 janeiro 2010
livreiro da província
O ruim de viver na província é que deixamos de usufruir determinadas coisas que só encontramos nos grandes centros como teatro, cinema que não passe apenas as últimas super produções americanas e uma boa livraria. É por isso que o Joaquim se mandou para o Recife.
Todo mundo sabe que brasileiro não lê. Pelo menos não lê como deveria. O número de leitores potenciais de que nos fala Marçal Aquino é de fazer dó, em todo o território brasileiro ele contabilizou 600 ou 500, não me lembro agora. Marçal não estava se referindo aos leitores dos livros que viraram filmes, auto-ajuda ou os pretensos livros psicografados. Esses não contam. Não merecem figurar numa estatística, ou pelo menos não numa estatística que pretendesse medir o bom nível intelectual de leitores.
E para não mudar de negócio porque o bar será sua última opção de sobrevivência, o livreiro da província que não tem na sua cidade sequer uma parcela mínima dos tais leitores potenciais, acata o conselho prudente, perde todo o amor pelo que fazia e passa a morrer todos os anos de uma ulcera gástrica.
26 novembro 2009
u-Carbureto
04 novembro 2009
2012
O que isso nos diz? Que as pessoas são assim, elas buscam sentido e ordem em tudo. Aquilo que tem começo precisa ter um fim. É essa, talvez, a razão por que damos tanto crédito aos vaticínios de fim de mundo. O fim do mundo anunciado centenas ou milhares de anos atrás estabelece um nexo de ordem no caos. Outra razão, que tem tudo a ver com a primeira, é uma pretensão que alimentamos em torno do que somos e do que representamos. Creditamos a nós mesmos uma importância de protagonistas do universo. Assim como os judeus, nos sentimos o povo escolhido. Montesquieu traduziu nossa natureza numa passagem do seu Cartas Persas, no livro ele diz que mesmo que a imortalidade da alma fosse um erro, sentiria não crer nela porque o satisfaz a idéia de ser tão imortal quanto Deus. Ele chamava aos ateus de os verdadeiros humildes.
Não creio que o mundo vá acabar em 2012, mesmo sendo isto um vaticínio da ciência e religião juntas. Dizem que um dos calendários Maia acaba na data correspondente ao nosso 21 de dezembro de 2012. tampouco por isso. Mas não sou radical, acho que um dia algum cataclismo vai extinguir da face da terra a aventura humana, mas quando isso acontecer, não vai ser anunciado, vai ser num dia como qualquer outro, um domingo à tarde de sol e boas recomendações meteorológicas. Vai nos pegar a todos desprevenidos e vamos todos, com nossas caras espantadas, perecer como sempre existimos, sem o menor sentido.